Bloomberg — Cinco anos depois de ter sido duramente afetada pela covid-19 e pela expansão do trabalho remoto, a região de Canary Wharf começa a dar a volta por cima.
O número de visitantes que chegam ao distrito financeiro no leste de Londres por trem e metrô superou os níveis pré-pandemia, à medida que mais banqueiros retomam a rotina diária em seus escritórios.
A região também tem recebido mais visitantes nos fins de semana, atraídos pela crescente oferta de restaurantes, bares, lojas e opções de lazer.
O movimento ganhou impulso com a determinação do CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, no início do ano, para que a maior parte dos funcionários voltasse ao escritório cinco dias por semana — uma orientação que deu o tom para políticas mais rígidas em Wall Street.
O banco chegou até a alugar espaço adicional para acomodar o retorno às atividades presenciais, assumindo vários andares do antigo escritório do Credit Suisse, próximo à sede europeia do JPMorgan, que já não comportava tanta gente.
“Há mais circulação porque os banqueiros estão de volta às mesas de trabalho”, disse Harm Meijer, sócio-fundador da gestora de private equity Icamap Advisory e ex-analista imobiliário do JPMorgan. “E também porque Canary Wharf virou um destino de varejo e lazer muito mais robusto do que era antes da pandemia.”
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Uma média de cerca de 91 mil viagens diárias por metrô e pelas linhas de trem Elizabeth Line e Docklands Light Railway tiveram como destino as estações de Canary Wharf em outubro, segundo uma análise da Bloomberg News com base em dados da Transport for London — número superior ao de outubro de 2019.
A retomada supera o ritmo de outras regiões de escritórios em Londres, como a City e o West End, onde empresas de tecnologia e mídia, entre outras, vêm adotando uma postura mais cautelosa ao exigir o retorno ao trabalho presencial.
A média diária de visitas por metrô e linhas ferroviárias da Transport for London ao West End e à City atingiu, respectivamente, 84% e 89% dos níveis pré-pandemia em outubro, ante 105% em Canary Wharf, segundo a análise.
Ivan Ovcharov, de 53 anos, que faz limpeza de sapatos e bolsas na passagem movimentada entre a Jubilee Line e o shopping Cabot Square Mall, disse ter notado um fluxo maior de profissionais neste ano.
“São as empresas americanas, elas trouxeram seu pessoal de volta”, afirmou antes de devolver um par de sapatos Oxford recém-polidos a uma cliente. Ele acrescentou que cresce também o número de visitas por lazer.
A Canary Wharf Group, proprietária da maior parte do distrito — e que pertence à Brookfield e ao Catar — intensificou esforços para atrair visitantes de lazer por meio de lojas temporárias, eventos, instalações esportivas, atividades de competição social e uma parceria com o Eden Project. No total, o distrito hoje conta com mais de 320 lojas e 80 cafés, bares e restaurantes.
“Recebemos 72 milhões de visitantes em 2024”, disse o CEO da Canary Wharf Group, Shobi Khan. “E estamos aproximadamente 6% acima desse patamar neste ano, um sinal claro do avanço da nossa transformação.”
A tão adiada abertura da Elizabeth Line em 2022 — que reduz de forma significativa o tempo de deslocamento de Londres de oeste a leste — foi um pilar na estratégia de transformar a área, antes dominada por trabalhadores de escritório, em um destino vibrante a qualquer hora, sete dias por semana.
Crises gêmeas
A inauguração da linha, porém, coincidiu com o colapso dos mercados imobiliários provocados pelo fim abrupto da era dos juros ultrabaixos.
O aumento dos custos de financiamento e os efeitos persistentes do trabalho remoto levantaram dúvidas sérias para os proprietários do distrito.
Grandes locatários, como HSBC e Clifford Chance, anunciaram planos de deixar a região em direção à City de Londres, que tem uma localização mais central.
O movimento ecoou uma tendência na capital britânica, em que empresas optam por áreas com melhor conexão de transporte, facilitando a vida dos trabalhadores — mesmo que isso implique abandonar distritos mais distantes.
A combinação de juros mais altos e incertezas sobre a demanda — diante da saída de inquilinos — levou a uma queda acentuada no valor do portfólio da Canary Wharf Group, que sofreu um ajuste negativo de 14,7% apenas em 2023.
No mesmo ano, a Moody’s rebaixou a dívida da empresa mais profundamente na categoria de grau especulativo.
Isso desencadeou uma onda de refinanciamentos por parte da proprietária, incluindo uma nova linha de £ 610 milhões da Apollo Global Management.
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O empréstimo foi garantido pelos shoppings subterrâneos do distrito — entre as primeiras áreas a se recuperar da pandemia, impulsionadas pelo rápido retorno dos trabalhadores.
Brookfield e Catar também injetaram capital adicional na empresa, adotando uma estratégia de longo prazo para reposicionar a região como um bairro mais diverso e sustentando que os ventos contrários de curto prazo perderiam força com o tempo.
Caminho para a recuperação
Depois de três anos de juros elevados — somados a dois anos de atrasos e interrupções em projetos corporativos durante a pandemia —, há agora uma escassez severa de espaços corporativos novos e de alta qualidade na região central de Londres.
Com isso, somado aos esforços de anos da Canary Wharf Group para revitalizar a área, o cenário começa a mudar.
“Se você precisasse de um prédio corporativo de um milhão de pés quadrados (cerca de 92.900 m²) em um local altamente acessível e com boa infraestrutura, provavelmente seria mais fácil conseguir que Canary Wharf o entregasse do que qualquer outra região”, disse Mat Oakley, chefe de pesquisa comercial da Savills.
A melhoria nas conexões de transporte e na oferta de serviços também aumentou o apelo, afirmou. “Estamos chegando ao ponto em que o único motivo para riscar Canary Wharf da lista é a memória institucional de como o lugar já foi ruim.”
Este ano “caminha para ser o melhor em locações na última década” em Canary Wharf, disse o presidente da Brookfield, Nicholas Goodman, em teleconferência com analistas no início do mês. “O pipeline de locações também é o mais forte em anos, o que mostra a profundidade da demanda por espaços de alta qualidade.”
E isso começa a se refletir nas avaliações dos imóveis.
“Estamos vendo o início de uma reversão”, afirmou Giulia Calcabrini, analista da Moody’s, a agência que rebaixou a dívida da Canary Wharf Group no auge da crise.
A agência elevou neste mês a perspectiva da Canary Wharf Group de negativa para estável, citando o desempenho operacional mais robusto e um programa planejado de venda de propriedades, cujos recursos serão usados para amortizar dívidas mais caras.
Qualquer venda seria a primeira em vários anos no distrito; o último grande prédio corporativo negociado foi em 2021, quando a Brookfield comprou o 20 Churchill Place.
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Desde então, várias tentativas de venda de escritórios foram feitas, embora nenhuma transação relevante tenha sido fechada. Mas, com a perspectiva de melhora nos aluguéis, isso pode mudar em breve.
Negociações recentes envolvendo espaços adicionais de segunda mão por parte de empresas como HSBC, Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) e JPMorgan ajudaram a melhorar o panorama. A taxa de vacância agora se aproxima da média de longo prazo, segundo a Knight Frank, sugerindo que o pior período da pandemia ficou para trás na região.
A taxa de vacância de escritórios em Canary Wharf caiu para 11,4% no terceiro trimestre, ante 13,6% um ano antes, segundo dados da consultoria, embora tenha ficado praticamente estável de junho a setembro.
“Esperamos um aumento dos aluguéis, em termos comparáveis, nos próximos dois anos”, disse Calcabrini. “Há demanda por espaços corporativos de alta qualidade em Londres e a oferta é limitada — o que deve sustentar o crescimento dos valores.”
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