Bloomberg Opinion — É a maior disputa eleitoral do mundo neste ano e, mesmo assim, ainda não vimos os adversários trocarem farpas frente a frente.
A apenas 10 dias do decisivo segundo turno de 25 de outubro, a realização dos debates entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o adversário Flávio Bolsonaro continua surpreendentemente incerta.
Em tese, os dois candidatos já confirmaram participação no primeiro de dois confrontos televisionados previstos para 18 e 23 de outubro. Mas dois debates anteriores já foram cancelados — um, na última hora, pouco antes do primeiro turno, e outro que deveria ter ocorrido no fim de semana passado, cancelado oficialmente por causa de um “conflito de agenda”.
Cálculo eleitoral cínico, receio de cometer erros não forçados e animosidade mútua impediram até agora que as campanhas acertassem um confronto.
Na quarta-feira (14), a Kalshi atribuía probabilidade de 93% à realização de pelo menos um embate, ante 63% no dia anterior, depois que Flávio voltou atrás e afirmou que compareceria ao evento de domingo.
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A própria existência de um mercado de apostas sobre a realização dos debates mostra como a situação continua indefinida. Lula, que está 5,6 pontos percentuais atrás de Flávio nos votos válidos, segundo a AtlasIntel/Bloomberg, tem pouco a perder e todos os motivos para subir ao palco.
Resta torcer para que, no fim, esse confronto tão aguardado aconteça. Caso contrário, seria um claro retrocesso democrático em um país onde o apoio à democracia está diminuindo.
Apenas 41% dos brasileiros afirmam que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo, o segundo menor índice da região, à frente apenas da Guatemala, segundo a pesquisa mais recente do Latinobarómetro.
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Debates dificilmente mudam o rumo de uma eleição, mas uma pesquisa recente do Datafolha constatou que 78% dos brasileiros consideram muito importante a participação de Lula e Flávio.
E, se eles não quiserem fazer isso como exercício democrático, deveriam fazê-lo ao menos por razões táticas: de Andrés Manuel López Obrador, em 2006, ao próprio Lula, no início deste mês, candidatos que evitaram debates para proteger uma vantagem imaginária acabaram sofrendo nas urnas.
Acima de tudo, o Brasil precisa desses debates porque os eleitores têm o direito de ouvir, com todas as letras, as propostas específicas dos candidatos sobre três de suas maiores preocupações: o crescente déficit fiscal, a crise política em torno do Supremo Tribunal Federal e a preocupante onda de insegurança no país.
É justo dizer que, até agora, tanto Lula quanto Flávio deram poucos detalhes sobre como enfrentariam essas questões, o que transformou a campanha mais em uma troca de acusações entre esquerda e direita do que em um debate sério de ideias.
Flávio, por exemplo, afirmou que vai usar um “tesouraço” nos impostos, na burocracia e na corrupção para colocar as contas públicas em ordem, ao estilo de Javier Milei na Argentina, caso seja eleito. Mas teve o cuidado de não estabelecer um número preciso para o ajuste fiscal.
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Embora a imprensa brasileira tenha publicado que os assessores econômicos estudam um corte inicial no Orçamento equivalente a cerca de 2% do PIB, publicamente eles descartaram privatizações, prometeram fortalecer programas sociais e disseram que reduzirão impostos para empresas.
O argumento de que o ajuste fiscal de Flávio terá como foco os “excessos do governo” pode parecer razoável, mas não é preciso ser economista para saber que mudanças cosméticas dificilmente recolocarão a trajetória da dívida brasileira em bases sustentáveis.
Lula, por sua vez, reforçou o discurso de combate ao crime com a derrota no primeiro turno e renovou a promessa de prender os bandidos: “Para o povo trabalhador, proteção. Para o criminoso, prisão” é o novo slogan. Não seria descabido perguntar por que ele ou o partido não fizeram isso nos 16 anos deste século em que estiveram no governo.
Há ainda a espinhosa questão do Supremo, com Lula tentando equilibrar a defesa de uma reforma do judiciário e o apoio ao controverso ministro Alexandre de Moraes, cujo impeachment Flávio pretende promover.
Quem vencer o segundo turno terá condições de nomear pelo menos quatro ministros do STF no próximo mandato presidencial. Os brasileiros merecem ouvir explicitamente dos dois candidatos quais mudanças cogitam para melhorar uma instituição que há muito tempo presta um desserviço ao país.
Mesmo para quem considera inevitável, a esta altura, a guinada do Brasil à direita, os debates dariam maior transparência a todas essas questões centrais antes do dia da decisão.
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Infelizmente, os candidatos parecem mais concentrados em tentar obter vantagens jurídicas por meio de decisões judiciais favoráveis do que em ser totalmente transparentes com os eleitores.
De fato, reportagem do jornal O Globo constatou que as campanhas abriram 698 processos contra adversários na Justiça Eleitoral apenas no primeiro turno, quase três vezes mais do que na eleição anterior. A grande maioria das ações foi apresentada por representantes de Flávio contra os de Lula, ou vice-versa.
Essa estratégia representa um enorme desperdício de recursos e atenção — e, além disso, é covarde. Em vez de perder tempo com pequenas batalhas judiciais, os candidatos deveriam dizer ao eleitorado o que farão para melhorar a vida das pessoas.
Se alguém não consegue subir ao palco e defender as próprias ideias diante do principal adversário por algumas horas, talvez devesse pensar em outra profissão.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
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