Warsh quer que o Fed fale menos, mas mensagem do Nobel de Economia é que isso é um risco

Reconhecimento dos trabalhos de Michael Woodford e Robert Hall reforça que a eficácia dos bancos centrais depende não apenas das decisões sobre juros, mas também da capacidade de orientar expectativas, uma conclusão que desafia diretamente a preferência do presidente do banco central americano

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Bloomberg Opinion — A Academia Real Sueca de Ciências tem um senso de humor fantástico.

Em um momento em que o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, transformou a “orientação prospectiva” do banco central em uma expressão proibida, a academia concedeu o Prêmio Nobel de Economia a Michael Woodford, um dos pais intelectuais dessa prática, e a Robert Hall, cuja pesquisa sobre as expectativas das famílias serviu de base para os estudos posteriores de Woodford. Esperamos que o prêmio leve Warsh a reconsiderar sua cruzada contra a orientação e a transparência.

Desde que foi indicado para liderar o Fed no início deste ano, Warsh tem se mostrado inflexível quanto à ideia de que o banco central americano deveria “parar de falar tanto”. Ele se recusou repetidamente a fornecer uma explicação sobre o que o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês), responsável pela definição das taxas de juros, poderia fazer em resposta às mudanças nas condições econômicas — o que é conhecido como a chamada “função de reação” do Fed.

Além disso, ele reduziu drasticamente o tamanho dos comunicados do Fed após as reuniões de política monetária; encurtou as coletivas de imprensa; sugeriu a ideia de diminuir o número de reuniões anuais do Fed e, ao mesmo tempo, demonstrou uma visão negativa do Resumo das Projeções Econômicas — a pesquisa anônima do Fed com formuladores de políticas sobre suas previsões de taxas e da economia — recusando-se a participar pessoalmente.

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Na opinião de Warsh, o Fed pode alcançar os melhores resultados sem precisar se explicar. Mas a pesquisa de Woodford mostra que a comunicação é essencial para alcançar o sucesso. Como ele mesmo afirmou certa vez em uma entrevista, a eficácia do banco central não depende apenas de tomar a decisão certa, mas “comunicar como você chega a essa decisão também é importante”.

Uma estratégia de comunicação eficaz significa que os mercados podem precificar imediatamente o que os formuladores de políticas provavelmente farão em resposta a um determinado desdobramento macroeconômico, ajudando a alcançar os resultados pretendidos pelo banco central de maneira eficiente.

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A pesquisa de Woodford na década de 1990 e no início dos anos 2000 estabeleceu que a política monetária atua principalmente por meio das expectativas, fornecendo aos banqueiros centrais uma justificativa econômica para abrir instituições que antes eram vistas como templos do sigilo.

Seu influente artigo de 2003, em coautoria com o economista Gauti Eggertsson, frequentemente recebe crédito por fornecer uma base intelectual para o primeiro uso explícito, pelo Fed, de orientações sobre a trajetória da política monetária sob o comando do então presidente Alan Greenspan.

Naquele ano, Greenspan e o FOMC já haviam reduzido drasticamente a taxa-alvo dos fundos federais para 1%, mas os rendimentos dos títulos de 10 anos não estavam respondendo da mesma forma. Assim, quando se reuniram em agosto, o Fed manteve as taxas, mas acrescentou uma frase observando que o FOMC acreditava que “a acomodação da política monetária pode ser mantida por um período considerável”.

Foi uma conclusão revolucionária que se tornou possível graças ao trabalho de Hall sobre as expectativas das famílias e ao de Woodford sobre a comunicação do Fed. Conforme escreveu Woodford em um artigo posterior apresentado no Simpósio de Política Econômica de Jackson Hole, organizado pelo Federal Reserve Bank de Kansas City em 2005, a revolução da transparência trouxe amplos benefícios:

Há todos os motivos para acreditar que isso tenha sido benéfico, não apenas do ponto de vista da redução da incerteza com a qual os operadores de mercado e outros tomadores de decisão econômica precisam lidar, mas também no sentido de aumentar a precisão com que o FOMC consegue alcançar os efeitos desejados na economia, mantendo as expectativas dos participantes do mercado mais estreitamente sincronizadas com as suas próprias.

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Quando o Fed reduziu drasticamente as taxas para níveis próximos de zero durante a crise financeira global, o Fed, sob a presidência de Ben S. Bernanke — um coautor ocasional de Woodford — passou a utilizar a orientação prospectiva de forma muito mais ativa para proporcionar uma flexibilização adicional das condições financeiras que as taxas de juros de política monetária, por si só, não podiam oferecer, limitadas pelo limite inferior zero.

Em agosto de 2011, o comitê afirmou que as condições econômicas “provavelmente justificariam níveis excepcionalmente baixos para a taxa de fundos federais, pelo menos até meados de 2013”. Por sua vez, Woodford disse ter reservas quanto à forma específica dessa orientação. Ele afirmou que ela estava repleta de “letras miúdas” que davam ao comitê saídas de emergência e preferiu outro “critério-alvo”, propondo em Jackson Hole, em 2012, que o Fed considerasse uma meta de PIB nominal.

Embora o Fed não tenha adotado exatamente sua sugestão de PIB nominal, ele avançou em direção a um limite-alvo em dezembro de 2012.

Com a inflação acima da meta de 2% do Fed há seis anos consecutivos, os desafios enfrentados pela política monetária hoje são muito diferentes daqueles durante a crise financeira, e isso significa que as orientações sobre o futuro devem assumir uma forma diferente.

O Resumo das Projeções Econômicas — frequentemente usado para sinalizar a direção da política monetária — continua importante, mas talvez precise ser ampliado e aprimorado como parte de uma série de revisões institucionais em andamento. Por exemplo, o público costuma dar ênfase excessiva à projeção mediana do documento, mas essa estatística não representa necessariamente uma visão consensual dos formuladores de políticas.

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Uma ideia melhor poderia ser vincular as projeções de taxas de juros de cada formulador de políticas às suas previsões econômicas, para que os usuários possam inferir como cada um deles está pensando ao tomar decisões de política monetária sob um conjunto de premissas macroeconômicas. A introdução da análise de cenários também ajudaria o público a compreender o raciocínio dos membros do banco central.

Além da justificativa puramente econômica, a transparência diz respeito à sobrevivência institucional. Repetidamente, a opacidade dos bancos centrais tornou essas instituições alvos de um público cético e de populistas oportunistas.

Fundamentalmente, o Fed protegeu a si mesmo — e sua capacidade de definir taxas de juros em benefício de longo prazo do povo americano — ao se abrir para o mundo. Um Fed aberto é um Fed mais confiável, que encontrará um apoio social mais forte em um momento em que sua integridade institucional está sob ataque do presidente Donald Trump.

A economia e a política atuais exigem tanta comunicação com o público quanto era necessário na época em que a pesquisa de Woodford ajudou a popularizar as orientações. E, sem dúvida, precisamos dessa transparência mais do que nunca.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Jonathan Levin é um colunista com foco nos mercados e na economia dos EUA. Anteriormente, trabalhou como jornalista da Bloomberg nos EUA, no Brasil e no México. É analista financeiro com certificação CFA.

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