Bloomberg Opinion — O apetite do governo de Donald Trump por destruir coisas parece não ter limites. O último princípio a ser ignorado (“não humilhe seus amigos sem motivo”) pode ser o mais consequente até agora.
Ao ameaçar aumentar as tarifas contra os países europeus, a menos que eles permitam que os Estados Unidos tomem posse da Groenlândia, o governo prejudica a aliança da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), fortalecendo os adversários dos EUA e abraçando definitivamente a instabilidade global.
E para quê?
Os EUA, sem dúvida, podem ter razões defensáveis para tirar proveito da posição estratégica da Groenlândia. Mas seus objetivos poderiam ter sido plenamente alcançados através da cooperação com parceiros dispostos a colaborar.
A Dinamarca e seus aliados europeus estavam abertos a uma cooperação militar mais estreita e dispostos a gastar mais na defesa da Groenlândia, tudo sob a liderança dos EUA. A abordagem do governo, ao contrário, causará danos que serão extremamente difíceis de reparar e que podem muito bem ser permanentes.
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Apesar das perturbações do ano passado, que começaram para valer com as tarifas do “Dia da Libertação” em abril, os líderes europeus pareceram surpresos com esta última iniciativa. Eles haviam chegado a um acordo comercial, ou assim pensavam, que permitia aos EUA impor tarifas mais altas sobre muitas de suas exportações, mantendo suas próprias tarifas baixas sobre os produtos americanos praticamente inalteradas.
Essa vitória para os EUA (como a Casa Branca a interpretou) foi agora posta de lado antes mesmo de entrar em vigor, com ameaças de novos e crescentes direitos aduaneiros, a menos que a Europa se submeta às exigências peremptórias da administração.
Essa abordagem rejeita até mesmo a pretensão de parceria com aliados históricos. Alguns governos europeus podem preferir ceder mais uma vez, em parte para evitar uma guerra comercial total e em parte porque acham que este governo é uma aberração e que a normalidade será retomada com o tempo. No entanto, seus eleitores podem não ver dessa forma.
O presidente francês, Emmanuel Macron, pedindo retaliação comercial, disse que as exigências de Washington eram “fundamentalmente inaceitáveis” e que a Europa deve rejeitar a ameaça de “vassalização”. Nisso, ele sem dúvida fala por muitos na Europa.
A posição do governo é ainda mais intrigante porque as principais vítimas de mais novas tarifas (com ou sem retaliação) serão as próprias empresas e consumidores americanos. Na semana passada, veio a mais recente confirmação do que os economistas sabem há séculos: tarifas são uma proposta em que todos perdem.
Pesquisadores constataram que os exportadores estrangeiros absorveram cerca de 4% da nova carga tarifária em 2025; os consumidores e importadores americanos pagaram o restante.
Uma guerra comercial crescente multiplica os custos e prejudica a todos. E se os mercados financeiros passarem a considerar provável uma escalada, os riscos de um colapso nos preços dos ativos, taxas de juros de longo prazo mais altas e um colapso fiscal total só aumentarão.
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Mesmo que a Casa Branca tome medidas imediatas para reparar essa ruptura, como deveria, o dano já está feito. Se os aliados dos Estados Unidos tinham dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a Otan, agora eles têm clareza: da forma como as coisas estão, os acordos com Washington baseados em parcerias históricas e no compromisso com vantagens mútuas não são tão confiáveis quanto se supunha.
Com sorte, esses entendimentos podem ser remendados, mas não há um caminho fácil para voltar ao que era antes. Os adversários dos Estados Unidos mal ousavam sonhar com um golpe tão grande para a aliança ocidental.
No momento, é essencial controlar os danos na Groenlândia. Além disso, o governo precisa repensar urgentemente sua abordagem às relações globais — liderar com firmeza, por todos os meios, mas colocar a cooperação com os amigos em primeiro lugar.
É assim que se obtém o maior benefício para o país, ao mesmo tempo em que se protege os EUA e o mundo do que seria uma ruptura desnecessária e cara.
Por favor: conserte essa bagunça antes que piore.
O Conselho Editorial publica as opiniões dos editores sobre uma série de assuntos de interesse global.
—Editores: Clive Crook, Timothy Lavin.
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