‘Don’t fight the flow’: CEO da Alpha Key vê desafio de valuation com rali na bolsa

Christian Keleti diz que entrada de capital estrangeiro é tão massiva que começa a distorcer valuations na bolsa brasileira, que não conta com ativos suficientes para investir, em análise na Latin America Investment Conference, do UBS BB

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Bloomberg Línea — A bolsa brasileira recebeu um fluxo de capital estrangeiro acima de R$ 12 bilhões no mês de janeiro – quase metade do total aportado em todo o ano passado.

Os investimentos beneficiaram principalmente as maiores e mais líquidas ações da bolsa – blue chips como Vale (VALE3), Petrobras (PETR4) e os papéis de grandes bancos.

O movimento faz parte de uma diversificação global para bolsas emergentes, que não “olha” as empresas no detalhe e aposta em posições táticas, muitas vezes via índices como o EWZ, que representa a bolsa brasileira em dólar.

Para Christian Keleti, CEO da Alpha Key, trata-se de um cenário desafiador de alocação em que os valuations das empresas podem ficar distorcidos – ou serem reposicionados para outro patamar diante do apetite voraz do investidor estrangeiro.

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“Como o ‘gringo’ está entrando forte, nós vamos perder referência de valuation”, afirmou o gestor no segundo dia da Latin America Investment Conference (LAIC), realizada pelo UBS BB nesta quarta-feira (28), em São Paulo.

Keleti citou como exemplo a Vale, que é historicamente negociada a um múltiplo de enterprise value sobre Ebitda (EV/Ebitda) de 4,5 vezes, e já está no patamar de 5 vezes depois dos ganhos recentes – o papel saltou 20% em preço apenas neste início de ano.

Nesse caso, haveria um potencial de reposicionar o valuation da empresa, dada especialmente a expansão no negócio de cobre para os próximos cinco anos. A gigante peruana do cobre Southern Copper Corp é negociada a múltiplos de 15 vezes, como efeito de comparação.

“Por que a Vale não poderia negociar a um múltiplo de 6 vezes ou 7 vezes? É a frase de americano: ‘Don’t fight the flow’”, afirmou.

Existem, no entanto, casos que o gestor apontou como distorção, como seria o caso da Ambev (ABEV3). “É um negócio que está decrescendo, em que é difícil repassar preço e volume, mas que está em uma alta histórica de valuation. Mesmo sem crescer há dez anos.”

A explicação por trás da entrada massiva de capital estrangeiro em emergentes é a tendência de diversificação global diante da retomada da postura agressiva do presidente americano Donald Trump diante de aliados históricos como Europa e Canadá.

É algo que tem, inclusive, enfraquecido o dólar globalmente diante da reavaliação da estratégia de sobrealocação de ativos denominados na moeda americana.

A tendência pode ganhar força caso o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) adote uma postura mais dovish – favorável a juros mais baixos –, com a saída do presidente do Fed, Jerome Powell, em maio deste ano.

Keleti citou ainda um terceiro vetor que pode impulsionar a bolsa brasileira: a queda na taxa básica de juros.

Nesta quarta-feira no fim da tarde, horas depois das declarações, o Comitê de Política Monetária do Banco Central manteve a taxa básica de juros em 15% ao ano, como esperado, e sinalizou que o início do ciclo de relaxamento monetário deve começar em março se o cenário vigente se mantiver até lá.

“Meu medo nesse cenário é que podemos estar apenas no início do fluxo [de capital estrangeiro para a B3] e não temos papel para investir. Temos atualmente apenas 200 ações ‘investíveis’ na bolsa”, completou Keleti.

O gestor disse que esse é um cenário “mais assustador” que a projeção de dólar a R$ 4,40 levantada ontem, durante o mesmo evento, por Luis Stulhberger, da Verde Asset. “Vamos chegar aqui e a bolsa vai estar a 300.000 pontos.”

No limite, essa entrada de capital geraria ainda uma situação incomum no mercado: a necessidade dos gestores buscarem proteção. Ao comprar parte de um índice, por exemplo, eles seriam capazes de “surfar” os ganhos das blue chips – ainda que elas não sejam suas maiores posições.

“Precisamos tomar cuidado com esse cenário. O que é possível fazer – e é incrível dizer isso – é um hedge [contra a alta da bolsa]”.

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