América do Sul acaba de ter um inverno quente. Agora vem o verão

Temperaturas na região teriam sido 1,4°C a 4,3°C mais frias se mundo não estivesse enfrentando aquecimento global, aponta pesquisa

cidade de São Paulo
Por Laura Millan
23 de Outubro, 2023 | 04:54 PM

Bloomberg — Um homem acendeu uma pequena fogueira para aquecer sua chaleira. Era um dia quente e ventava muito na periferia rural da segunda maior cidade argentina, Córdoba. De repente, uma forte rajada agitou as chamas e logo havia fogo por toda parte.

O maior incêndio florestal na região este ano durou dias, mantido vivo pelas altas temperaturas da primavera, de cerca de 37ºC, e ventos fortes.

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O incidente é um dos muitos exemplos dos impactos do aquecimento global, durante um ano que deverá ser o mais quente já registado para o planeta. Nos últimos meses — durante o inverno e o início da primavera no hemisfério sul — um calor incomum atingiu a América do Sul. As alterações climáticas, a chegada do primeiro El Niño em quase quatro anos e o desmatamento impulsionado pela agricultura intensiva devem contribuir para um verão ainda mais quente e seco, segundo cientistas.

“Estamos assistindo a eventos de calor recorde no hemisfério sul, e tem sido um inverno mais quente em partes de África e da América do Sul em comparação com os anteriores”, disse Izidine Pinto, investigador do Instituto Meteorológico Real dos Países Baixos. “Nos próximos meses, o aumento das ondas de calor vai se intensificar na América do Sul. Há mais dias quentes e mais ondas de calor chegando.”

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O Peru teve seu inverno mais quente desde que os registros começaram em 1965, com a temperatura em Lima atingindo 27,6°C em 5 de julho e médias de 19,4°C e 19,3°C em julho e agosto, segundo a agência meteorológica do país.

No início de agosto, uma onda de calor trouxe temperaturas de cerca de 38°C em partes do centro e norte da Argentina e do Chile, o que é 10 a 20 graus superior à média para o auge do inverno nesta parte do mundo. O calor derreteu a neve, alterou o fluxo dos rios e a disponibilidade de água nas principais regiões agrícolas do Chile.

Uma segunda onda de calor no final de agosto e início de setembro atingiu uma área grande que inclui partes do Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina. A mudança climática tornou este tipo de evento 100 vezes mais provável, segundo um estudo conduzido pela World Weather Attribution, uma rede de cientistas que aplica um método revisado por pares para determinar a influência do aquecimento global em eventos extremos.

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Os cientistas analisaram dados de temperatura da onda de calor sul-americana através de um modelo e simularam o mesmo episódio em um mundo sem alterações climáticas. Eles concluíram que as temperaturas teriam sido 1,4°C a 4,3°C mais frias em um mundo sem o aquecimento causado pelas emissões humanas de gases de efeito estufa.

No Brasil, onde a energia hidrelétrica representa cerca de 80% da geração doméstica, o governo acionou usinas a diesel para evitar apagões em meio à seca na Amazônia que também complicou a logística fluvial e causou a morte de botos, enquanto incêndios florestais se somam ao impacto das queimadas.

“As terras desmatadas absorvem mais radiação solar porque estão nuas, com o calor se acumulando e refletindo de volta para a atmosfera”, disse Pinto. “A água se acumula mais rapidamente em locais sem árvores ou florestas, causando mais escoamento, mais erosão e inundações.”

Uma nova onda de calor trouxe temperaturas de 45ºC ao norte da Argentina em outubro, de acordo com a agência meteorológica do país. Em Córdoba, uma nova onda de incêndios florestais queimou pelo menos 5.800 hectares. Recentemente, partes da Bolívia, Paraguai e Brasil continuaram a registar temperaturas extremamente elevadas.

“O calor não é algo novo, já tivemos esses eventos no passado”, disse Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São Paulo, e coautor do estudo da WWA. “No entanto, nas últimas décadas, temos visto um aumento no número de eventos e na magnitude desses eventos.”

A influência do El Niño, que ainda está nos primeiros meses, cresce e a região se prepara para os seus piores impactos no início de 2024. Mas os efeitos dos elevados níveis de calor e da falta de chuva deverão durar muito mais tempo.

“Alguns rios já estão em níveis muito baixos, mínimos históricos; provavelmente levará algum tempo para voltar aos valores normais”, disse Ana Paula Cunha, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, em São José dos Campos. “Quanto mais tempo durar a seca, mais intensos serão os efeitos em cascata.”

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No Brasil, país que detém quase 60% da floresta amazônica, o desmatamento atingiu um nível recorde em 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que buscou flexibilizar a atividade econômica em áreas protegidas e abrir reservas indígenas à mineração e à agricultura. Agora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal na maior floresta tropical do mundo até 2030, e incentiva líderes de outros países amazônicos a aderirem.

A Argentina pode ser o próximo campo de batalha climática na região. O outsider libertário Javier Milei, que obteve o apoio de cerca de um terço dos eleitores no primeiro turno das eleições presidenciais de domingo, contestou no passado provas científicas de que as alterações climáticas são causadas pelas emissões de gases de efeito de estufa provenientes das atividades humanas, dizendo que o aquecimento global é “outra mentira socialista.”

Milei enfrentará o atual ministro da Economia do país, Sergio Massa, em um segundo turno em 19 de novembro.

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