Vélez renova ambição global do Nubank, que agora vale US$ 82 bi, com entrada nos EUA

Aos 44 anos, CEO tem controle absoluto sobre a segunda empresa financeira mais valiosa da América Latina, que acaba de receber a primeira aprovação no processo de obtenção de uma licença bancária no mercado americano

O colombiano de 44 anos acumula fortuna de cerca de US$ 17,7 bilhões, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index
Por Diana Li - Matheus Piovesana
05 de Fevereiro, 2026 | 11:26 AM

Bloomberg — A história favorita de David Vélez — que originou a segunda empresa financeira mais valiosa da América Latina — começa com uma porta blindada.

O ano era 2012, e Vélez, então aos 31 anos e sócio da Sequoia Capital, estava tentando abrir uma conta bancária em São Paulo. Após passar pela barreira de segurança em uma agência bancária, que depois compararia à de uma prisão, Vélez foi cercado por seguranças armados porque seu telefone celular disparou os alarmes do detector de metais.

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Enfim autorizado a prosseguir, sua provação estava longe do fim. Meses de burocracia seguiram, incluindo múltiplas visitas ao banco, antes que a abertura da conta fosse aprovada.

Vélez se convenceu de que o sistema bancário brasileiro estava pronto para ser transformado.

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Quatorze anos depois, o homem que naquele momento ficou trancado do lado de fora agora detém as chaves do império. A fintech que criou, o Nubank, atende a 127 milhões de clientes, o que inclui cerca de 60% da população brasileira adulta, e está entre as empresas mais valiosas do país junto com o Itaú Unibanco e a Petrobras.

O colombiano de 44 anos — cujas investidas levaram sua fortuna a cerca de US$ 17,7 bilhões, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index — agora está direcionando seu império rumo a novos destinos, incluindo alguns dos mercados bancários mais competitivos do mundo. Isso inclui os Estados Unidos, onde o Nubank acaba de receber a primeira aprovação no processo de obtenção de uma licença bancária.

“Foi uma bênção ser ignorado” pelos gigantes do setor, disse Vélez, cuja família deixou a Colômbia para fugir da guerra dos cartéis de drogas quando ele tinha oito anos. “Nos debruçamos sobre focar em nosso cliente, indo o mais rápido possível sem fazer muito barulho. E então, um dia, eles acordaram e nós éramos maiores que muitos deles.”

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Ninguém mais ignora o Nubank. As ações negociam a múltiplos muito superiores aos dos bancos tradicionais, e o retorno sobre o patrimônio também fica acima dos rivais, chegando a 31% no terceiro trimestre. O Itaú Unibanco, que é a empresa financeira mais valiosa da América Latina, teve um ROE de 23,3% no mesmo período.

 Avaliação de mercado da fintech leva em conta crescimento maior

A estrutura de governança do Nubank confere a Vélez controle absoluto como acionista. Mas a expansão a novos mercados significa que o CEO caminha sobre uma linha tênue, e ele garante aos investidores que a empresa vê este passo como uma aposta futura, e não como a prioridade no curto prazo.

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“Embora continuemos totalmente focados em nossos mercados principais no Brasil, México e Colômbia, este passo nos permite construir a próxima geração bancária nos Estados Unidos”, disse Vélez em um comunicado em janeiro, após o Nubank receber aprovação condicional para uma licença bancária nos EUA. Ainda assim, ele tem dito que as oportunidades nos EUA podem ser “transformacionais”.

Gustavo Schroden, analista do Citi, disse que o pedido de licença pelo Nubank no início do processo de expansão para os EUA serve para permitir que a companhia ofereça uma gama de serviços e garantias ao consumidor mais rápido assim que estiver pronta para iniciar a operação.

“Eles têm dito de forma clara que o pedido de licença bancária foi antecipado para corrigir um erro cometido no México, de demorar para pedir a licença e ter de esperar por dois anos”, disse Schroden em uma entrevista.

O analista Jorge Kuri, do Morgan Stanley, disse em um relatório de novembro que, por enquanto, o Nubank quer assegurar uma licença bancária completa nos EUA enquanto “refina sua visão sobre onde suas vantagens competitivas — experiência do usuário, tecnologia, modelo de baixo custo e IA — podem ser empregadas da maneira mais eficiente”.

A expansão, que Vélez considera o “terceiro ato” de seu plano estratégico, acontece diante da abertura de uma janela de oportunidade nos EUA, em que o ambiente regulatório se tornou mais amigável aos negócios sob a administração Trump. Isso inclui aprovações para que cinco empresas da criptoeconomia se tornem bancos nacionais, e a decisão da PayPal de entrar com um pedido de licença em dezembro.

Campo de batalha

Ainda assim, pode ser uma aposta arriscada, dada a reputação dos EUA como um cemitério de fintechs estrangeiras.

Nomes europeus como o N26 e o Monzo investiram milhões em busca de espaço no mercado americano antes de recuarem, diante de um ambiente em que regulações federais e estaduais se sobrepõem.

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Diferente do Brasil, em que o mercado é mais concentrado, os EUA são palco de uma disputa entre milhares de bancos, do JPMorgan Chase a pequenas empresas financeiras, todos brigando por espaço na carteira dos clientes.

O Nubank se tornou um sucesso através de um modelo de autosserviço e sem agências bancárias, que permitiu que atendesse aos clientes com um número de funcionários que equivale a 10% da média dos maiores bancos brasileiros. A aposta é que este modelo também funcionará nos EUA.

Mas Schroden, do Citi, disse que o mercado americano, por ser mais competitivo, pode levar a retornos mais baixos que os vistos no Brasil. “Não duvidamos que o Nubank vai ter uma carteira de crédito e lucro nos EUA, mas não sabemos se terá” a mesma rentabilidade vista no Brasil, afirmou ele.

As ambições globais da fintech não param nos EUA.

Em 2024, o Nubank liderou uma rodada de investimento de US$ 250 milhões na Tyme Group, a operadora por trás do TymeBank na África do Sul e do GoTyme nas Filipinas, em um movimento que Vélez descreveu como uma expedição de aprendizado a respeito dos mercados asiáticos.

Mas obter licenças em cada mercado pode ser complexo. Para manter o ritmo, Vélez sugere que a companhia pode ir além de levantar negócios do zero, o que significa que expansões futuras podem depender de aquisições e parcerias estratégicas.

“Talvez no futuro haja oportunidades de fazer parcerias maiores”, e essa estratégia poderia ser aplicada de modo similar em outras geografias ao redor do mundo, ele disse.

Mão na massa

O CEO, cujas credenciais incluem passagens pelo Goldman Sachs e pelo Morgan Stanley, controla cerca de 75% dos direitos a voto do Nubank através de uma estrutura de ações com super-voto detidas por sua holding, a Rua California. E está colocando a mão na massa, tomando de volta para si funções executivas que haviam sido repassadas a outras pessoas, para acelerar a tomada de decisão. A empresa também reduziu camadas de gestão.

“É um movimento que mostra ao mercado que o fundador está presente”, disse Bruno Diniz, sócio-fundador da Spiralem Innovation Consulting.

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