Morgan Stanley projeta ‘primavera latino-americana’ com novo ciclo de investimentos

Analistas do banco disseram, em relatório, que Brasil e Argentina despontam como os mercados com maior potencial na região, enquanto México e Chile mostram potencial de retornos mais moderados

A hipótese mais otimista dos analistas do banco projeta que os mercados acionários latino-americanos poderiam dobrar de valor até 2030.
19 de Janeiro, 2026 | 12:23 PM

Bloomberg Línea — A América Latina enfrenta um ponto de inflexão.

A região começa a se desenhar como uma das principais apostas dos mercados emergentes à medida que convergem três elementos determinantes: um ambiente geopolítico em transformação, um ciclo de juros em sua fase terminal e um novo mapa político com potencial de guinada para políticas pró-investimento.

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A tese do Morgan Stanley (MS) propõe um cenário chamado LatAm Spring (Primavera Latino-Americana), um ciclo de alta que rompe com anos de estagnação e busca reposicionar a América Latina como um eixo estratégico para o capital global.

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Sob essa hipótese, o crescimento não seria impulsionado pelo consumo nem pelas commodities, mas por um ciclo sustentado de investimento privado, apoiado em reformas estruturais, consolidação fiscal e melhora da confiança empresarial.

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“A América Latina não está no centro da mudança global, mas essa mudança é central para a América Latina”, segundo os analistas do Morgan Stanley.

A ‘primavera latino-americana’

O relatório sustenta que a região poderia entrar em um novo ciclo econômico se os governos implementarem políticas fiscais responsáveis, reduzirem as taxas de juros de forma sustentável e promoverem reformas estruturais voltadas a aumentar a produtividade, fortalecer os mercados de capitais e atrair capital privado.

Nesse cenário, o investimento como porcentagem do PIB subiria até — ou mesmo acima — do patamar de 20% em países como o Brasil, e se aceleraria no México e no Chile. O resultado seria uma expansão econômica com menor pressão inflacionária, o que permitiria aos bancos centrais cortar juros e manter a estabilidade cambial.

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LatAm Spring implica uma ruptura decisiva com o status quo. Nesse cenário, a região segue um caminho crível de consolidação fiscal, flexibilização monetária e reforma estrutural, restaurando a confiança do investidor e atraindo capital privado”, afirma o banco.

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A hipótese mais otimista projeta que os mercados acionários latino-americanos poderiam dobrar de valor até 2030.

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O índice MSCI LatAm, que hoje negocia a um múltiplo preço/lucro próximo de 11 vezes, poderia se reprecificar para 14 vezes.

“O cenário Spring para a América Latina poderia gerar uma revalorização de cerca de 90% do mercado regional até 2030”, segundo a equipe de estratégia regional do Morgan Stanley.

Por país, os analistas apontam Brasil e Argentina como os mercados com maior potencial, enquanto México e Chile exibem retornos mais moderados. A diferença, alertam, está na profundidade das reformas fiscais, no tamanho do mercado de capitais e no grau de dependência de fluxos externos.

Ações vencedoras

A primavera bursátil projetada pelo Morgan Stanley inclui uma profunda reconfiguração setorial. As oportunidades seriam lideradas por serviços financeiros, tecnologia, infraestrutura energética, serviços públicos (utilities) e saúde.

“Vemos a mudança para um ciclo liderado por investimento como um fator-chave que pode melhorar o balanço risco-retorno para investidores em renda variável na América Latina”, afirmam os analistas do banco.

Entre os setores favorecidos, destacam-se fintechs como Nubank (NU), plataformas de comércio eletrônico como MercadoLibre (MELI) e players do setor financeiro como XP (XP) e BTG Pactual (BPAC11). Em infraestrutura, elétricas brasileiras como Cia Paranaense de Energia (CPLE3) e Energisa (ENGI11), além de operadores de energia como PRIO (PRIO3) e Petrobras (PETR4), se beneficiariam de uma retomada do investimento em capital (capex).

A equipe de análise estima que, no caso das utilities, o capex acumulado entre 2026 e 2035 alcançaria US$ 136 bilhões, 56% acima do cenário base. Isso se traduziria em uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de EBITDA de 3% e de lucro líquido de 7%.

“No front energético, nossa equipe acredita que a Petrobras adotará uma postura mais austera e orientada a retorno”, segundo o time setorial de energia.

O fenômeno do nearshoring no México também surge como motor estrutural nesse cenário. Empresas como Fibra Prologis (FIBRAPL), Vesta (VESTA*), GCC (GCC*) e Banorte (GFNORTEO) figuram entre as principais beneficiárias do aumento do investimento industrial no norte do país.

O Morgan Stanley também projeta um aumento de 5,4 vezes nos ativos sob gestão de fundos de ações domésticos na América Latina até 2035, o que implicaria um avanço dos atuais US$ 160 bilhões para US$ 850 bilhões.

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No Brasil, o salto seria ainda maior: de US$ 94 bilhões para US$ 584 bilhões.

“Mercados de capitais mais profundos e reformas estruturais poderiam fazer com que o sistema financeiro supere o tamanho das economias subjacentes”, segundo os estrategistas do Morgan Stanley.

O risco de execução

O cenário altista não está livre de riscos. O principal é a capacidade dos governos de executar políticas coerentes que preservem a disciplina fiscal, promovam regras claras para o capital e sustentem um ambiente institucional estável.

A história recente da América Latina mostra que mudanças de rumo são frequentes e que ciclos de entusiasmo do investidor podem murchar rapidamente.

“Não é garantido que os formuladores de políticas joguem bem suas cartas. Muito ajuste, reequilíbrio e reconfiguração podem ser necessários”, alerta o relatório.

O cenário-base, chamado pelo Morgan Stanley de Middle, pressupõe a continuidade das condições atuais, com juros ainda elevados, reformas lentas e mercados de capitais que seguem perdendo relevância frente a instrumentos de renda fixa e fluxos offshore.

“No cenário-base, as avaliações na região permanecem deprimidas, com um P/L projetado de aproximadamente 9 vezes, próximo aos níveis mais baixos das últimas duas décadas”, afirma o banco.

No cenário mais adverso, denominado Fall, os governos não conseguem consolidar as contas fiscais, as reformas estruturais empacam e a incerteza política persiste. Isso resulta em juros altos, depreciação cambial, fuga de capitais e mercados acionários que seguem sem despertar interesse sustentado.

A diferença entre um cenário e outro depende, segundo o banco, de um conjunto de decisões de política econômica a serem tomadas nos próximos 12 a 24 meses. Brasil e Colômbia enfrentam os maiores desafios fiscais, mas também as maiores oportunidades se conseguirem se consolidar.

O México tem vantagens estruturais, mas enfrenta uma institucionalidade cada vez mais frágil. O Chile avança, ainda que de forma gradual. A Argentina, se mantiver a estabilidade macroeconômica e recuperar o acesso aos mercados, pode surpreender.

“O importante é imaginar o caminho, mesmo que ele ainda não esteja visível”, conclui o relatório.