Herdeiro da Ray-Ban deixa cargos de gestão e aprofunda disputa por fortuna de € 40 bi

Leonardo Maria Del Vecchio, o quarto filho do fundador da EssilorLuxottica morto em 2022, deixou cargos na empresa de óculos; ele estava no centro da tentativa de reformular a estrutura do family office do clã

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Bloomberg — A disputa pela fortuna de mais de € 40 bilhões do falecido Leonardo Del Vecchio se aprofundou após a saída de um de seus herdeiros de cargos de gestão na empresa de óculos.

Leonardo Maria Del Vecchio, o quarto filho de Leonardo Del Vecchio, havia buscado — e fracassado — em romper o impasse na firma familiar Delfin, a maior acionista da EssilorLuxottica.

Sua decisão abrupta, tornada pública na terça-feira, de deixar os cargos na empresa de óculos e se concentrar em seu family office LMDV Capital, remove do grupo um herdeiro que estava no centro da mais recente tentativa de reformular a estrutura de propriedade da Delfin. O clã está preso numa disputa de quatro anos pela firma desde a morte do fundador.

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As divergências entre os oito herdeiros e seus muitos assessores sobre a estrutura, a propriedade e as operações da Delfin levaram a uma crise de governança em um dos principais players corporativos da Itália, com consequências não apenas para a EssilorLuxottica, mas também para o setor financeiro do país.

A Delfin é a maior acionista da Banca Monte dei Paschi di Siena, o banco no centro da mais recente rodada de negócios bancários da Itália, e também tem uma participação na Assicurazioni Generali, uma das maiores seguradoras da Europa, ao lado de um investimento na Unicredit.

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Para a EssilorLuxottica, o impasse no espólio familiar se tornou uma distração enquanto a empresa se esforça para manter sua liderança de pioneira no mercado de óculos inteligentes com inteligência artificial, que produz com a Meta Platforms, e proteger suas margens de lucro. Isso se tornou cada vez mais desafiador conforme empresas como Apple, Google e Samsung entram na disputa.

“A complexidade da governança corporativa da Delfin teve impacto sobre as ações da EssilorLuxottica”, disse Nicolò Nunziata, estrategista de ações e multiativos da Banca Finint, apontando também as pressões da concorrência que se intensifica. “Já faz anos que a governança é atormentada por conflitos internos, e ela poderia certamente melhorar.”

As ações da EssilorLuxottica caíram cerca de 40% no acumulado do ano, dando à empresa um valor de mercado de cerca de € 75 bilhões. A empresa representa cerca de 60% do valor dos ativos da Delfin até sexta-feira, segundo cálculos da Bloomberg.

Para sustentar as ações após as fortes quedas e na esteira da saída de Leonardo Maria, a EssilorLuxottica revelou na sexta-feira um plano para recomprar até cinco milhões de ações, avaliadas em mais de € 800 milhões aos preços atuais.

A renúncia de Leonardo Maria marcou uma reviravolta acentuada em sua relação com o CEO Francesco Milleri, o subordinado de longa data que seu pai escolheu para liderar tanto a EssilorLuxottica quanto a Delfin.

Depois de anos apoiando publicamente Milleri, Leonardo Maria usou sua carta de saída para criticar uma cultura empresarial que, segundo ele, havia se tornado mais distante, dizendo que os gestores eram celebrados quando as coisas iam bem, mas postos de lado quando se tornavam “desconfortáveis”.

“O entusiasmo não é mais o que era”, disse ele na carta que anunciou sua decisão, publicada pelo jornal MF. “O senso de pertencimento não é mais o que era. A distância se faz sentir.”

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A saída de Leonardo Maria dos cargos de estrategista-chefe da EssilorLuxottica e presidente da Ray-Ban pode não ter impacto imediato sobre as operações da empresa, já que ele estava focado principalmente em iniciativas de marketing, como trazer o rapper A$AP Rocky como diretor criativo da fabricante dos famosos óculos de sol aviador.

É improvável que a empresa preencha os cargos que ele deixou vagos, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto que falou com a Bloomberg News.

Ainda assim, ao deixar o cargo, ele sinalizou insatisfação com a gestão da empresa, e não está imediatamente claro se outros executivos e herdeiros compartilham dessas visões. Se for o caso, isso poderia pressionar Milleri, que é presidente do conselho da Delfin, além de seu cargo de CEO na EssilorLuxottica.

Um representante da EssilorLuxottica, de Milleri e da Delfin recusou comentar.

As disputas na Delfin surgiram após a morte de Leonardo Del Vecchio em 2022. Seu testamento deixou aos oito herdeiros uma participação de 12,5% cada na holding familiar, sem colocar nenhum deles no comando.

Uma exigência de quase unanimidade em decisões importantes criou um obstáculo para seus herdeiros divididos — seis filhos nascidos de três mães; sua viúva Nicoletta Zampillo; e Rocco Basilico, filho dela de um casamento separado.

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No início deste ano, o emaranhado de disputas na Delfin parecia caminhar para uma possível resolução, quando Leonardo Maria ofereceu-se para comprar a participação de dois irmãos, Luca e Paola.

O plano de €10 bilhões teria lhe dado uma participação de 37,5% na firma familiar e aberto caminho para encerrar o espólio de seu pai. Foi aprovado por uma votação familiar em abril, antes que disputas de financiamento e governança inviabilizassem o negócio.

Os herdeiros protocolaram um chamado aviso de transferência à Delfin com relação às suas participações e recorreram à Justiça em Luxemburgo — onde a holding familiar está sediada — para forçar uma saída do impasse.

Espera-se que o tribunal estabeleça formalmente um valor para suas participações, mas não há um cronograma claro, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.

Uma avaliação estabelecida pela Justiça poderia abrir caminho para que os acionistas da Delfin eventualmente transfiram suas participações para family offices pessoais, potencialmente facilitando transações entre membros da família ao reduzir disputas sobre preço. Mas os procedimentos não resolverão a disputa familiar nem mudarão a governança da Delfin. Também não removerão o maior obstáculo: as decisões importantes na Delfin ainda exigem amplo acordo familiar.

“As questões de governança do maior acionista da EssilorLuxottica não são novas”, disse Margherita Strazzari, gestora de ativos da Sempione SIM. “Embora seja difícil avaliar o impacto sobre as ações da empresa à luz de fatores como o aumento da concorrência no espaço dos óculos com IA, acredito que ainda estamos longe de uma saída clara para o impasse na Delfin. Isso vem se arrastando há anos. A recompra da EssilorLuxottica mostra que a gestão está confiante, mas não reduz realmente o risco da Delfin.”

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