Opinión - Bloomberg

Menos ideologia, mais pragmatismo: América Latina se une em resposta à Doutrina Monroe

Clima de reunião de líderes regionais na Cidade do Panamá foi contido, focado nos negócios e realista, com tentativas de conversas mais honestas e baseadas nas preocupações concretas dos países latino-americanos, com sensação de esperança no futuro

Lula
Tempo de leitura: 5 minutos

Que melhor cenário para debater um mundo em rápida mudança do que o Canal do Panamá? A emblemática hidrovia não é apenas um importante ponto geopolítico; é também a linha de frente mais visível da América Latina na rivalidade cada vez mais intensa entre os Estados Unidos e a China.

É por isso que a presença, na semana passada, dos principais líderes políticos e executivos empresariais da região — mais de 6 mil pessoas, sob os auspícios do banco de desenvolvimento CAF — em um enorme centro de convenções a poucos quilômetros da entrada do canal no Pacífico não foi apenas simbólica, mas reveladora.

A América Latina está começando a enfrentar os riscos de uma ordem global mais discricionária, na qual sua falta crônica de integração e unidade a deixa vulnerável às manobras das grandes potências.

O que me impressionou não foi apenas a escala do “Davos da América Latina”, mas a mudança de tom que ele revelou. Seria de se esperar que o primeiro grande encontro regional desde a operação militar dos EUA que destituiu Nicolás Maduro do poder na Venezuela desencadeasse uma torrente de retórica antiamericana.

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Em vez disso, o clima na Cidade do Panamá foi contido, focado nos negócios e surpreendentemente pragmático. Se eu tivesse que resumir a vibração, diria que parecia uma tentativa de conversas mais honestas, baseadas nas preocupações concretas dos latino-americanos: mais crescimento, melhores empregos, maior segurança, menos exclusão e uma sensação de esperança no futuro. “Capitalismo para todos”, como disse acertadamente o novo presidente da Bolívia, Rodrigo Paz.

Paz compartilhou a sessão de abertura com um elenco ideologicamente eclético: esquerdistas como Luiz Inácio Lula da Silva e o colombiano Gustavo Petro, ao lado de líderes de direita, como Daniel Noboa, do Equador, e José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, todos recebidos pelo presidente do Panamá, José Raúl Mulino.

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A presença deles no mesmo palco ressaltou o objetivo mais profundo da cúpula, que não era apenas gerar ideias, mas servir como um raro catalisador para o diálogo entre as divisões arraigadas da região e começar a moldar uma nova narrativa regional.

Minhas repetidas referências a Paz não são por acaso. Com menos de três meses de mandato, ele está emergindo como uma estrela em ascensão no firmamento político da América Latina, atraindo um interesse comercial cada vez maior.

Articulado, carismático e com aparência jovem aos 58 anos, Paz personifica um estilo de liderança mais fluido e difícil de rotular, que resiste à classificação como esquerda ou direita.

Se a polarização definiu grande parte da política da região neste século, uma conclusão inevitável pode finalmente estar se consolidando: nenhum lado pode governar por muito tempo sem apresentar resultados. “A ideologia não coloca comida na mesa; o emprego sim”, disse ele.

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Essa constatação veio à tona em cenas que, até pouco tempo atrás, pareceriam impensáveis: Lula estabelecendo uma boa relação com Kast, que durante a campanha não escondeu seu desdém pela esquerda; Petro dividindo o palco com Noboa poucos dias após uma acirrada disputa bilateral sobre tarifas. “Um presidente não administra uma trincheira”, observou Kast. Será que a América Latina está realmente aprendendo a lição de que todos perdem quando se permite que as divisões internas se aprofundem sem controle?

“Politicamente, há uma mudança na região”, disse Felipe Larraín, ex-ministro das Finanças do Chile, argumentando que os formuladores de políticas devem ser ambiciosos e considerar a substituição da atual colcha de retalhos de acordos locais por um único acordo de livre comércio e logística que abranja a América Latina e o Caribe. “Precisamos de governos que não sejam tão ideológicos.”

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É certo que os líderes presentes neste evento não tinham muito a perder. Não havia nenhum comunicado final para assinar, nenhuma decisão política definitiva a tomar. As divisões persistentes da região continuam fáceis de identificar.

Basta ver a falta de consenso sobre o próximo secretário-geral das Nações Unidas: Brasil, México e Chile apoiam a Michelle Bachelet, enquanto a Argentina promove um candidato mais próximo da Casa Branca, Rafael Grossi.

Ainda assim, após dois dias de conversas com os delegados, a mensagem que emergiu foi de entusiasmo cauteloso em relação à escala de oportunidades que a América Latina continua a oferecer, desde grandes projetos de infraestrutura voltados para a integração regional até energia, minerais estratégicos e desenvolvimento de IA.

A repentina virada pró-negócios da Bolívia após duas décadas de socialismo, juntamente com a experiência da Venezuela sob a tutela dos EUA, reforçou a sensação de que mudanças políticas podem liberar o potencial econômico real.

Esse apetite renovado pelos negócios — a Câmara Americana de Comércio estava ocupada organizando reuniões corporativas paralelas — também reflete uma resposta pragmática ao envolvimento renovado dos EUA na região por meio do renascimento da Doutrina Monroe.

“Há pelo menos uma visão mais compartilhada da importância de implementar políticas de desenvolvimento produtivo”, disse José Manuel Salazar, secretário executivo da Cepal. “Uma das estratégias de diversificação é a integração regional. Isso é um motor de crescimento, se fizermos da maneira certa.”

Gráfico

Embora as ideias e oportunidades sejam abundantes, reposicionar a região levará tempo.

O ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos defendeu perante seus colegas participantes que a América Latina precisava “falar a uma só voz”.

Isso é uma ilusão. Esperar que 33 países cheguem a um acordo sobre uma única mensagem é uma noção romântica com pouco valor prático. A diversidade da região deve ser aproveitada, não suprimida artificialmente.

O desafio é evitar que essa diversidade se transforme em uma divisão fratricida, deixando todos em uma situação pior. Em um sistema internacional em rápida mudança, a construção de uma América Latina mais forte exigirá, em última análise, que os governos superem suas disputas políticas internas em prol do bem regional.

Na semana passada, no Panamá, eles deram pelo menos alguns passos preliminares.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.

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