Bloomberg Línea — Depois de alcançar a marca de R$ 1 trilhão sob gestão em 2025, a Bradesco Asset Management tem um novo objetivo a partir deste ano: conquistar o público de alta renda que busca personalização. O ganho de escala, por sua vez, será amparado por novos investimentos em tecnologia e inteligência artificial.
O alvo é o segmento batizado como Principal no segundo maior banco privado do país, liderado pelo CEO Marcelo Noronha: é a categoria localizada entre o Prime e o Private Banking e que atende clientes com renda mensal acima de R$ 25.000 ou investimentos entre R$ 300 mil e R$ 10 milhões.
A aposta no segmento Principal reflete tanto uma oportunidade de expansão quanto uma tendência estrutural do mercado em que investidores buscam um relacionamento com personalização cada vez maior.
Com projeção de chegar a 1 milhão de clientes até o final de 2026 – ante os atuais 3 milhões de clientes da asset –, o Principal é considerado o segmento ideal para a gestora crescer entre esse perfil de clientes.
Para Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, são investidores que estão dispostos a ir além dos tradicionais CDBs e fundos DI e que buscam produtos mais sofisticados como fundos imobiliários, fundos de crédito high yield e estruturas alternativas que antes ficavam restritas ao universo do private banking.
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“O segmento Principal é formado por clientes de alta renda que buscam produtos sofisticados. Queremos oferecer uma solução personalizada e orientada ao cliente, só que com escala”, afirmou em entrevista à Bloomberg Línea.
O ano de 2026 será dedicado a testar e ajustar os processos tecnológicos necessários para viabilizar a personalização em larga escala.
A asset não abre os valores do investimento realizado em inteligência artificial por se tratar de um ponto estratégico da operação. O plano é que os processos testados no Principal sirvam como base para, em um segundo momento, expandir a estratégia também para o restante da base de clientes.
“O Private é ultra personalizado com atendimento pessoal. O varejo será mais tecnologia. O Principal fica no meio, com um misto entre os dois”, definiu Funchal.
O objetivo é criar recomendações hiperpersonalizadas, a exemplo das carteiras recomendadas, mas sem generalizar em perfis abrangentes como conservador, moderado e agressivo. “Serão soluções desenvolvidas especificamente para cada investidor”, disse o CEO.
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Desafio de diversificação
Existe, no entanto, uma recomendação comum para todos os perfis de investidores em 2026: diversificar a alocação da carteira, especialmente para aqueles que têm apostado todas as fichas em crédito privado - uma das classes que mais cresceram nos últimos anos, no Brasil em um ambiente de juros mais elevados.
Funchal disse avaliar que muitos investidores estão “sobrealocados” na categoria e prevê retornos mais modestos – equivalente a algo entre 103% e 104% do CDI - em relação aos 105% a 115% observados nos últimos três anos.
“Não acredito que vai ocorrer um evento de crédito ou perda do principal investido, mas também não será um ganho extraordinário”, afirmou.
A gestora tem recomendado um aumento de exposição a ações desde 2025, mas identifica um efeito ainda “tímido” na demanda.
“Tivemos fundos multimercado e de ações com valorização de 50% no ano passado e que ainda assim ficaram com captação negativa”, exemplificou.
Funchal disse que a resistência à mudança na composição da carteira é comum, especialmente em um cenário de juros ainda acima de dois dígitos.
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Em termos de captação, a expectativa do CEO da Bradesco Asset é que os fundos de ações se recuperem antes dos multimercados neste ano.
Ainda assim, Funchal prevê um novo ano desafiador para a demanda da indústria, com os juros altos ainda favorecendo a alocação em fundos DI e de crédito.
Agora que os juros estão projetados para tendência de queda – o Bradesco prevê a Selic em 12% ao ano ao fim de 2026, ante o patamar atual de 15,00% ao ano – e a bolsa brasileira (Ibovespa) já subiu 35% em 12 meses, investidores olham com maior interesse para as oportunidades na renda variável.
“É uma questão de narrativa, de comunicar que há espaço de valorização em outras classes, especialmente porque há uma queda contratada na taxa de juros.”
Para o executivo, que já foi secretário do Tesouro, o investimento em ações no Brasil ainda tem espaço para ganhos adicionais em 2026.
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“Estava tudo tão barato em 2025 que qualquer posição em ações tinha espaço para ganhar. Hoje, andou muita coisa, mas ainda assim você tem muitas oportunidades”, avaliou.
Funchal ressaltou também a importância da gestão ativa no cenário corrente tomado por incertezas, relacionadas a eventos que vão das eleições presidenciais no Brasil ao quadro geopolítico global com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
“É importante buscar produtos em que o gestor tenha oportunidade de se defender para ajustar as alocações ao longo do tempo”, disse.
A recomendação vale especialmente para produtos como fundos long bias e long short, que trazem mais flexibilidade aos gestores para aproveitar assimetrias em momentos de turbulência.
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