A China ficou de fora da guerra no Irã. Mas o conflito ameaça sufocar suas exportações

Compradores do Oriente Médio praticamente desapareceram das cidades chinesas enquanto alta de energia e de custos logísticos se junta a queda da demanda e incerteza global e pode levar a uma desaceleração da economia do país

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Bloomberg Opinion — Para entender como a guerra no Irã afeta a China, vale a pena dar uma olhada em Yiwu, um centro comercial global na província de Zhejiang, no leste do país, que abriga extensos mercados atacadistas que vendem de tudo, desde grampos de cabelo até brinquedos.

Os exportadores estão ansiosos por negócios. Na entrada, há um letreiro em destaque que diz: “A capital mundial de pequenos produtos acolhe com entusiasmo a sua graciosa presença.”

Compradores dos países do Golfo são os convidados mais cobiçados da cidade, já que restaurantes do Oriente Médio — considerados os melhores da China segundo influenciadores nas redes sociais — se espalham pelos principais bairros comerciais. Afinal, esses clientes trazem grandes negócios.

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As exportações para a região dobraram em cinco anos, ultrapassando US$ 120 bilhões em 2025. Nos dois primeiros meses do ano, as exportações da China apenas para os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita cresceram 23%.

Com a guerra no Irã entrando na quarta semana, os tão esperados visitantes da região praticamente desapareceram, à medida que as interrupções no tráfego aéreo continuam.

Aqueles que estão na cidade correm para encontrar voos de volta para casa, enquanto os vendedores locais se preocupam com a segurança de seus clientes iranianos, sem ter notícias deles, já que o país passa por um apagão quase total da internet. Alguns teriam se alistado no exército para defender a soberania de seu país.

Mesmo que os compradores do Oriente Médio ainda consigam fazer pedidos pela rede social WeChat, seus fornecedores chineses em Yiwu, especialmente os fabricantes de eletrônicos, estão desistindo. A conta não fecha mais.

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Tomemos os aparelhos de ar condicionado como exemplo. No ano passado, a China exportou mais de 17 milhões de unidades para o Oriente Médio, o que representa cerca de 20% do total das exportações do país. As vendas para o exterior podem estar caindo 12% neste mês, segundo dados de pedidos online.

Os custos de transporte tornaram-se proibitivamente altos. O frete de um contêiner padrão para o Golfo Pérsico subiu 35% em março, enquanto os prêmios de seguro dispararam 143%. Os vendedores também precisam pagar às seguradoras sobretaxas de guerra de até US$ 4 mil por contêiner.

Os fabricantes também estão preocupados com a aquisição de matérias-primas, do cobre ao alumínio, não querendo ser pegos no lado errado do ciclo.

O preço do alumínio disparou no início da guerra, à medida que os traders de commodities se preocupavam com interrupções no abastecimento. A região representava 9% da produção global em 2025.

Mas, à medida que o conflito se arrasta, os preços dos metais industriais despencaram nos últimos dias devido aos temores de uma recessão global. Um aumento de 10% nos custos das matérias-primas pode reduzir as margens brutas das fabricantes de eletrodomésticos Midea Group, Haier Smart Home e Gree Electric Appliances de Zhuhai em até 6%.

Yiwu oferece um pequeno vislumbre da ameaça existencial que uma guerra prolongada pode representar para a China.

Um colapso da demanda global prejudicará o único ponto positivo da economia — as exportações com as quais o governo tem contado para ajudar a cumprir suas metas de crescimento anual. Esse pilar agora parece instável, à medida que os elevados custos de energia esvaziam os bolsos dos consumidores em todo o mundo.

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Uma desaceleração nas exportações provavelmente criará mais excesso de capacidade, desencadeará guerras de preços mais acirradas no mercado interno e reduzirá os lucros das empresas. Isso talvez explique por que o mercado de ações da China está finalmente refletindo a guerra com o Irã após semanas de calmaria.

Há agora um debate na China continental sobre o que a guerra significa para o país.

No curto prazo, o governo precisa lidar com uma crise energética que já eclodiu. Certamente, quase todos concordam que as formidáveis reservas estratégicas de petróleo que Pequim acumulou protegem a economia melhor do que as de seus vizinhos do norte da Ásia.

É o impacto de longo prazo que divide os investidores. Alguns argumentam que a guerra é boa para a China porque os recursos militares dos EUA serão desviados do Pacífico e que Pequim vencerá a corrida armamentista da IA por ter uma infraestrutura energética superior.

Discordo dessa visão otimista. Nos últimos dois anos, a China teve um golpe de sorte devido à robusta demanda global, o que lhe permitiu vender para a Europa e o Sul Global mesmo quando o presidente Donald Trump aumentou as tarifas dos EUA.

Isso dá a seu homólogo Xi Jinping espaço político para deixar que uma economia fraca atinja o fundo do poço por conta própria. De fato, o governo reduziu o apoio fiscal, ao mesmo tempo em que se mostra imperturbável diante do contínuo declínio do mercado imobiliário.

Este tapete de conforto político será puxado debaixo dos pés da China se entrarmos em uma recessão global. Ao contrário do que afirma Trump, as guerras não têm vencedores.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Shuli Ren é colunista da Bloomberg Opinion e cobre mercados asiáticos. Ex-banqueira de investimentos, ela foi repórter de mercados para a Barron’s. Também é analista financeira com certificação CFA.

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