Gestoras de fortunas se multiplicam no Brasil e fusões crescem no segmento

Novas casas como as comandadas por ex-executivos do Credit Suisse, entre outras, chegam em um ambiente em que a geração de riqueza não avança no mesmo ritmo

Região da Faria Lima, em São Paulo, setembro de 2022. Foto: Victor Moriyama/Bloomberg
Por Cristiane Lucchesi e Daniel Cancel
01 de Novembro, 2023 | 02:15 PM

Bloomberg — A onda de criação de fundos multimercado acabou no Brasil após o aumento dos juros e agora os executivos de bancos têm deixado seus empregos para um novo tipo de desafio: fundar gestoras de fortunas - conhecidas também como wealth management - ou juntar-se a elas.

Escritórios de agentes autônomos de investimento também têm se expandido e promovido fusões para ganhar escala e criar empresas que servem famílias ricas. Três dúzias de novas gestoras de patrimônio independentes foram abertas no primeiro semestre do ano, de acordo com a Anbima (associação do mercado de capitais), incluindo várias fundadas por ex-executivos do Credit Suisse.

“Um grande número de profissionais deixou suas organizações para montar escritórios de agentes autônomos e acabou criando estruturas de multifamily offices”, disse Fernando Vallada, diretor da Anbima. “É uma evolução natural do mercado.”

O Brasil tem R$ 460,4 bilhões em fortunas administradas por 141 empresas independentes, segundo a Anbima. Elas competem com bancos que administram R$ 1,99 trilhão por meio de seus negócio de private banking local.

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Apesar de o país ter mais gestoras independentes do que nunca, a geração de riqueza não tem crescido tão rapidamente. Nenhuma empresa brasileira abriu capital em 2022 ou 2023, já que os acionistas controladores evitam vender ações a preços deprimidos.

Algumas famílias ricas tiveram até mesmo que injetar dinheiro nas suas empresas para lidar com o crescente peso da dívida, reduzindo a liquidez disponível para a gestão dos multifamily offices.

Isso tem impacto nas comissões cobradas por essas gestoras. Embora os fundos multimercado cobrem taxas de administração de 2% mais taxa de performance de 20% sobre o que exceder o benchmark, as gestoras de patrimônio geralmente recebem de 0,30% a 0,70%.

A menor rentabilidade é uma das razões pelas quais bancos globais, incluindo JPMorgan, BNP Paribas e Crédit Agricole, venderam negócios de private banking local no Brasil.

“Não tivemos muitos eventos de liquidez recentemente”, disse Vallada. “Eles são importantes para que gestoras de patrimônio e agentes autônomos de investimento ganhem volume.”

A turbulência no Credit Suisse nos últimos anos contribuiu para a saída de executivos experientes, com clientes de longa data.

A Sten Gestão Patrimonial foi fundada em agosto por Sávio Barros e Bruno Rodrigues, ex-executivos do banco suíço. A Wealth High Governance (WHG), com sede em São Paulo, foi fundada pelo ex-chefe de private banking do Credit Suisse no Brasil Marco Aurélio Abrahão. Ele deixou o banco com vários colegas em 2020 e agora eles têm cerca de R$ 40 bilhões sob gestão.

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Ex-executivos do Itaú Unibanco se juntaram à We Capital.

Antonio Costa, ex-chefe no Brasil da Azimut, ingressou na B.Side Investimentos no ano passado. A empresa com sede em São Paulo foi fundada em 2019 por Rafael Christiansen, que anteriormente foi superintendente geral do private banking do Banco Safra. Ambos são veteranos do Credit Suisse.

A B.Side, que foi criada como uma empresa de agente autônomo de investimento e hoje tem R$ 6 bilhões sob gestão, está em negociações para fazer uma aquisição para expandir para serviços offshore depois de comprar a área de gestão da Mogno em maio.

Espera-se mais fusões e aquisições no setor, uma vez que a concorrência mais forte e a falta de IPOs comprimem as taxas de gestão.

“Mais cedo ou mais tarde veremos uma consolidação ainda maior”, disse Costa em entrevista. “As maiores empresas continuarão se aproximando das menores para propor algum tipo de acordo comercial para cortar custos e ganhar escala.”

Mesmo as empresas de gestão de fortunas mais antigas, como a Taler Gestão de Patrimônio, fundada em 2005, estão se juntando com outras mais novas. A Galapagos Capital, empresa de investimentos fundada por ex-sócios do BTG Pactual, adquiriu a Taler em setembro. Eles têm agora R$ 20 bilhões sob gestão, incluindo o seu braço de gestão de fundos de investimento.

“Estamos muito focados em nos cercar de pessoas altamente experientes”, disse Arnaldo Curvello, sócio de Galapagos responsável pelo negócio de gestão de patrimônio.

Um fator que distingue as gestoras de patrimônio independentes é a capacidade de oferecer consultoria de investimento sem tentar forçar produtos próprios aos clientes, disse Ian Dubugras, presidente do multifamily office Carpa, que tem R$ 6,3 bilhões sob gestão.

Como essas empresas recebem uma taxa fixa de administração, o pagamento dos assessores de investimento não está vinculado aos produtos que vendem aos clientes, disse Dubugras.

O agronegócio é uma indústria que ainda cria novos milionários, mas para o setor deslanchar é necessária uma recuperação nos mercados de capitais, especialmente entre as startups de tecnologia, disseram os gestores.

Muitas gestoras de patrimônio começam a trabalhar com clientes com patrimônio a partir de R$ 3 milhões a R$ 10 milhões, enquanto outras exigem de R$ 20 milhões a R$ 100 milhões.

Serviços como planejamento tributário e sucessório são cruciais para atrair clientes com muito patrimônio, disse Sigrid Guimarães, cofundadora da Alocc, que atende cerca de 400 famílias e tem um total de R$ 10,5 bilhões sob gestão.

“Apesar de tudo, o Brasil é resiliente”, disse ela. “E temos empresas que sobrevivem às crises e continuam a gerar lucros.”

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