Bloomberg Opinion — A corrida pela sucessão mais acompanhada do mundo corporativo americano finalmente chegou ao fim.
A Walt Disney (DIS) anunciou na terça-feira (3) que Josh D’Amaro, diretor de parques e resorts, sucederá Bob Iger como CEO.
O anúncio encerra uma odisseia de três anos que começou quando Iger voltou a dirigir a empresa pela segunda vez, substituindo seu sucessor escolhido a dedo, Bob Chapek.
Após uma busca tão prolongada e minuciosa pelo CEO, a escolha de D’Amaro não é surpreendente nem anticlimática.
Há meses circulavam rumores de que o conselho estava se unindo em torno do chefe da divisão de parques.
E, na segunda-feira (2), quando a Disney anunciou lucros e uma receita recorde de US$ 10 bilhões no trimestre na divisão de D’Amaro, sua ascensão ao topo parecia praticamente garantida.
A ascensão de D’Amaro é o sinal mais claro até agora de que a Disney é uma empresa de hospitalidade e turismo impulsionada por seus parques temáticos e navios de cruzeiro - mais do que qualquer outra coisa.
Leia mais: Na adolescência, ele era chamado de ‘chefe’. Agora assumirá como CEO da Disney
A divisão de experiências contribuiu com cerca de 60% do lucro da empresa no ano passado e, segundo algumas estimativas, representa 80% do valor total da Disney. É também a área em que a empresa está investindo mais dinheiro — US$ 60 bilhões até 2033.
Para o conselho da Disney, D’Amaro era, portanto, a escolha segura e óbvia — e em consonância com o molde de Iger.
Um veterano de quase 30 anos na empresa, em sintonia com a cultura da Disney, D’Amaro até se veste como Iger (o uniforme: suéteres de malha fina sobre camisas de colarinho) a ponto de provocar reações negativas na empresa, segundo reportagem do New York Times.
Mas o que falta a D’Amaro é uma vasta experiência em uma empresa cada vez mais complexa, que inclui um negócio de entretenimento baseado em relacionamentos.
Isso provou ser uma desvantagem no passado; assim como D’Amaro, o ex-CEO Chapek veio da área de parques da empresa, e sua falta de habilidade com os talentos de Hollywood acabou sendo parte de sua ruína.
O presidente do conselho, James Gorman, tenta resolver esse problema mantendo Dana Walden, copresidente do negócio de entretenimento, que teria sido a única outra candidata séria na disputa pela presidência.
Quando Gorman orquestrou sua própria saída como CEO do Morgan Stanley, ele supervisionou uma transição na presidência em que dois outros candidatos internos foram preteridos, mas permaneceram no banco.
Ele tenta fazer uma jogada semelhante agora, promovendo Walden ao cargo de presidente e diretora criativa.
Walden já havia sido preterida antes, quando ingressou na Disney por meio de uma aquisição e decidiu permanecer na empresa.
Vale a pena notar que a Disney teve a oportunidade de nomear sua primeira CEO mulher e optou por não fazê-lo. É claro que muitos fatores influenciaram essa decisão.
Mas isso é um lembrete não apenas de que as mulheres continuam mal representadas nas diretorias das empresas americanas mas também de que elas continuam sendo preteridas quando os riscos são maiores e as maiores empresas estão em jogo.
Exemplo: em novembro, o Walmart (WMT) escolheu John Furner para o cargo mais alto, em vez de Kath McLay, que liderava sua divisão internacional e deixará a empresa.
Apesar da força de sua própria divisão, D’Amaro herda uma empresa que enfrenta uma previsão de crescimento fraca e ações com desempenho bem abaixo do mercado desde que Iger retornou.
E, embora Walden tenha ajudado a tornar o negócio de streaming lucrativo, a Disney deve manter o crescimento para compensar o declínio das operações tradicionais de televisão.
Leia mais: Netflix mira eventos ao vivo no Brasil e vai crescer em videocasts, diz co-CEO global
D’Amaro também deve lidar com as intensas guerras culturais, que repetidamente envolveram a Disney (leia-se: a crise de Jimmy Kimmel e o acordo entre Trump e a rede ABC).
D’Amaro conseguiu manter-se afastado da política no negócio dos parques, mas isso também significa que ele não tem experiência em lidar com esse tipo de questão espinhosa que inevitavelmente surgirá novamente na era Trump.
Uma coisa com a qual D’Amaro talvez não precise lidar é Iger, cuja saída prolongada e envolvimento contínuo na primeira vez certamente contribuíram para a queda de seu antecessor.
A empresa disse que Iger deixaria o cargo em março e permaneceria como consultor sênior e membro do conselho até sua aposentadoria no final do ano. Nesse momento, ele deixará a empresa completamente.
Sua saída pode ser o maior presente que Iger pode dar a D’Amaro para garantir seu sucesso.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Beth Kowitt é colunista da Bloomberg Opinion e cobre o mundo corporativo dos Estados Unidos. Foi redatora e editora sênior da revista Fortune.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Do império da Suzano à fotografia: a incursão de David Feffer na filantropia
‘Invasão europeia’? Chile prepara defesa de seu mercado de vinhos no Brasil
Hora do show: como a School of Rock se tornou um negócio de R$ 100 milhões
© 2026 Bloomberg L.P.



