Opinión - Bloomberg

Por que derrubar Maduro do poder não assegura uma vitória na Venezuela

A menos que Trump tenha um plano ainda não revelado, operação dificilmente levará à transição democrática, à recuperação econômica e ao restabelecimento da estabilidade que melhorariam a vida dos venezuelanos e fortaleceriam a segurança dos EUA

President Nicolas Maduro Delivers State Of The Union Address
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Bloomberg — A última vez que os Estados Unidos removeram à força um ditador odiado, seu maior erro foi deixar o país que haviam libertado com um vácuo de poder. Esta Casa Branca aprendeu a lição do Iraque? Depois de derrubar o venezuelano Nicolás Maduro, o presidente afirma que os Estados Unidos irão “administrar o país”. O que isso significa ainda não está claro.

No curto prazo, a operação que retirou Maduro de Caracas é uma vitória evidente para o governo. Ele havia fraudado uma eleição, prendido e torturado opositores, empobrecido seu país e alimentado uma diáspora em massa que desestabilizou a região. Poucos lamentarão sua saída.

Os venezuelanos passam a ter ao menos uma chance de um futuro melhor, e isso, por sua vez, pode aliviar as pressões migratórias nos Estados Unidos e em outros lugares. A operação também exibiu capacidades militares que devem fazer outros adversários dos Estados Unidos refletirem.

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Ao mesmo tempo, os riscos de longo prazo são enormes.

Violar a soberania de outras nações para remover à força seus líderes enfraquece ainda mais a posição dos Estados Unidos como defensores das regras globais — um precedente particularmente negativo em um momento em que rivais como Rússia e China fortalecem suas próprias capacidades de operações especiais.

Excluir novamente o Congresso da decisão também corrói normas que protegem os americanos contra excessos do poder da Casa Branca.

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Mais importante ainda, a menos que o governo tenha um plano que ainda não revelou, essa operação dificilmente levará à transição democrática, à recuperação econômica e ao restabelecimento da estabilidade que realmente melhorariam a vida dos venezuelanos e fortaleceriam a segurança dos Estados Unidos.

Mesmo que o regime sucessor, atualmente liderado pela ex-vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, esteja disposto a cooperar com os Estados Unidos, essa cooperação pode consolidar o status quo político em vez de conduzir a um renascimento democrático.

O presidente pareceu descartar a ideia de que María Corina Machado, que liderou a luta contra Maduro e conta com o apoio da maioria dos venezuelanos, devesse conduzir um retorno rápido a uma democracia genuína.

A continuidade da repressão política e da corrupção apenas alimentará o ressentimento contra os Estados Unidos e aumentará o número de pessoas que desejam fugir do país.

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Gangues de drogas e outros grupos armados podem continuar controlando grandes áreas do território. Para líderes norte-americanos, impedir tudo isso à distância será praticamente impossível.

Evitar esse desfecho exigirá aquilo que o governo tem minimizado até agora: diplomacia sustentada.

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Os Estados Unidos precisam se apoiar no suporte que possuem na região e dentro da Venezuela para convencer Rodríguez a concordar com uma transição clara e rápida para a democracia.

Anistia pode ser necessária para muitos funcionários de escalão intermediário do regime, enquanto autoridades de nível mais alto talvez precisem receber a oferta de exílio.

Os Estados Unidos e seus aliados regionais terão que se engajar em um processo prolongado de estabelecimento e apoio a qualquer novo governo, alternando persuasão e pressão sobre ambos os lados para manter o progresso no caminho certo.

Esta não é a primeira vez que ações audaciosas do governo criam oportunidades para encerrar conflitos aparentemente congelados. No Irã, em Gaza e na Ucrânia, essas oportunidades correm o risco de se perder por falta de continuidade diplomática. Esse é o erro que o governo precisa evitar na Venezuela.

O Conselho Editorial publica as opiniões dos editores sobre uma série de assuntos de interesse global.

— Editores: Nisid Hajari e Clive Crook.

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