Opinión - Bloomberg

Dólar em xeque: por que o privilégio dos EUA pode estar com os dias contados

Dólar como reserva global proporciona aos EUA controle sobre os sistemas financeiros, com direito a impor sanções e acessar empréstimos a custos menores; mas os custos de dependência podem ficar altos demais em tempos como o atual

Dólares
Tempo de leitura: 8 minutos

Bloomberg Opinion — Qual é a durabilidade da supremacia do dólar e qual seria a importância de sua destituição?

Até recentemente, essas questões poderiam ser seguramente consideradas curiosidades teóricas: tudo muito interessante, mas a economia mundial se organizou em torno do dólar durante décadas e, ao contrário de inúmeras previsões fracassadas, isso não está prestes a mudar.

O ataque do presidente Donald Trump em todas as frentes ao status quo nas relações internacionais colocou as coisas sob uma nova perspectiva. Às vezes, o impensável acontece.

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O debate sobre o domínio do dólar gira em torno de benefícios, custos e permanência no poder.

A posição da moeda concede aos EUA um certo grau de controle sobre os sistemas financeiros mundiais. Esse controle confere poder, muitas vezes empregado na forma de sanções financeiras. E também permite que os tomadores de empréstimos em dólares (principalmente o governo americano, altamente endividado) obtenham fundos por um custo menor do que poderiam obter de outra forma.

Contra essas vantagens, a alta demanda por ativos em dólares implica uma moeda supervalorizada e uma consequente pressão sobre os fabricantes do país.

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A maioria dos economistas concorda que esse equilíbrio entre custos e benefícios favorece o dólar dominante. A Casa Branca vê isso de forma diferente: ela acredita que os EUA podem manter os benefícios e eliminar os custos.

Stephen Miran, assessor da Casa Branca que agora atua como formulador de política monetária no Federal Reserve, explicou esse pensamento.

A ideia é usar barreiras comerciais para promover a indústria manufatureira dos EUA, intervenções financeiras para manter o dólar competitivo e ferramentas não econômicas (incluindo ameaças de desfazer alianças) para defender o lugar do dólar na infraestrutura financeira global.

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A noção de que as barreiras comerciais fortalecerão a economia é questionável, para dizer o mínimo, mas deixemos isso de lado: suponha, para fins de argumentação, que uma fragmentação do comércio global induzida por tarifas possa realmente reviver os empregos na indústria manufatureira dos EUA e impulsionar a economia.

Essa política de fragmentação comercial deliberada pode ser conciliada, como propõe o governo, com a defesa da preeminência do dólar?

A resposta depende das causas dessa preeminência — o que nos leva à inércia. O sistema atual parece muito bem estabelecido. Por que isso acontece? E o que seria necessário para abalar o status quo?

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Dois livros publicados em 2025 investigam a história do dólar dominante: Our Dollar, Your Problem (“Nosso dólar, seu problema”, em tradução livre), de Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, e King Dollar (“Rei dólar”, em tradução livre), de Paul Blustein, um jornalista que passou muitos anos cobrindo finanças globais.

Recomendo vivamente ambos — e, dada a sua abordagem contrastante, se complementam bem.

Rogoff combina a análise econômica com memórias (é um acadêmico de renome e, como ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, participou de alguns dos episódios que relata).

Blustein, como de costume, apresenta uma narrativa concisa, bem pesquisada e altamente legível. Mas, quando se trata de adivinhar o que virá a seguir, eles acabam chegando a conclusões ligeiramente diferentes.

Ambos os livros estavam quase concluídos antes da reeleição de Trump. Cada um deles inclui posfácios expressando preocupação sobre aonde chegará a renovação do lema “America First” — mas o ritmo e a escala impressionantes da turbulência econômica do ano passado certamente pegaram os dois autores, como quase todo mundo, de surpresa.

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No início do ano passado, Blustein estava inclinado a pensar que a supremacia do dólar estava garantida. “Independentemente de você aprovar ou não o domínio do dólar, as dúvidas sobre sua durabilidade devem ser deixadas de lado”, escreveu ele; sua posição é “quase inexpugnável e permanecerá assim, a menos que haja erros catastróficos por parte do governo dos EUA”.

Seus relatos detalhados sobre as ambições fracassadas anteriores de coroar um novo rei são convincentes. Mas Rogoff estava menos otimista, mesmo antes de o então novo governo colocar em prática sua teoria transgressiva da supremacia do dólar.

Na verdade, há mais concordância do que discordância aqui. O dólar e, em sua época, a libra esterlina mostraram que, uma vez estabelecido um padrão monetário global, ele tende a permanecer.

Os EUA ultrapassaram o Reino Unido como a maior economia do mundo no final do século XIX; somente após 1945 o dólar substituiu definitivamente a libra esterlina como moeda de reserva global. Ao mesmo tempo, pressione um regime com força suficiente e ele cederá. Nada é para sempre.

Por um tempo, o domínio do dólar pode persistir mesmo que os EUA se tornem menos dominantes em outros aspectos — isto é, como potência econômica ou militar. Isso porque uma moeda dominante é conveniente. Ao facilitar as transações, ela proporciona os chamados benefícios de rede, uma fonte de vantagens mútuas.

Os países que não têm acesso ao chamado privilégio exorbitante do dólar de empréstimos mais baratos ainda compartilham desses outros benefícios.

Se os EUA administrarem sua economia com competência — deixando seu mercado de capitais funcionar e evitando alta inflação e instabilidade financeira —, todos saem ganhando.

Esses benefícios não apenas ancoram o padrão como também se reforçam mutuamente. Se os comerciantes internacionais compram ou vendem mercadorias faturadas em dólares, é provável que mantenham saldos financeiros denominados em dólares. A maior demanda por ativos em dólares eleva seu preço, reduzindo assim a taxa de juros dos empréstimos em dólares.

Mas se for mais barato tomar empréstimos em dólares, os comerciantes também preferirão faturar em dólares (isso lhes dá maior certeza sobre as receitas futuras em dólares e permite que tomem empréstimos mais baratos com segurança).

Portanto, a ligação entre faturamento e fluxos financeiros funciona nos dois sentidos: mais faturamento em dólares significa empréstimos mais baratos em dólares, e empréstimos mais baratos em dólares significam mais faturamento em dólares.

Esse círculo, entre outros fatores, é capaz de consolidar um padrão monetário — mas, com provocação suficiente, o mecanismo também pode funcionar ao contrário.

Menos faturamento em dólares devido à fragmentação do comércio corroeria a vantagem do custo dos empréstimos em dólares, o que, por sua vez, reduziria o faturamento em dólares.

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O domínio do dólar também é defendido de outras maneiras, como explicam os dois autores, principalmente pela falta de alternativas plausíveis.

O euro tem sido prejudicado pelo crescimento lento da União Europeia, pela disfunção política e pelo fracasso em criar uma união bancária e de mercados de capitais; o renminbi, apesar das reformas, pelos controles governamentais e pela incapacidade institucional.

Ainda assim, dada a crescente insatisfação com a liderança econômica dos EUA, é plausível uma renovada competição pelo domínio monetário.

O governo entende esse perigo e tomou medidas para evitá-lo — por exemplo, ameaçando retaliar os países dos BRICS se eles seguirem adiante com os planos (ainda não concretizados) de desdolarização.

Tais medidas podem não ser suficientes. Na verdade, no final, a coerção pode ser contraproducente — destacando os custos de depender dos EUA e reforçando a ideia de que é necessária uma alternativa.

As tarifas agressivas do governo Trump, o uso ávido de sanções financeiras que dependem da infraestrutura de pagamentos em dólares e a total imprevisibilidade apontam na mesma direção, neutralizando os ganhos que os antigos parceiros veem na ordem atual e abrindo suas mentes para alternativas.

A outra grande ameaça à posição do dólar é a percepção de que os ativos em dólares americanos não são mais seguros. Rogoff, um crítico contundente do excesso fiscal, dá grande ênfase a esse ponto.

Os EUA se tornaram viciados em empréstimos excessivos, argumenta ele, guiados em parte pela visão, após a crise financeira global de 2008-2009, de que taxas de juros ultra-baixas são o novo normal.

Os políticos americanos nem mesmo estão discutindo maneiras de controlar um déficit fiscal que é historicamente enorme, mesmo com a economia próxima do pleno emprego.

A perspectiva de uma dívida insustentável também aumenta a probabilidade de uma inflação mais alta como forma de inadimplência implícita — uma estratégia que um Federal Reserve não mais independente pode ser chamado a executar.

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Nada disso reforça a confiança no domínio do dólar. Se Blustein está procurando “erros catastróficos”, esses parecem se qualificar. O desfecho não precisa ser repentino ou dramático. Mesmo que nenhuma moeda concorrente viável surja, a fragmentação financeira pode se acelerar.

Em vez de mudar para um padrão do euro ou do renminbi, ainda difícil de imaginar, o mundo pode mudar gradualmente para nenhum padrão e/ou padrões rivais. Não precisa haver uma crise que mude o regime — mas o mundo ainda assim teria perdido algo valioso, e os EUA mais do que ninguém.

Por enquanto, os investidores estão tranquilos. O pensamento pode ser: “Isso também vai passar”. Trump é um caso à parte, e o primeiro ano de seu segundo mandato tem sido surpreendente, mesmo para os padrões dele.

Ele certamente não conseguirá manter esse ritmo; com o tempo, a política seguirá em frente e a normalidade será retomada. Talvez seja isso mesmo. Se não for, o fim do dólar como moeda dominante pode não ser o nosso maior problema.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Clive Crook é colunista da Bloomberg Opinion e membro do conselho editorial que cobre economia, finanças e política. Ex-comentarista-chefe de Washington para o Financial Times, também foi editor do The Economist e do The Atlantic.

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