‘Lenda dos hedge funds’ que enfrentou a Argentina por 15 anos trava batalha em Miami

Ex-executivo da Elliott Management, Jay Newman ajudou a obter um acordo bilionário após o calote da dívida argentina, e agora entrou na Justiça contra incorporadores imobiliários e a cidade de Miami Beach por uma passarela prometida aos moradores de um condomínio de luxo

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Bloomberg — Jay Newman ganhou fama no mundo dos hedge funds ao resistir mais que a Argentina em uma dura batalha de 15 anos, iniciada quando o país deixou de honrar as dívidas.

Agora, uma década depois do confronto que marcou a carreira, Newman, de 74 anos, adota a mesma postura combativa e incansável contra um alvo muito diferente: os incorporadores do prédio de apartamentos de luxo em Miami Beach que hoje chama de lar.

O problema não é o apartamento no 46º andar que comprou deles — por US$ 17,2 milhões —, mas a passarela para pedestres que haviam prometido construir e não construíram. O projeto previa uma vistosa passarela chamativa sobre a Fifth St., que daria aos moradores um atalho para restaurantes e boutiques de South Beach.

“Eles vão construir a passarela”, afirma Newman, sem rodeios.

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Sob vários aspectos, é uma disputa típica deste momento, no qual nova-iorquinos ricos, como Newman, se mudam em massa para Miami e aos poucos conhecem as peculiaridades locais. Comparados à batalha de bilhões de dólares contra a Argentina, os valores em jogo são ínfimos. Ainda assim, Newman afirma que o princípio é praticamente o mesmo: alguém fez uma promessa e agora tenta escapar dela.

Na visão dele, não se trata apenas de uma briga entre integrantes do 1% do 1%. É claro que a passarela importa muito para Newman — ela foi parte do motivo pelo qual comprou o apartamento em 2024 —, mas a construção, afirma, beneficiará todos na região, ao permitir a travessia segura de uma via movimentada e criar um novo e colorido portal de entrada para Miami Beach.

“Então, sim, isto é meio que a minha nova Argentina”, diz Newman, que foi um dos principais executivos do bilionário Paul Singer no hedge fund Elliott Management, em entrevista.

Lenda de hedge funds

A campanha obstinada e, por vezes, quixotesca de Newman para cobrar da Argentina o pagamento de bilhões de dólares em títulos que entraram em default tornou-se lendária no mundo dos hedge funds.

Os advogados da Elliott conseguiram vitórias de grande repercussão, como a apreensão de um navio argentino de três mastros. A então presidente do país, Cristina Fernández de Kirchner, passou pelo constrangimento de ter de fretar aviões para viajar ao exterior, evitando que o avião presidencial argentino tivesse destino semelhante.

A Elliott e um pequeno grupo de outros gestores acabaram fechando um acordo histórico de US$ 4,7 bilhões, e Newman deixou a empresa pouco tempo mais tarde.

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Hoje, em Miami Beach, ele faz trabalhos ocasionais de consultoria e palestras, escreve artigos de opinião para o Financial Times e, em 2022, publicou Undermoney, romance que mistura sexo, espionagem, assassinato e finanças.

Passarela empacada

Mas Newman só conseguiu ficar longe de uma briga por algum tempo.

A passarela fazia parte de um acordo fechado em 2019 com dois dos maiores incorporadores do sul da Flórida, David Martin e Russell Galbut. Pelo acordo, eles construiriam um parque público e supervisionariam a construção da passarela, e Miami Beach abriria caminho para o que se tornaria uma das torres mais altas da cidade.

Projetada pelo artista conceitual francês Daniel Buren, a estrutura multicolorida aparecia em materiais de marketing e em um acordo detalhado com a cidade. Miami Beach reservou cerca de US$ 10 milhões para o projeto, e a incorporadora deveria arcar com o restante.

No fim de agosto, porém, a incorporadora declarou que seria impossível construir a passarela conforme o projeto por causa de linhas de energia enterradas sob o local. Ao perfurarem o solo para a fundação da estrutura, trabalhadores atingiram o revestimento de um importante cabo que fornece eletricidade a Miami Beach. Em correspondência com autoridades municipais, um advogado da incorporadora se ofereceu para ajudar a cidade a encontrar outra solução.

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“Até o momento, não conseguimos identificar uma alternativa segura para construir a passarela conforme projetada e compartilhamos a frustração da comunidade”, afirmou Martin em comunicado enviado por email à Bloomberg. Ele disse estar “comprometido em trabalhar de forma colaborativa” com a cidade nas “próximas etapas”.

Dívida

Para Newman, a tentativa da incorporadora de desistir da passarela não representa um impasse de engenharia — é uma dívida não honrada. Ele enfrenta o problema com a mesma determinação que empregou para obrigar a Argentina a pagar aos detentores dos títulos soberanos em default.

Ele mobilizou vizinhos para reclamar com o prefeito e vereadores em audiências públicas. Criticou a incorporadora no Substack pessoal. Encomendou análises de engenharia e formou uma aliança com Buren, que escreveu uma dura carta à prefeitura.

Em 13 de outubro, Newman, presidente da associação principal do condomínio, acionou os advogados. Ele e a associação processaram a incorporadora e Miami Beach na Justiça federal dos EUA, com acusações de fraude e violações de uma lei federal sobre venda de imóveis, além de pedir indenização pela passarela não construída. Foi a segunda disputa judicial dele com a empresa, após um conflito anterior envolvendo suítes para hóspedes.

A incorporadora sustenta que pode desistir da passarela para pedestres em determinadas circunstâncias. Martin também contesta que a travessia fosse uma condição para a aprovação da torre e afirma que o empreendimento já havia recebido sinal verde quando, posteriormente, eles concordaram em ajudar a cidade a construir a estrutura. Um advogado que representa a incorporadora afirmou que a ação apresenta uma versão unilateral do projeto e que eles esperam esclarecer os fatos.

Newman não se deixa abalar e afirma que lutará pelo tempo que for necessário para que a passarela seja construída.

“Eles não têm saída”, afirmou.

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