Opinión - Bloomberg

Trump fez discurso sobre vitória no Irã, mas parece caminhar para derrota estratégica

Fala do presidente americano seguiu dias de sinais contraditórios e cada vez mais confusos, que sugerem não uma vitória, mas sim desespero, enquanto o Irã nega suas afirmações de que as negociações estão avançando

Donald Trump
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — No Dia da Mentira, o presidente americano Donald Trump dirigiu-se à nação e ao mundo para enviar não apenas uma mensagem sobre a guerra que os Estados Unidos e Israel lançaram contra o Irã há um mês, mas todas as mensagens possíveis de uma só vez.

O conflito está “próximo do fim”, disse Trump, antes de repetir que os EUA também poderiam intensificar a ação atacando usinas de energia do Irã caso “não haja acordo”.


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Os EUA estão “a caminho de cumprir todos os objetivos militares americanos em breve, muito em breve”, afirmou ele, antes de alegar que “nunca dissemos ‘mudança de regime’”, ao mesmo tempo em que refletia que o regime, que permanece entrincheirado, de certa forma mudou, já que as forças americanas e israelenses mataram tantos líderes.

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Mais uma vez, ele alegou que os EUA “destruíram” as instalações nucleares do Irã no ano passado, embora se acumulem evidências de que os iranianos haviam transferido com segurança seu urânio enriquecido para outros locais antes desses ataques.

Trump também sabe disso, já que vem considerando ordenar que tropas terrestres tentem apreender esse material físsil, ao mesmo tempo em que teme o atoleiro em que tal missão poderia resultar.

Leia mais: Trump diz que vê o fim da guerra dos EUA com o Irã em duas a três semanas

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“Temos todas as cartas na mão, eles não têm nenhuma”, gabou-se o presidente. No entanto, o regime iraniano continua jogando cartas que parecem surpreender o governo, principalmente o fechamento do Estreito de Ormuz, que causou perturbações na economia global.

O discurso de Trump seguiu dias de sinais contraditórios e cada vez mais confusos, que sugerem não uma vitória, mas sim desespero. Uma hora, ele posta nas redes sociais que a reabertura do estreito é um pré-requisito para o fim da guerra; então, diz a repórteres ou assessores que o Irã nem precisaria necessariamente fazer isso para chegar a um acordo.

Aqui ele difama o regime de Teerã como terroristas malignos; ali, elogia seu “presidente do novo regime” — não está claro a quem ele se referia — como “muito menos radicalizado e muito mais inteligente do que seus antecessores”.

Ele continua dizendo que os iranianos estão negociando e que as conversas estão avançando, enquanto o regime continua negando que haja qualquer negociação e rejeita o plano de paz de 15 pontos da Casa Branca.

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O que o presidente intuiu, mas não consegue admitir, é que os Estados Unidos — e, por extensão, Trump — sofreram uma derrota. Não no campo de batalha, onde os EUA e Israel dominam. Mas no panorama estratégico mais amplo.

Os aliados dos Estados Unidos no Golfo, que não queriam se envolver neste conflito, nunca mais confiarão nas garantias de segurança dos EUA e estão buscando a China e outras potências para diversificar suas relações.

Os aliados europeus de Washington, relutantes em se juntar a Trump em sua guerra de conveniência, temem agora que um Trump ressentido cumpra sua ameaça de longa data de abandonar a Otan.

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A Rússia, que a Otan deveria dissuadir, está se beneficiando do aumento dos preços da energia e está mais bem posicionada para travar sua guerra contra a Ucrânia, que Trump prometeu, em certa ocasião, encerrar em um dia.

E tanto a Rússia quanto a China, assim como a Coreia do Norte e outros adversários dos Estados Unidos, estão percebendo que, no segundo mandato de Trump, os EUA continuam desperdiçando seus recursos outrora prodigiosos, sejam eles políticos, diplomáticos ou militares.

Leia mais: Trump diz que Irã pediu cessar-fogo, mas condiciona acordo à reabertura de Ormuz

No ano passado, Trump bombardeou os houthis no Iêmen por um tempo antes de perceber que a campanha rendeu pouco e foi ruinosamente cara. Ele declarou vitória e seguiu em frente. Na guerra atual, isso está se mostrando mais difícil.

A “relação custo-benefício” de destruir a marinha, as defesas aéreas e outras instalações militares do Irã é tão ruim, segundo o Royal United Services Institute (RUSI), que as Forças Armadas dos EUA estão a cerca de um mês de ficar sem vários tipos de mísseis e interceptores.

Apenas reabastecer os Tomahawks que os EUA já dispararam provavelmente levará cinco anos, estima o RUSI. Pior ainda, a China controla muitos dos minerais, do gálio ao germânio, necessários para repor as armas.

Com essa análise sobre mísseis, conclui o RUSI, os Estados Unidos comprometeram sua capacidade de dissuadir adversários como a China no Estreito de Taiwan ou a Coreia do Norte na sua península.

Há apenas alguns meses, o governo Trump publicou uma Estratégia de Segurança Nacional que prometia reduzir o envolvimento dos Estados Unidos no Oriente Médio, a fim de conservar recursos para as poucas e grandes batalhas que ameaçam diretamente os interesses americanos. Trump não apenas ignorou essa estratégia; ele a inverteu.

Essa é a dissonância cognitiva em evidência no discurso de Trump. Logo após iniciar a guerra, ele postou que seu objetivo era “PAZ EM TODO O ORIENTE MÉDIO E, DE FATO, NO MUNDO!” Um mês depois, o Oriente Médio está em chamas, e o adversário está abalado, mas ainda na luta.

Milhares de fuzileiros navais e outras tropas adicionais estão chegando à região, onde os Estados Unidos contam agora com mais de 50 mil soldados no total. É assim que se parece uma missão “próxima da conclusão”?

Essa guerra imprudente precisa acabar, mesmo que isso abale o poder e a reputação dos Estados Unidos. Mas, embora Trump pareça pronto para desistir, o adversário pode não deixá-lo fazer isso ainda. E o presidente, que se esforça tanto para declarar mais uma vitória, parece saber disso.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Andreas Kluth é colunista da Bloomberg Opinion. Já foi editor chefe do Handelsblatt Global e redator do Economist. É autor de “Hannibal and Me.”

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