Troca de guarda no espaço: gigantes da história são ultrapassadas por Musk e Bezos

Empresas como Boeing e Lockheed Martin foram essenciais no avanço espacial dos EUA desde as missões Apollo, mas agora precisam se adaptar ao novo cenário de exploração espacial; SpaceX e Blue Origin estão à frente no desenvolvimento de foguetes reutilizáveis, que diminuem os custos de lançamento

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Bloomberg Opinion — O mundo testemunhará o início de uma troca de guarda no espaço, à medida que quatro astronautas embarcam na nave espacial Orion, construída pela Lockheed Martin, e aguardam a contagem regressiva.

O lançamento está previsto para esta quarta-feira (1º), em uma viagem de 10 dias ao redor da Lua a bordo do foguete Space Launch System (SLS), uma iniciativa da Nasa liderada pela Boeing com a ajuda das subcontratadas Northrop Grumman e Aerojet Rocketdyne.

Como qualquer entusiasta do espaço dirá, essas empresas são figuras lendárias na história da exploração espacial dos Estados Unidos.

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Elas foram as principais contratadas e nas missões Apollo que levaram astronautas à Lua a partir de 1969, permitindo que o país vencesse a corrida espacial contra a Rússia e consolidando o status do país como superpotência dominante. Após cerca de 50 anos, seu papel na condução das explorações espaciais da Nasa parece estar chegando ao fim.

Mas, embora as empresas espaciais tradicionais tenham voltado a desempenhar papéis fundamentais nesta missão, elas não liderarão o ambicioso plano de sete anos e US$ 20 bilhões da Nasa para construir uma base lunar permanente.

Para que isso aconteça, a Boeing, a Lockheed e as demais terão que descobrir como se manter relevantes em um novo mercado espacial cada vez mais dominado por interesses comerciais e não pelo orçamento da Nasa.

A busca pelo lucro significa que os atrasos, os bilhões de dólares em excedentes orçamentários e os custos por lançamento estruturalmente altos que atormentaram os programas espaciais no passado não serão mais tolerados.

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O programa Artemis, agora reformulado, exigirá um ritmo constante de lançamentos de foguetes e espaçonaves com custos operacionais muito mais baixos e capacidade para transportar mais carga útil.

Esse futuro pertence aos fabricantes de foguetes reutilizáveis, liderados pela SpaceX, de Elon Musk, e pela Blue Origin, de Jeff Bezos. Outras startups – como a Rocket Lab e a Stoke Space Technologies – estão construindo foguetes reutilizáveis, uma tecnologia que reduziu drasticamente os custos de lançamento e da qual as empresas espaciais tradicionais carecem.

A SpaceX, com seu foguete Falcon 9 reutilizável, desvendou o segredo para ganhar dinheiro no espaço ao lançar mais de 10 mil satélites de órbita terrestre baixa que fornecem internet rápida para residências rurais e qualquer veículo em movimento, seja navio, aeronave ou veículo recreativo. O foguete parcialmente reutilizável da Blue Origin fez seu primeiro voo comercial em novembro.

Com o foco nas margens de lucro, há um incentivo para que a SpaceX e a Blue Origin sejam o mais eficientes possível – um ingrediente essencial para o setor espacial comercial que tem faltado desde que a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) foi criada em 1958.

O momento foi perfeito. Os EUA estão em uma corrida com a China para criar uma base permanente a partir da qual os recursos de água e minerais da Lua possam ser reivindicados e explorados.

O administrador da Nasa, Jared Isaacman, apresentou um plano simplificado para o retorno à Lua que prevê uma transição das empresas tradicionais para as novas empresas do setor espacial comercial.

A Nasa vai descartar a Gateway, uma cara estação espacial em órbita lunar que teria servido como transição para a construção de uma base lunar. Em vez disso, a agência planeja enviar equipamentos e materiais para erguer uma base e procurar gelo e minerais lunares. Isso exigirá dois lançamentos por ano.

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O hardware também é tradicional. O Space Launch System é movido pelo mesmo projeto de motor usado no programa do Ônibus Espacial, que foi aposentado em 2011.

O foguete SLS deveria acabar com a dependência embaraçosa dos EUA do foguete Soyuz da Rússia para enviar astronautas e carga à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Essa dependência de quase nove anos da Rússia foi finalmente quebrada quando o foguete Falcon 9 e a espaçonave Dragon, da SpaceX, transportaram sua primeira tripulação para a ISS em 2020.

A nave espacial Orion, da Lockheed, tem suas origens no programa Constellation, um plano de retorno à Lua anunciado em 2004 pelo presidente George W. Bush e cancelado durante o governo do presidente Barack Obama, em 2010.

A Orion pode orbitar a Lua, mas não é capaz de pousar nela. Estima-se que um único lançamento da Orion para a Lua no foguete SLS custe mais de US$ 4 bilhões. “O ecossistema espacial sofreu uma reviravolta dramática com a reutilização”, disse Jud Ready, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Espacial da Georgia Tech. As empresas espaciais tradicionais “terão que modificar suas operações”.

O SLS e a Orion exigem um sistema de pouso tripulado para levar os astronautas da Orion à superfície lunar. A Nasa firmou contratos com a SpaceX e a Blue Origin para construir esses módulos de pouso.

Esse sistema complexo provavelmente será simplificado no futuro com uma espaçonave capaz de chegar à Lua e pousar diretamente com astronautas a bordo. Será necessário um depósito de combustível na órbita terrestre baixa para fornecer a energia necessária para a longa viagem à Lua. Essas empresas espaciais comerciais terão que comprovar sua segurança para transportar seres humanos de e para a Lua.

Contar com empresas novatas para a estratégia lunar da Nasa traz riscos. A nova nave espacial Starship, da SpaceX, terá que reabastecer no espaço para chegar à Lua e pousar — uma capacidade que ainda não foi testada.

Para o sistema de pouso tripulado, a SpaceX está construindo uma versão da nave Starship sem escudos térmicos nem aletas de navegação. Ela ainda precisará de reabastecimento no espaço para chegar à Lua. Muita coisa pode dar errado, e Musk tem a reputação de estabelecer cronogramas tecnológicos excessivamente otimistas. Isaacman, da Nasa, disse que a agência irá integrar especialistas em toda a cadeia de suprimentos para evitar atrasos e excedentes nos orçamentos.

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A grande vantagem da Starship é que tanto o propulsor do foguete quanto a espaçonave são recuperados na plataforma de lançamento ou em uma embarcação e podem ser recondicionados rapidamente e lançados novamente.

A SpaceX provou que pode fazer isso com o Falcon 9, um sistema de foguetes que já foi reutilizado parcialmente mais de 430 vezes e estabeleceu um recorde de um propulsor de foguete voando mais de 30 vezes. E, ao contrário do SLS e da Orion, a Starship não depende exclusivamente da Nasa para financiar seu desenvolvimento. A SpaceX tem fluxo de caixa positivo graças às vendas de seu serviço de internet Starlink.

Musk também tem um grande plano de usar a Starship para lançar dezenas de milhares de satélites de data center que serão alimentados pela energia solar disponível praticamente 24 horas por dia, a qual é mais intensa no espaço.

Os investidores estão entusiasmados com a liderança da Starlink na área de internet via satélite e com essa oportunidade de data centers no espaço, o que está impulsionando a demanda por uma oferta pública inicial da SpaceX, mesmo após a recente aquisição da startup xAI, de Musk. Essa venda de ações poderia arrecadar US$ 75 bilhões e avaliar a empresa em US$ 1,75 trilhão.

Essa viagem de 10 dias ao redor da Lua é importante para manter o ímpeto do programa Artemis, que tem como meta levar humanos à Lua até 2028. O programa não será um sucesso até que a Nasa abandone equipamentos obsoletos e adote as táticas de reciclagem dos recém-chegados ao setor espacial comercial.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Thomas Black é colunista da Bloomberg Opinion e cobre logística e manufatura. Já escreveu sobre as fábricas e transportadoras dos Estados Unidos e sobre a indústria, a economia e o governo do México.

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