Bloomberg Opinion — O que Larry Fink diz é importante.
Como CEO da BlackRock, ele controla a maior gestora do mundo, com ativos sob gestão de cerca de US$ 14 trilhões. Esse valor continua crescendo e atraiu US$ 1,8 trilhão a mais em novos recursos nos últimos cinco anos.
Mas a importância de Fink vai muito além de liderar uma gestora de fundos excepcionalmente grande. Ele tem assumido cada vez mais o papel de principal defensor e porta-voz do capitalismo.
Desde 2012, em cartas públicas anuais aos CEOs de todas as empresas nas quais a BlackRock detém ações (uma longa lista), ele expõe sua agenda sobre como o capitalismo precisa funcionar melhor.
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A iniciativa lembra claramente as cartas anuais que Warren Buffett escrevia aos seus acionistas até sua aposentadoria no ano passado. Mas as de Fink tendem a gerar mais controvérsia.
Há muitos argumentos de que as cartas de Fink são egoístas. Elas parecem sempre concluir com um argumento para comprar um produto ou outro da BlackRock. Mas ele tem o direito de fazer um pouco de marketing — Fink tem seus próprios acionistas com quem se preocupar.
E, nesse processo, ele talvez tenha, sem querer, promovido a si mesmo, tornando-se um alvo da inquietação popular em relação ao que é cada vez mais visto como um sistema econômico injusto e desigual.
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Essa é a maior importância da edição de 2026, publicada esta semana.
Fink acompanhou os tempos políticos. Com esta carta, ele está adaptando a função de um capitalista para se adequar às novas preocupações nacionalistas.
Há pouco tempo, ele era o principal defensor do “capitalismo de stakeholders”, enfatizando os riscos climáticos e usando o poder da BlackRock como acionista para pressionar as empresas a tratarem melhor todas as partes interessadas — incluindo trabalhadores, consumidores e aqueles que tinham de conviver com o impacto climático gerado pelas empresas, além dos próprios acionistas. Ele era um globalista assumido.
Neste ano, sua linguagem está inteiramente voltada para as necessidades do nacionalismo e da autossuficiência. Agora, mais pessoas deveriam investir (em produtos da BlackRock) não para evitar as mudanças climáticas ou forçar as empresas a tratar melhor suas partes interessadas, mas para lhes dar a chance de “crescer com seu país”.
A mudança de Fink
Conforme Fink expõe na carta, sua história é uma genuína história de sucesso americana e capitalista.
Criado no Vale de San Fernando por um pai dono de uma loja de sapatos e uma mãe que ensinava inglês, ele logo se tornou um dos mais importantes inovadores financeiros de sua geração — como chefe do departamento de títulos da First Boston no início dos anos 1980, desenvolveu a primeira obrigação hipotecária garantida da história. Esse produto acabou se tornando fundamental tanto para levar a casa própria a milhões de pessoas quanto para impulsionar a crise financeira de 2008.
A própria BlackRock é o resultado de uma série de aquisições brilhantemente executadas. Fink é alguém que conquistou o direito de falar em nome do capitalismo.
Suas cartas sugeriram algumas reinterpretações radicais ao longo do tempo. A mensagem de 2020 aos CEOs, quando a pandemia de covid-19 se alastrava, centrou-se na sustentabilidade e nas mudanças climáticas, que ele previu que impulsionariam uma “reestruturação fundamental do setor financeiro”.
É claro que isso também estava em sintonia com o contexto político da época. Os investidores estavam “reconhecendo que o risco climático é um risco de investimento”.
De fato, “as mudanças climáticas são quase invariavelmente a principal questão que clientes em todo o mundo levantam com a BlackRock”.
A palavra “clima” não apareceu na carta atual, nem na de 2025.
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Isso reflete as críticas violentas que a BlackRock sofreu nos anos intermediários. Estados governados por republicanos boicotaram seus produtos apenas por oferecer fundos ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês), colocaram-na na lista negra por se recusar a fazer negócios com empresas de energia e a processaram por votar a favor de medidas relacionadas ao clima sem informar os clientes.
O próprio Fink foi alvo de uma campanha particularmente ferrenha de difamação nas redes sociais, com grande destaque para um comentário de 2021 de que os investidores deveriam “impor comportamentos” às empresas das quais eram acionistas.
Fink chegou ao ponto de admitir, em 2023, que não usaria mais o termo ESG porque ele havia sido instrumentalizado por oponentes políticos de todos os lados. A reação mais ampla culminou na eleição presidencial de 2024, na qual Donald Trump saiu vitorioso após atacar os investimentos ESG e considerar as mudanças climáticas como uma farsa.
Agora, para lidar com a “sensação mais profunda de que o capitalismo está funcionando — mas não para um número suficiente de pessoas”, a solução de Fink é apresentada em termos de interesse nacional, o norte de Trump 2.0:
“É o investimento de longo prazo que permite aos países desenvolver indústrias nacionais, que permite às pessoas acumular riqueza duradoura e mostra como o crescimento de seu país também pode beneficiá-las.”
Fink é explícito (e correto) ao afirmar que a autossuficiência nacionalista é a necessidade do momento:
“O antigo modelo de capitalismo global está se fragmentando. Os países estão gastando somas enormes para se tornarem autossuficientes — em energia, em defesa, em tecnologia."
Ao dizer isso, Fink não está apenas respondendo às mudanças que se afastam da globalização e se voltam para a autossuficiência desde que Trump reassumiu o cargo, mas também às críticas específicas dirigidas a ele pessoalmente pelos estados republicanos durante a reação contra o ESG. Por exemplo, em 2022, o estado de Louisiana retirou todos os seus negócios porque, para citar uma carta enviada a Fink pelo tesoureiro estadual John Schroder:
“Suas políticas abertamente contrárias aos combustíveis fósseis destruiriam a economia da Louisiana… [e] buscariam ativamente paralisar nosso setor de combustíveis fósseis. Na minha opinião, seu apoio ao investimento ESG é incompatível com os melhores interesses econômicos e valores da Louisiana... Em termos simples, não podemos ser cúmplices do enfraquecimento de nossa própria economia."
Outros dirigentes do Partido Republicano expressaram opiniões semelhantes. Eles não viam problema algum em a BlackRock priorizar algo além da maximização dos retornos (que havia sido a principal preocupação dos defensores do livre mercado). A questão para eles era, ao contrário, direcionar os investimentos de forma a favorecer seus próprios interesses nacionais (ou, neste caso, estaduais). O novo argumento de Fink de que os investimentos devem permitir o crescimento de um país sugere que ele se alinhou à linha de pensamento deles.
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Problemas do capitalismo nacionalista
Não é difícil encontrar inconsistências. Em primeiro lugar, e mais importante, qualquer gestor de fundos sensato deve buscar gerenciar o risco por meio da diversificação. Você está inevitavelmente exposto à economia do lugar onde vive; isso significa que as economias para a aposentadoria devem estar em outro lugar, para evitar duplicar esse risco.
O Norges Fund da Noruega, de US$ 2 trilhões, o maior fundo soberano do mundo, leva isso ao extremo lógico ao investir em todos os lugares, menos na Noruega.
A BlackRock certamente não investe apenas nos EUA, e muitos dentro do extenso grupo defendem entusiasticamente que os americanos invistam seu dinheiro fora do país. Em agosto passado, o centro de consultoria da empresa publicou uma perspectiva que observava “o início de um ciclo de dólar mais fraco, o que tem tendido a impulsionar os retornos internacionais”, enquanto a equipe que gerencia estratégias de fatores de ações argumentou que “a maioria dos investidores se beneficiaria incondicionalmente ao possuir mais ações internacionais”.
Fink afirma em sua carta que o investimento de longo prazo é um “milagre cívico”, argumentando:
“Quando esse ciclo ocorre no seu próprio país, o seu futuro e o futuro da sua nação ficam interligados. Você ajuda a financiar o crescimento dela. Ela ajuda a financiar o seu.”
Mas países não são silos. O S&P 500 supera a economia dos EUA em grande parte porque as empresas que o compõem participam do crescimento de outros países. Cerca de 41% das receitas do S&P 500 são geradas fora dos EUA, de modo que grande parte do capital dos acionistas é aplicado em outros lugares.
Além disso, a parcela do produto interno bruto ocupada pelos lucros corporativos quase dobrou desde 1982, passando de 8% para 15,6%. O capital nunca antes havia superado a mão de obra nessa proporção. Os aposentados poderiam ajudar a financiar o crescimento investindo mais dinheiro no mercado de ações — mas eles e a sociedade poderiam se beneficiar mais se recebessem salários melhores desde o início.
Um último problema com o conceito de “crescer com seu país”: isso poderia prejudicar os EUA, que atualmente têm uma posição de investimento internacional líquida negativa (o excesso de investimentos estrangeiros nos EUA em relação aos ativos americanos no exterior) de US$ 27,6 trilhões. Isso representa metade da capitalização de mercado total do S&P 500, de US$ 56,4 trilhões. Se todos direcionassem seus fluxos de investimento para o crescimento de seus próprios países, haveria uma saída catastrófica de recursos dos EUA.
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Exemplo não usado por Fink
Mesmo assim, ainda parece pouco mais do que bom senso que os países ajustem os incentivos fiscais para estimular os poupadores a aplicar seu dinheiro no próprio país. Mas o exemplo de uma tentativa de fazer isso no Reino Unido, que fracassou dias antes de Fink publicar sua última carta, mostra como isso pode ser difícil.
O Reino Unido é um exemplo clássico dos danos que o capital globalizado pode causar. Os fundos de pensão britânicos foram pioneiros no investimento em ações na década de 1950. Mas, ao longo das décadas desde 1990, as ações britânicas caíram de mais da metade para menos de 10% do valor total dos fundos de pensão britânicos, à medida que buscam retornos maiores em títulos, ativos privados e ações internacionais. Isso priva a indústria britânica de capital e prejudica a competitividade nacional.
Mas como resolver isso? O governo trabalhista apresentou propostas no ano passado para adotar um “poder de reserva” que lhe permitiria obrigar os fundos de pensão a investir mais no Reino Unido. Isso ajudaria os poupadores a “crescer com seu país”, mas atraiu oposição generalizada, inclusive de Andrew Bailey, o presidente do Banco da Inglaterra. Ele reconheceu que o baixo investimento em pensões era um problema, mas acrescentou: “Não apoio a imposição, não acho que seja apropriado.” Na semana passada, a Câmara dos Lordes concordou, rejeitando a medida. Ela foi considerada uma “grande extrapolação” por parte do governo.
Em última análise, o Reino Unido descobriu que a noção de “crescer junto com o país” é tão problemática quanto “impor comportamentos” por meio dos critérios de ESG. Ambas exigem subverter a lógica capitalista e colocar outro interesse em primeiro lugar. O ESG poderia, sem dúvida, ajudar a combater as mudanças climáticas — embora seus efeitos reais sobre o comportamento corporativo, em última análise, tenham sido mínimos — e “crescer com o seu país” poderia ajudar os políticos a defender seus interesses nacionais no emergente mundo mercantilista de soma zero que poucos fora dos EUA e da China realmente desejam.
Mas ambos envolvem interferir nos mercados. Fink parece ter acreditado consistentemente nos mercados livres ao longo de sua carreira e em suas cartas; a próxima delas talvez explique como ele vai resolver esse dilema. Como qualquer bom capitalista, suas cartas acompanharam as tendências, tentando se posicionar para a próxima onda. Mas se o capitalismo funciona (e ao longo da história tem funcionado, enquanto se adaptava ao longo do caminho), talvez seja melhor sair do seu caminho. Como Buffett colocou em seu jeito coloquial inimitável ao encerrar sua última carta no ano passado:
“De uma forma ou de outra, o uso sensato — melhor ainda, criativo — das economias pelos cidadãos é necessário para impulsionar uma produção social cada vez maior dos bens e serviços desejados. Esse sistema é chamado de capitalismo. Ele tem suas falhas e abusos — em certos aspectos, mais graves agora do que nunca —, mas também pode fazer maravilhas incomparáveis a outros sistemas econômicos."
Talvez seja uma boa ideia enviar esse parágrafo aos investidores da BlackRock todos os anos.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
John Authers é editor sênior de mercados e colunista da Bloomberg Opinion. Ex-comentarista-chefe de mercados do Financial Times, é autor do livro “The Fearful Rise of Markets”.
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