C6 já antevê devolver capital a acionistas e ‘conversa chata’ daqui para frente

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO e fundador, Marcelo Kalim, diz que o banco digital chegou à maturidade e continua a se beneficiar de alavancagem operacional de seu modelo, que levou a uma rentabilidade de 45% no ano de 2025

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Bloomberg Línea — A seis meses de completar sete anos de operação, o C6 Bank está em uma trajetória de consolidação da operação e de crescimento de receitas com rentabilidade em patamar acima de 40%, a tal ponto que a perspectiva de manutenção desse dinâmica pelos próximos anos já permite antever até o que pareceria impensável para um banco tão “novo”: devolver capital aos acionistas.

“Até chegarmos em 2024, o banco crescia mais do que gerava de capital. Em 2024, equilibramos, e, em 2025, também. Daqui para a frente, provavelmente vamos gerar mais capital do que o business consome para o seu crescimento, que segue acelerado, assim como o [aumento do] lucro”, disse Marcelo Kalim, CEO e fundador do C6 Bank, em entrevista à Bloomberg Línea.

“Eventualmente, teremos uma distribuição de capital para os acionistas mais para o fim do ano”, completou Kalim, que é o principal acionista do C6 e que conta com o JPMorgan Chase como sócio com 46% do capital desde 2023.

Kalim fundou o C6 em meados de 2018 egresso do BTG Pactual, em que era um dos principais acionistas e parte do bloco de controle conhecido como G7, além de presidente do conselho de administração.

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Outros cofundadores do banco digital também vieram do BTG, como Leandro Torres, Carlos Fonseca (que logo saiu para fundar a Galapagos Capital) e Luiz Marcelo Calicchio, o Teco.

Segundo Kalim, o C6 atingiu um grau de maturidade que leva a uma previsibilidade dos negócios. “Estamos bastante sedimentados e maduros na estratégia e também na implementação dessa estratégia”, disse o executivo.

“Isso significa que, se não houver mudança relevante no cenário competitivo - e eu vejo pouca mudança -, mas principalmente no cenário econômico e institucional brasileiro, acho que teremos uma conversa chata”, disse Kalim em referência às perspectivas de médio prazo do banco, daqui a três anos.

“Vamos falar das mesmas coisas que hoje, mas em magnitude muito maior.”

Em um exercício hipotético, citando um ROAE (Return on Average Equity) na casa de 40% a 45%, “os números dobram a cada dois anos e pouco”: isso significaria daqui a três anos um lucro líquido mais do que o dobro do registrado em 2025, que foi de R$ 2,46 bilhões - portanto, algo na casa de US$ 1 bilhão, mantido o câmbio próximo aos patamares atuais.

Seria o que Kalim descreveu como “cenário base” se o banco continuar a implementar a sua estratégia como tem feito em sua trajetória.

“Seria uma boa meta para falarmos daqui a três anos para avaliar se chegamos ou não”, disse o experiente executivo.

O CEO do C6 comentou as perspectivas para o banco digital, que entrou em operação em agosto de 2019, à luz da divulgação dos resultados do quarto trimestre e do ano fechado de 2025 na tarde de terça-feira (3).

“O resultado foi bem em linha ao que esperávamos”, disse Kalim.

“Esperávamos um crescimento forte da carteira de crédito, que alcançamos - com aumento de quase R$ 30 bilhões -, e a manutenção de um Return on Equity elevado, que ficou em 45%. Portanto, estamos bastante felizes com o ano e a forma como evoluímos", completou o executivo.

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Segundo ele, como citado, a expectativa para os próximos anos é manter essas duas características: continuar a crescer com preservação do retorno sobre o patrimônio acima de 40%.

“Essa combinação vai nos permitir alcançar lucros recordes ao longo do tempo.”

Avanço em serviços de alta renda

Segundo o fundador e CEO do C6, “o foco continua a ser não só melhorar os serviços para o cliente de alta renda mas também oferecer serviços similares para os de média renda, digamos assim”.

“Apostamos muito nessa estratégia e isso tem dado retorno para o banco. Temos consolidado a nossa presença, tanto em termos de clientes totais como de principalidade dos mesmos”, disse Kalim, em referência ao que define a escolha de um banco que se torne aquele que concentra as operações de um cliente.

O CEO do C6 disse que a estratégia passa por oferecer o que há de melhor e mais inovador no setor bancário tanto no Brasil como no exterior.

O business case mais evidente é a conta global embarcada no app, lançada ainda no fim de 2019 na versão em dólar e no ano seguinte em euros, anos antes da mesma oferta por bancos incumbentes, bancos de investimento com atuação no varejo e mesmo fintechs globais que desembarcaram no país.

“Nossos resultados são muito em decorrência dessa estratégia e de nossa capacidade de implementá-la”, afirmou.

“Nós construímos desde uma marca até produtos, uma jornada, atendimento, e tudo isso vai deixando o cliente mais confortável para que o cliente traga a principalidade para o C6″, disse Kalim sobre o que tem se mostrado mais efetivo do ponto de vista dessa conversão.

“O último fator dessa equação é tempo. Quanto mais o tempo passa, mais ganhamos em número de clientes e em principalidade”, completou.

Segundo ele, o acúmulo desse tempo faz com que a equação ganhe força: “é o que começamos a ver acontecer em alguns segmentos. A nossa carteira de assets under management cresce de maneira cada vez mais exponencial”.

Isso tem se traduzido em aumento do engajamento e da receita média gerada por cliente ativo ao longo das safras, destacou.

O banco não abre esse dado específico de AuM.

A métrica de captações totais, que incluem depósitos à vista, avançou 36% em 2025 na base anual, para R$ 108,3 bilhões; e as captações a prazo, que incluem investimentos, cresceram 39%, para R$ 95,7 bilhões.

Alavancagem operacional

O C6 também continuou a se beneficiar de sua alavancagem operacional, ou seja, a sua capacidade de crescimento em cima de uma estrutura de custos já consolidada.

O Índice de Eficiência melhorou 12 pontos percentuais e passou de 57% em 2024 para 45% em 2025 - quanto menor, maior a sua capacidade de gerar receitas dado um nível constante de despesas.

No modelo de negócios do C6, um papel relevante é desempenhado pela concessão de crédito.

A carteira total de crédito passou de R$ 59,97 bilhões ao fim de 2024 para R$ 89,32 bilhões ao fim de 2025, com salto de quase 50%.

A qualidade da carteira manteve a sua evolução gradual: 80% se referia a crédito com garantia, versus 77% um ano antes e 73% dois anos antes.

Na estratificação por modalidade, 45% da carteira era de crédito consignado, seguido de 28% de financiamento de compra de veículos.

“Um pedaço da carteira vai para correntistas do banco, e outro pedaço para não correntistas, o que inclui consignado e veículos”, explicou Kalim.

“São pessoas que não são clientes do banco mas que têm crédito conosco. É algo que fazemos desde o começo da operação.”

Esse crédito, por sua vez, é originado por meio de correspondentes bancários no caso de consignado e de uma força de vendas que atua junto a revendas de carros no segundo.

O nível de inadimplência se manteve sob controle, em 2,9% para clientes com atrasos de pagamento acima de 90 dias ao fim de 2025, versus 2,6% um ano antes.

O aumento se deveu essencialmente a um efeito contábil para adequação a uma nova norma do Conselho Monetário Nacional (CMN) em 2025: excluído esse efeito, o índice de NPL 90+ teria recuado para 2,0% ao fim do último ano.

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