Bloomberg Opinion — A cúpula mais recente do G7 contou com a presença dos líderes de sete dos países mais poderosos do mundo — e de executivos da OpenAI, da Anthropic e da DeepMind, que foram tratados como pares.
Pode parecer que as empresas de inteligência artificial (IA) estão disputando apenas produtos e participação de mercado, mas elas estão envolvidas em um jogo muito maior: trata-se de uma luta pelo poder nos níveis mais altos.
As empresas de IA não escondem a magnitude de suas ambições. Todos os principais laboratórios afirmam estar desenvolvendo inteligência artificial geral.
Mesmo que você não acredite que elas tenham sucesso, a disposição delas de gastar centenas de bilhões de dólares nessa tentativa é reveladora.
Os líderes do setor alertam sobre os perigos de uma IA descontrolada e sedenta por poder que tente dominar o mundo. Suas ações sugerem que compreendem essa motivação extraordinariamente bem.
Nenhuma empresa está monopolizando a IA ainda, mas isso não é necessariamente tranquilizador.
As avaliações dessas empresas só fazem sentido se uma delas acabar se tornando um monopólio, e uma empresa que monopolizasse a IA poderia ser a mais poderosa da história. Se nenhuma conseguir, isso significa que elas estarão competindo pelo poder entre si, bem como com o Estado. Isso poderia tornar a dinâmica mais intensa – não menos.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
O CEO da Microsoft, Satya Nadella, alertou recentemente que “não há aceitação social” para um futuro em que os lucros da IA fiquem concentrados em um punhado de empresas.
Nadella estava descrevendo o perigo econômico. O perigo mais profundo, porém, não é quem fica com os lucros, mas quem detém o poder.
Já vimos empresas com o poder de países inteiros no passado. A Companhia Britânica das Índias Orientais foi fundada em 1600 e tornou-se uma corporação privada que governava um império. Ela cunhava moedas, cobrava impostos, administrava tribunais e mantinha um exército de cerca de 260 mil homens — aproximadamente o dobro do tamanho do exército britânico — que prestavam juramento não à coroa, mas à própria empresa.
Leia mais: Startups latinas invertem padrão dos EUA e lideram adoção de IA, segundo líder na AWS
Foi o primeiro “Estado-empresa”, uma corporação que também era soberana, prestando contas apenas aos seus acionistas. Por mais de um século, ela saqueou e governou grande parte da Índia. Depois de conquistar o direito de arrecadar os impostos de Bengala em 1765, ela aumentou os impostos durante a fome de 1769 e 1770, que matou pelo menos um milhão (e talvez até 10 milhões) de pessoas.
Nenhuma empresa de IA tem um quarto de milhão de pessoas em armas (a julgar pela forma como os drones dominam o campo de batalha na Ucrânia, talvez elas nem precisem).
Mas a OpenAI firmou parceria com a empresa de defesa Anduril Industries para combater drones inimigos e assinou, no ano passado, um contrato com o Pentágono no valor de até US$ 200 milhões.
A Anthropic e o Departamento de Defesa estão em conflito devido à recusa da empresa em permitir que seus modelos sejam utilizados em armas totalmente autônomas, mesmo que seus sistemas tenham sido supostamente usados na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
E as empresas de IA não hesitam em transformar seu peso econômico em influência política. As primárias democratas para o 12º Distrito Congressional de Nova York foram, de certa forma, uma “guerra por procuração” entre os gigantes da IA, com várias empresas ou executivos dessas empresas — OpenAI, Palantir, Anthropic — apoiando diferentes candidatos. No final, os bilionários da IA gastaram mais de US$ 29 milhões na disputa.
A Companhia das Índias Orientais teria concordado com isso. Na década de 1770, quase um quarto da Câmara dos Comuns detinha ações da empresa ou recebia remuneração dela.
Seu poder acabou sendo quebrado; após a rebelião indiana de 1857, a Grã-Bretanha nacionalizou a empresa e tomou posse de suas terras e de seu exército. Mas, até então, ela já havia governado grande parte da Índia por um século, e os indianos haviam pago por isso com sangue e tesouros.
Leia mais: Receita com IA começa a justificar alto custo da expansão dos data centers no mundo
As primárias de Nova York foram a disputa pelo poder da IA que veio à tona. Superficialmente, a disputa foi um empate para o setor: sim, o vencedor foi um dos coautores, na legislatura estadual, do projeto de lei sobre segurança da IA ao qual o setor se opunha.
Ao mesmo tempo, todos os políticos dos Estados Unidos sabem agora que o setor está disposto a gastar milhões contra um candidato de quem não gosta. Não é preciso vencer todas as disputas para exercer seu poder. O medo pode fazer o trabalho por você.
O que nos leva ao último aspecto que torna o poder tão diferente da riqueza — e de volta àquela mesa na França.
O poder é um jogo de soma zero. Todos podem ficar mais ricos. Nem todos podem ficar mais poderosos. Os titãs da IA representam a si mesmos e a seus investidores. Se eles têm o poder de sentar-se em pé de igualdade em uma reunião do G7, então as pessoas que representam todos os demais têm menos poder.
No momento, os CEOs de IA estão à mesa a convite de líderes mundiais que os consideram importantes demais para serem deixados de fora. Mas o convite pode, um dia, vir da direção oposta. Se esse não é o futuro que queremos, a hora de limitar o poder do setor é agora. A busca pelo poder da inteligência baseada em carbono pode ser tão perigosa quanto a de sua descendência de silício.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Gautam Mukunda escreve sobre gestão empresarial e inovação. Ele leciona liderança na Yale School of Management e é autor do livro “Indispensable: When Leaders Really Matter”.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Além de Brasil e México: BlaBlaCar faz sua maior expansão e entra em 8 países em LatAm