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‘Esqueceram de mim’: Cuba se vê cada vez mais isolada e sem saída ante pressão dos EUA

Corte de fornecimento de petróleo sob pressão da Casa Branca agrava o quadro econômico da ilha, que se vê sem apoio de aliados como Brasil, México, Venezuela e até vizinhos como a Guatemala; regime comunista está sem margem de manobra

Cuba
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl pode ter sido inesquecível, mas não foi a maior notícia latino-americana do último fim de semana. Essa (infeliz) distinção pertence a Cuba.

O estado de crise da ilha comunista atingiu o que pode vir a ser uma velocidade terminal depois que a Casa Branca decidiu cortar o fornecimento de petróleo ao país caribenho.

As companhias aéreas estão suspendendo os voos para Havana por falta de combustível. Os resorts que geram a escassa moeda forte estão fechando em meio a apagões contínuos.

O governo está recorrendo a medidas extremas para racionar os suprimentos cada vez mais escassos, o que perturba ainda mais a vida cotidiana em uma ilha há muito tempo acostumada às dificuldades.

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Dados de satélite compilados pela Bloomberg Economics mostram que a luminosidade noturna caiu 22% em janeiro em relação ao ano anterior, e isso foi antes das medidas mais drásticas. O colapso de Cuba já era previsto há muito tempo; desta vez, parece inequivocamente real.

Leia mais: Cuba começa a fechar resorts diante de falta de combustível da Venezuela

Talvez o mais impressionante seja o quanto Havana se tornou politicamente isolada neste momento crítico.

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Durante décadas, Cuba foi o avatar da esquerda latino-americana e um ponto de encontro para a solidariedade anti-imperialista, mas agora enfrenta sua mais grave emergência econômica desde o colapso da União Soviética, com poucos aliados confiáveis.

O México, sob pressão das ameaças tarifárias de Trump, suspendeu as exportações de petróleo, mesmo que a presidente Claudia Sheinbaum tenha manifestado solidariedade e enviado ajuda humanitária.

A Venezuela está fora de cena após a destituição de Nicolás Maduro, e a Bolívia, companheira de longa data, afastou-se do socialismo.

A Rússia e a China proferiram palavras de apoio, mas ofereceram pouca ajuda material.

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A Nicarágua tornou mais rigorosos os requisitos para a concessão de vistos aos cubanos, cortando uma rota de migração para os EUA que antes servia de via de fuga para milhares de pessoas.

À medida que grande parte da América Latina se volta para a direita, do Chile às Honduras, o custo político de defender o sistema comunista de Cuba tem aumentado.

Ainda em outubro, Sheinbaum e o presidente colombiano Gustavo Petro anunciaram com alarde que não participariam da Cúpula das Américas na República Dominicana devido à exclusão de Cuba — ecoando Andrés Manuel López Obrador, do México, em 2022.

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Hoje, porém, grande parte da resposta da região tem sido puramente retórica e, ainda assim, discreta.

As ruas de São Paulo, Buenos Aires ou Cidade do México não viram milhões de pessoas protestando contra uma nova demonstração do colonialismo americano.

Sim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a pressão dos EUA em um comício do Partido dos Trabalhadores (PT), mas a política interna e as eleições de outubro limitaram ações concretas, como o subsídio ao combustível.

No Chile, o presidente Gabriel Boric evitou amplamente o assunto depois de gerar polêmica dentro de sua coalizão governista no mês passado ao chamar Cuba de ditadura. Até mesmo a Guatemala se distanciou, encerrando o uso das brigadas médicas cubanas.

Leia mais: Crise em Cuba: elites de Miami veem recuperação econômica cada vez mais distante

Como argumenta o ex-ministro das Relações Exteriores do México Jorge Castañeda, a mão pesada da Casa Branca aumentou o isolamento de Cuba e serviu como uma dolorosa lembrança do fracasso da ilha em aproveitar a oportunidade para reformas políticas e econômicas durante a distensão da era Obama, há uma década.

“Hoje, ninguém quer brigar com Trump por causa de Cuba”, disse ele. “A América Latina já tem problemas suficientes sem acrescentar mais um.”

Essa dinâmica deixa Cuba sozinha para enfrentar um governo americano beligerante.

O secretário de Estado cubano-americano Marco Rubio está determinado a pressionar por uma mudança de regime.

Justo ou não, Washington agora detém a maior parte do controle sobre o destino econômico imediato de Havana, seja por meio de sanções, ameaças tarifárias ou controle sobre as fontes externas de energia da ilha.

Em meio a rumores de negociações discretas entre autoridades cubanas e representantes dos EUA, o presidente Miguel Díaz-Canel e seu mentor Raúl Castro enfrentam alternativas difíceis: oferecer concessões políticas e econômicas significativas em troca de alívio — ou dobrar a aposta em nome da revolução.

Os linha-dura dos EUA defenderão a pressão máxima para garantir a libertação de presos políticos, facilitar o retorno de exilados e pressionar pela restauração gradual das liberdades civis que poderiam eventualmente permitir eleições livres.

Washington ainda tem espaço para intensificar as medidas, desde restringir remessas até impor um bloqueio aéreo.

Mas esse caminho tem limites.

O sistema comunista é o principal responsável pelo colapso econômico de Cuba. Apertar os parafusos poderia acelerar um desastre humanitário para os cubanos comuns, que não tiveram influência sobre as decisões de seus líderes.

Se seis décadas de sanções não produziram uma mudança de regime, as chances de que mais do mesmo funcione são mínimas.

A transição política e econômica continua sendo o único caminho plausível para a vida digna que os cubanos merecem há muito tempo.

Mas seria ingênuo subestimar a capacidade do regime de resistir, mesmo que isso signifique abraçar a autodestruição em vez de ceder.

Como diz Castañeda: “Existem defensores da autoimolação. Eles acreditam que, se o povo se revoltar ou os EUA invadirem, pelo menos terão resistido, ao contrário do que aconteceu na Venezuela”.

Leia mais: Exploração de petróleo cresce a ritmo recorde na Guiana, mas preço global gera riscos

Cuba ficou sem combustível, aliados e tempo.

Tanto a pressão máxima quanto a resistência obstinada podem ter resultados catastróficos.

Se Díaz-Canel afirma que seu governo está disposto a negociar com os EUA “sem pré-condições” e Trump acredita que pode “fechar um acordo” com Cuba, então uma estreita janela diplomática pode ser o único caminho racional a seguir.

Caso contrário, em vez do slogan da era Castro de “pátria ou morte”, o antigo regime revolucionário de Cuba corre o risco de oferecer aos seus cidadãos apenas a perspectiva sombria de pátria e morte.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.

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