Bloomberg — As paredes do escritório da Market Financial Solutions (MFS), em Londres, eram um santuário às paixões de seu fundador, Paresh Raja.
Havia tacos de críquete autografados, luvas de boxe usadas por Mike Tyson, Tyson Fury e Anthony Joshua, tochas olímpicas e álbuns assinados do Pink Floyd, segundo pessoas familiarizadas com o assunto e fotografias vistas pela Bloomberg News.
Também estavam expostas camisetas de futebol emolduradas, aparentemente assinadas por estrelas como Lionel Messi e Karim Benzema. Uma camiseta vintage da Argentina trazia apenas a assinatura: “Diego”.
Ainda assim, quando administradores de insolvência nomeados pela Justiça chegaram ao escritório londrino da credora imobiliária na semana passada para assumir o controle após a quebra da empresa, as paredes estavam em grande parte vazias, segundo essas pessoas, que pediram anonimato.
Raja também se retirou da vida pública, e seu paradeiro é uma das muitas questões em torno da quebra repentina da MFS em 25 de fevereiro — um colapso que reverberou por Wall Street e pelo setor financeiro global. Uma pessoa com conhecimento do assunto disse à Bloomberg News que Raja está em Dubai.
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Dois credores que levaram a empresa à administração judicial — uma forma de insolvência no Reino Unido — alegam que £ 238 milhões (US$ 318 milhões) que deveriam ter sido reservados para pagamentos desapareceram.
Eles também alertaram que pode haver um déficit de £ 930 milhões nas garantias que respaldam suas dívidas, resultado de um esquema conhecido como double pledging, quando um tomador obtém múltiplos financiamentos de diferentes credores usando a mesma garantia.
“Se o ‘double pledging’ e o ‘desvio’ de pagamentos dos mutuários informados pelos credores forem verdadeiros, isso pode indicar falhas de supervisão interna e potencial conduta criminosa”, disse Nicholas Ryder, professor de direito da Cardiff University especializado em crimes financeiros.
“Uma auditoria é essencial para rastrear o fluxo de recursos, identificar transferências impróprias e estabelecer se a alta administração, intermediários ou partes externas estiveram envolvidos.”
Um porta-voz de Raja se recusou a comentar. Ele também não respondeu a diversos pedidos, inclusive por meio de seu perfil no LinkedIn, que agora não está mais ativo.
Em comunicado de 21 de fevereiro à imprensa, ele descreveu a situação como “um impasse técnico e processual” que não refletia “uma falha do negócio subjacente”.
Um porta-voz da AlixPartners, empresa nomeada pelo tribunal para supervisionar a administração judicial, também se recusou a comentar.
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Empréstímos complexos
A MFS oferecia o que descrevia como “empréstimos complexos garantidos por imóveis” a clientes, incluindo dívidas de curto prazo conhecidas como bridging loans (empréstimos ponte).
A empresa cresceu rapidamente, triplicando sua carteira de crédito nos quatro anos até 2025 para cerca de £ 2,7 bilhões, segundo um documento interno visto pela Bloomberg News.
Esse crescimento foi financiado por mais de £ 2 bilhões em empréstimos de instituições como Barclays e a unidade Atlas SP Partners da Apollo Global Management. O Jefferies Financial Group, a Elliott Investment Management, o Sumitomo Mitsui e banco Santander também têm exposição.
Apesar do crescimento, a MFS permanecia pouco conhecida fora de seu nicho financeiro. O mercado britânico de bridging loans soma cerca de £ 14 bilhões — menos de 1% do mercado de hipotecas residenciais de £ 1,7 trilhão — segundo dados do Bank of England e da associação setorial Bridging & Development Lenders Association.
“Eu nunca tinha ouvido falar da MFS antes”, disse Patrick Corrigan, professor da University of Notre Dame especializado em mercados financeiros. “E os empréstimos ponte no Reino Unido não estavam no meu radar como um possível foco de risco.”
Na essência, um bridge loan é um financiamento de curto prazo destinado a sustentar um tomador até que uma solução mais permanente seja obtida. O produto ganhou popularidade à medida que bancos tradicionais reduziram sua atuação, os juros subiram e gestoras de crédito privado passaram a ocupar esse espaço.
Umang Vithlani, responsável por estratégias de crédito na Cazadores Investments em Londres, questionou o processo de due diligence de investidores e credores da MFS.
“O crédito privado sempre teve menos transparência e liquidez do que o mercado aberto”, disse Vithlani. “Tudo isso levou a essa situação.”
Luxo e doações generosas
À medida que a MFS crescia, seu fundador gastava generosamente para elevar o perfil da empresa, financiar eventos para funcionários e fazer doações a instituições de caridade, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Raja costumava chegar ao escritório da MFS no bairro londrino de Mayfair em carros com motorista, incluindo um Rolls-Royce. Ele e sua esposa, Tiba, passavam o ano se dividindo entre Mônaco, Dubai e Londres.
Tiba Raja, descrita no site da MFS como fundadora e diretora executiva, não respondeu a pedidos de comentário.
Em um leilão beneficente da Children With Cancer UK em 2023, Raja comprou uma gravura de natureza-morta de Pablo Picasso por £ 100.000. A compra foi “o maior valor arrecadado por um único lote” nos 36 anos de história da entidade, segundo comunicado da época.
À medida que a MFS crescia, também aumentavam as ideias de marketing de Raja. Em setembro do ano passado, a empresa patrocinou o cantor indiano Arijit Singh em seu primeiro show em estádio no Reino Unido, realizado no Tottenham Hotspur Stadium, em Londres.
A MFS também patrocina um show em Londres do rapper indiano Badshah. O evento está previsto para ocorrer ainda este mês: o artista participou em 2 de março de uma coletiva diante de cartazes que ainda exibiam o logotipo da MFS.
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As festas também eram lendárias dentro da empresa, frequentemente custando centenas de milhares de libras por evento, disseram as pessoas.
Em dezembro, dezenas de funcionários foram ao hotel cinco estrelas The Peninsula London para uma festa de Natal black tie.
Raja elogiou o crescimento da empresa em 2025 enquanto funcionários assistiam a duas dançarinas se apresentarem dentro de uma cúpula gigante de vidro, segundo pessoas e vídeos vistos pela Bloomberg News.
Tiba também compareceu à festa de dezembro. Em uma postagem em seu perfil no LinkedIn, agora desativado, ela descreveu 2025 como um ano de “grandes conquistas” e de forte crescimento, embora tenha acrescentado que “nem tudo saiu como planejado”.
Ela também elogiou o marido. “Você tem uma capacidade incrível de manter as coisas em movimento, manter as pessoas focadas e manter a perspectiva quando isso mais importa”, escreveu. “Seu compromisso e energia nunca diminuem, mesmo quando a pressão aumenta.”
Semanas antes da festa, o Barclays começou a congelar contas da MFS, parte de uma série de eventos que levaram ao colapso da empresa, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.
O Financial Times informou em 2 de março que o banco britânico começou a bloquear algumas transações da MFS em novembro.
A extensão das perdas dos credores — se houver — permanece incerta enquanto a AlixPartners inicia a análise das operações da MFS.
Em entrevista à Bloomberg Television em 4 de março, a presidente executiva do Santander, Ana Botín, comparou perdas com empréstimos problemáticos a picadas de “águas-vivas na praia”, acrescentando que “mesmo assim você entra no mar”.
A maioria dos quase 200 funcionários da MFS perdeu o emprego após a entrada da empresa em administração judicial.
Em grupos de WhatsApp vistos pela Bloomberg News, imagens criadas por inteligência artificial mostram Raja escondido atrás de um vaso de plantas com o skyline de Dubai ao fundo — ou retratado como uma barata, uma aparente referência ao alerta do CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, sobre riscos ocultos no mercado de crédito privado.
Uma música de rap gerada por IA sobre o colapso da empresa também circulou entre ex-funcionários da MFS.
“Agora todo o império está sob revisão, por quê?”, dizem os versos.“Ordem de administração, ativos congelados, credores de joelhos.”
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