Opinión - Bloomberg

Além do preço 'acessível’: MacBook de US$ 599 busca dar fôlego às vendas da Apple

A empresa decidiu lançar esse modelo após a linha Mac ter um desempenho abaixo do esperado e com o mercado de produtos recondicionados em crescimento; o uso do chip A18 Pro, também utilizado nos iPhones de 2024, permite que a Apple reduza custos e ofereça um produto mais barato

macbook Neo
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — “Acessível” não é um adjetivo que se costuma associar ao MacBook. Mas, por US$ 599 — US$ 499 com desconto para estudantes —, o novo MacBook Neo da Apple (AAPL) é o notebook mais barato que a empresa já ofereceu. É de se esperar que suas quatro variantes coloridas comecem a aparecer em campi universitários e cafeterias muito em breve.

A estratégia da Apple parece bastante direta: um notebook mais barato coloca a empresa em concorrência direta com o Chromebook do Google, agora um dos principais produtos nas salas de aula em todo o mundo, além de todo um universo de notebooks com Windows. Isso poderia garantir a próxima geração de usuários de notebooks da Apple.

No entanto, a Apple poderia ter tomado essa decisão em qualquer momento nos quase 15 anos de existência do Chromebook no mercado.

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Em vez disso, a Apple manteve-se firme em sua reputação premium e de preço. Uma confluência de razões fez de 2026 o momento certo para um MacBook mais barato.

A linha de produtos Mac, que ficou aquém das expectativas dos analistas no último trimestre, precisa de um impulso nas vendas.

Cada vez mais a Apple compete consigo mesma à medida que mais americanos se preocupam com a acessibilidade. O mercado de produtos Apple recondicionados está em expansão.

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O Back Market, um mercado líder de produtos recondicionados que coloca os produtos da Apple em destaque, informou no mês passado que o valor bruto das mercadorias aumentou 32% em 2025 em comparação com o ano anterior. O mercado de smartphones antigos vem crescendo mais rápido do que o de novos modelos, e os produtos da Apple representam mais da metade dessa demanda.

Com o aperto no orçamento, muitos consumidores afirmam que não se importam em usar hardware um pouco ultrapassado. Por isso, agora a Apple está colocando seu hardware mais antigo em novos produtos: o MacBook Neo funciona com o chip A18 Pro, usado pela primeira vez nos iPhones de 2024.

Isso não é um desmerecimento — é um chip capaz, mas também significa que a Apple pode economizar os custos necessários para colocar o Neo em um patamar mais acessível.

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É também uma aposta interessante da Apple que a demanda por uso sério de IA no dispositivo — como aqueles agentes inteligentes dos quais tanto ouvimos falar — é, e continuará sendo por um tempo, uma busca de nicho, de pouco interesse para o comprador casual de um MacBook.

Assim como o Chromebook, o MacBook Neo transferirá grande parte do trabalho pesado para a nuvem, entre outras concessões. “O teclado é um pouco frágil”, de acordo com uma primeira impressão.

O modelo básico tem apenas 256 GB de armazenamento e 8 GB de RAM, em comparação com 512 GB e 16 GB do MacBook Air básico. Um MacBook Air antigo recondicionado pode ser um negócio melhor, argumenta o portal de tecnologia The Verge – se você conseguir encontrar um.

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O que nos leva ao próximo motivo pelo qual o MacBook Neo existe: a escassez. No momento em que a Apple anunciava os novos produtos, o diretor financeiro da Intel estava em outro palco, em um evento da Morgan Stanley, alertando que os problemas de fornecimento de chips de memória persistiriam até 2027.

As empresas de IA — como já foi amplamente divulgado — absorveram grande parte da capacidade de produção das poucas fabricantes de chips de memória do mundo, elevando o custo dos componentes para os eletrônicos de uso diário. Por esse motivo, a IDC estima que o mercado global de smartphones cairá 12,9% em 2026 em relação ao ano anterior, enquanto as vendas de notebooks cairão 11,3%.

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O impacto será sentido principalmente por marcas mais econômicas, como a Lenovo, ou fabricantes de dispositivos Android com preços acessíveis. A Apple agora está pronta para atrair os consumidores que vão rapidamente perceber que gastar US$ 500 em um notebook Windows não rende tanto quanto no ano passado. “O MacBook Neo vai remodelar o segmento de notebooks básicos”, disse o analista da IDC Francisco Jeronimo.

A Apple está imune às pressões de custo? Não, e se não fosse pelo MacBook Neo, as manchetes sobre a linha de produtos da empresa poderiam estar mais focadas nos aumentos generalizados de preço de seus notebooks premium diante da turbulência econômica global e da escassez de memória.

O preço base do novo MacBook Air, tanto para os modelos de 13 como de 15 polegadas, aumentou US$100. Os modelos MacBook Pro com o chip M5 Pro mais potente custam US$200 a mais do que a geração anterior, enquanto a configuração mais barata para o chip M5 Max mais potente custa US$400 a mais.

Considerando as melhorias no desempenho dos computadores, os clientes provavelmente não verão isso como um mau negócio. É mais fácil aceitar US$ 100 a mais para aqueles com orçamentos superiores a US$ 1.000, e mesmo US$ 400 não parecerão proibitivos para os clientes que precisam do poder de computação que esses componentes oferecem.

Assim como uma companhia aérea que aumenta o preço da classe executiva para manter os assentos da classe econômica acessíveis para as massas, a Apple conta com seus clientes premium para arcar com os custos que tornam possível um MacBook econômico.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Dave Lee é colunista da Bloomberg Opinion e cobre a área de tecnologia. Foi correspondente em São Francisco no Financial Times e na BBC News.

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