Venda da Schroders, com mais de 200 anos, marca o fim de uma era na City de Londres

Compra da gestora de mais de R$ 1 trilhão de ativos sob gestão pela americana Nuveen ressalta a dificuldade de empresas do setor de competirem com produtos passivos de baixo custo e também a perda da relevância de Londres em relação a Nova York

Schroders
Por Leonard Kehnscherper - Katherine Griffiths - Crystal Tse
14 de Fevereiro, 2026 | 06:00 AM

Bloomberg — Funcionários da Schroders há muito tempo suspeitavam que a família bilionária que controlava a tradicional casa financeira da City de Londres por mais de dois séculos poderia, em algum momento, decidir vender o negócio. Ainda assim, quando o anúncio veio, foi uma surpresa.

Bruno Schroder, falecido herdeiro da instituição financeira, e uma sucessão de líderes executivos sempre descartaram a possibilidade de fusão da gestora com outra empresa. Richard Oldfield, que assumiu como CEO no fim de 2024 para estabilizar o negócio, chegou a afirmar na quinta-feira (12) que a companhia “nunca esteve à venda”.

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Nos bastidores, porém, uma razão convincente para fechar negócio vinha sendo explorada por Oldfield, um contador veterano, e por Bill Huffman, da Nuveen.

No comunicado que confirmou a aquisição por £ 9,9 bilhões (US$ 13,5 bilhões), ambas as empresas destacaram suas longas trajetórias e os vínculos com suas famílias fundadoras.

A Nuveen leva o nome do empreendedor que começou estruturando títulos municipais em Chicago há mais de um século.

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Na City, o acordo serviu como um lembrete desconfortável de que alguns de seus nomes mais tradicionais são, em escala global, relativamente pequenos.

A Schroders acumulou cerca de US$ 1 trilhão em ativos sob gestão — ainda assim, o montante a deixa muito atrás de rivais globais e vulnerável em um momento em que gestores ativos enfrentam dificuldade para competir com produtos passivos de baixo custo.

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“É o fim de uma era”, disse Michael Dobson, que ocupou cargos executivos na Schroders — incluindo CEO e presidente do conselho — durante a maior parte das últimas duas décadas. “É um pouco triste, mas espera-se que o negócio tenha encontrado um novo e bom lar, e parece uma decisão sensata.”

As ações da Schroders fecharam em alta de 29% na quinta-feira, poucos centavos abaixo do valor da oferta em dinheiro da Nuveen.

“Sempre há um momento de incredulidade quando uma dessas empresas familiares de longa data decide pela venda”, disse Robert Pickering, ex-chefe do banco de investimento Cazenove, que vendeu sua divisão de gestão de recursos para a Schroders em 2013.

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“A família sempre diz ‘nunca’, mas, na prática, a resposta é não até virar sim”, acrescentou Pickering, hoje presidente da Marex Group, com sede em Londres. “A explicação é que eles não acreditam conseguir competir em um mundo dominado por gigantes passivos.”

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A Schroders se junta a nomes históricos como Cazenove, SG Warburg e Mercury Asset Management que perderam sua independência nas últimas três décadas.

O braço de banco de investimento da Schroders foi vendido ao Citigroup em 2000. Entre os grandes nomes com raízes profundas na City que permanecem independentes está o Rothschild & Co.

Muitas dessas vendas ocorreram no contexto da onda de desregulamentação promovida pela então primeira-ministra Margaret Thatcher nos anos 1980, que abriu o mercado a instituições estrangeiras.

Mais recentemente, porém, a City tem enfrentado pressão adicional, especialmente após o referendo do Brexit, em 2016, que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia.

Diversos executivos seniores da City afirmaram que a venda da Schroders à Nuveen foi uma fusão defensiva necessária. Ao mesmo tempo, veem o movimento como reflexo dos valuations deprimidos de empresas listadas no Reino Unido e da perda de atratividade de Londres para o capital internacional na Europa.

“É um golpe para o setor de serviços financeiros do Reino Unido que a maior gestora independente tenha sido vendida”, disse Martin Gilbert, fundador da Aberdeen Asset Management nos anos 1980 e responsável por sua fusão com a Standard Life em 2017.

Sua antiga empresa, hoje chamada Aberdeen Group, continua listada em Londres — uma das poucas gestoras britânicas independentes remanescentes, ao lado da Man Group e da Jupiter Fund Management.

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Outros executivos demonstraram maior otimismo quanto ao impacto mais amplo da venda da Schroders. Nigel Boardman, presidente do private bank Arbuthnot Latham e ex-sócio do escritório Slaughter and May, afirmou: “Vimos bancos de investimento deixarem a City e enfrentamos o Brexit. Desde que não tenhamos uma regulação absurda, a City continua muito forte por causa de seu sistema jurídico, sua integridade, seu fuso horário e seu idioma.”

Richard Oldfield

Outro presidente de uma empresa de serviços financeiros, que pediu anonimato, disse ser um sinal positivo que uma grande gestora americana esteja comprometendo bilhões de dólares no Reino Unido e pagando um prêmio relevante pela Schroders.

Ainda assim, acrescentou que o status dos Estados Unidos como maior reservatório de capital do mundo é difícil de ser enfrentado.

Negócios como o da Schroders e da Nuveen indicam que “gestoras independentes europeias podem buscar maior escala, distribuição ampliada e diversificação geográfica para competir com veículos passivos de menor custo e empresas com ampla capacidade”, afirmou Monika Calay, diretora de pesquisa da Morningstar.

“Comprar é a parte mais fácil”, disse, acrescentando que a integração é mais complexa, pois culturas corporativas “não são simplesmente somadas, precisam ser reconstruídas com base na confiança entre as equipes.”

A Nuveen fez questão de destacar seu compromisso com o Reino Unido. No anúncio da operação, a empresa afirmou que, caso o negócio combinado volte ao mercado acionário no futuro, pretende listar as ações na Bolsa de Londres “como uma das praças de dupla listagem”.

‘Bruno’s Restaurant’

Em comunicado interno enviado em julho após uma reportagem da Bloomberg News sobre o futuro da empresa, a Schroders disse aos funcionários que “não havia qualquer dúvida quanto ao compromisso de longo prazo da família com o negócio”.

Schroders

À luz do acordo com a Nuveen, alguns começam agora a reavaliar seus planos.

Os que permanecerem ainda poderão se orgulhar do legado aristocrático da instituição — algo visível quando funcionários almoçam no “Bruno’s Restaurant”, batizado em homenagem ao histórico executivo e patrono da empresa, falecido em 2019 e sempre enfático ao afirmar que jamais abriria mão da gestora.

O antigo escritório do patriarca na sede da Schroders, na London Wall, foi transformado em sala de reuniões.

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