Alliança acelera expansão com aquisição no Rio em mais um M&A do novo CEO

Pedro Trompson diz em entrevista à Bloomberg Línea que os objetivos são melhorar margem, reduzir alavancagem e crescer nas regiões Sudeste e Norte; ação sobe 8% no ano

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Bloomberg — O setor de medicina diagnóstica, ainda bastante fragmentado no Brasil, tem adotado a estratégia do crescimento inorgânico, por meio de operações de M&A (fusões e aquisições), como um atalho para ganhar escala, aumentar faturamento, reduzir custos e melhorar a rentabilidade. Nesse contexto, nos últimos anos, o mercado tem passado por um acelerado processo de consolidação do setor.

O mais novo movimento acaba de ser dado pelo Grupo Alliar (AALR3), agora chamado Alliança, que anunciou nesta noite de segunda-feira (12) sua segunda aquisição no Rio de Janeiro, desta vez do Cepem (Centro de Diagnóstico e Imagem), clínica especializada em serviços de diagnóstico por imagem, como detecção do câncer de mama, e análises clínicas destinados ao público feminino.

A Alliança já havia anunciado em fevereiro a compra da ProEcho, empresa especializada no diagnóstico por imagem que atende os principais convênios em diversas especialidades médicas.

A aquisição do Cepem foi realizada por meio da Hemera, subsidiária do Fundo Fonte de Saúde, de Tanure. Em comunicado, a Alliança informou que, após a conclusão do negócio, a Cepem e a ProEcho passarão a ser controladas diretas da Hemera e indiretas do FIP Fonte Saúde.

“A Hemera solicitou que a Alliança avaliasse a possibilidade da celebração de um contrato de prestação de serviços com a Hemera tendo como objeto a gestão dos ativos Cepem e ProEcho”, disse a Alliança, que ainda está avaliando a viabilidade e a conveniência da celebração do contrato.

O anúncio da nova aquisição faz parte da estratégia que tem sido executada pelo CEO da Alliança, Pedro Thompson. O executivo, que já foi CEO da Estácio (hoje Yduqs), da Exame e do Hurb, assumiu o cargo em julho do ano passado para conduzir um processo de turnaround na rede de laboratórios sob o então novo comando de Tanure, que assumiu a posição de controlador em abril de 2022.

O investidor também é controlador de companhias como a operadora de telefonia paranaense Ligga e é acionista de referência na incorporadora Gafisa (GFSA3) e na empresa de energia Light (LIGT3).

Desde que assumiu, Thompson tem adotado medidas de redução de custos no grupo que é dono da rede paulistana de laboratórios CDB: realizou demissões, otimizou processos e fechou aquisições consideradas estratégicas. Além disso, houve um rebranding em março: a Alliar virou Alliança Saúde, em novo posicionamento para tentar fortalecer elos com fornecedores, parceiros e clientes. Os balanços mais recentes retratararam uma melhora operacional em certos indicadores.

Neste ano até esta segunda-feira (12), as ações da Alliança Saúde, cotadas a R$ 23,33, acumulavam uma valorização de 8% antes um desempenho positivo do Ibovespa de 6,92% no período. Os pares da companhia são nomes como Grupo Fleury (FLRY3), com alta de 5,63% no ano, e Dasa (DASA3), que acumula queda de 25,90% em 2023.

Em entrevista à Bloomberg Línea, Thompson destacou que a margem Ebitda da companhia era de 14% no terceiro trimestre do ano passado, quando assumiu. Chegou a 22% no primeiro trimestre de 2023.

A compra da ProEcho significou a adição de uma rede de laboratórios com 13 unidades no Rio de Janeiro, em Niterói e São Gonçalo. Em 1º de junho, a Alliança Saúde integrou um consórcio com a Proinvest e arrematou a concessão para equipagem e prestação de serviços de gestão hospitalar do Heuro Hospital de Urgência e Emergência Regional de Cacoal, em Rondônia, em um contrato de 30 anos.

O processo de expansão tem sido acelerado na gestão de Thompson. Em fevereiro, a Alliança já havia firmado um contrato de prestação de serviços de medicina diagnóstica com prazo de 10 anos com a Unimed FAMA (Federação das Unimeds da Amazônia), operadora de saúde da região norte, com mais de 100 mil beneficiários, abrangendo Amazonas, Amapá, Pará, Acre, Rondônia e Roraima. Com o negócio, a Alliança pretende expandir os exames de análises clínicas e aumento de escala na região.

A região Norte, que tem escassez maior de infraestrutura de saúde, se tornou uma das apostas da Alliança para ampliar sua abrangência geográfica, com o diferencial de apresentar um ambiente competitivo menos acirrado na comparação com o Sudeste e, principalmente, a cidade de São Paulo.

Antes de Tanure assumir o controle do grupo, a Alliar era mais reconhecida pelos serviços de diagnóstico por imagens. Com a nova gestão, sob Thompson, o segmento de análises clínicas entrou no foco, resultando em maior diversificação de suas fontes de receita e do seu portfólio de produtos e serviços.

Controle de custos

Além de acelerar a estratégia de M&A e capturar sinergias com a integração dos ativos recém-adquiridos e dos novos contratos, a Alliança também tem buscado em outra frente reduzir seu nível de alavancagem, que fechou o primeiro trimestre em 4,5 vezes (relação dívida líquida/Ebitda).

“Este será o ano de o setor olhar para dentro de casa, para os espólios de M&As e desalavancagem. Não será um ano de crescimento para o setor, embora a Alliança tenha crescido duplo dígito, 11%, no primeiro trimestre”, disse Thompson.

É uma referência ao fato de que o crescimento de seus pares de medicina diagnóstica foi impulsionado por aquisições realizadas nos últimos anos, como a integração de Hermes Pardini por Fleury.

O setor se mobiliza atualmente, segundo ele, para o controle de custos, diante de fatores como a escalada do preço de material laboratorial, como o contraste iodado, medicação usada em exames mais complexos de imagem, como tomografias.

Mais equipamentos

O CEO disse que, no começo do ano, a Alliança fez uma compra expressiva, por meio de leasing operacional, para aumentar seu parque de equipamentos. Ele também citou esforços para reduzir custos fixos, como a renegociação de valores de contratos de locação imobiliária, descentralização de call centers para melhorar o atendimento e adoção do WhatsApp como ferramenta para a empresa apresentar seu portfólio de serviços de saúde e funcionar como canal de relacionamento com os clientes.

A empresa instalou mais de 50 novos equipamentos de ultrassonografia em suas unidades, levando a um aumento de 14% nas receitas provenientes desse tipo de exame.

“Mesmo com a grande competição no mercado de São Paulo, o CDB conseguiu crescer 12% no mês de maio. Vemos também a região do ABC crescendo em um ritmo acelerado, como São Bernardo do Campo”, afirmou o CEO.

O grupo Alliança Saúde tem mais de 100 unidades de atendimento espalhadas por boa parte do Brasil, operando serviços de diagnóstico por imagem, medicina nuclear e de análises clínicas, além da aplicação de vacinas, com marcas como Axial, CDB, Clínica São Judas Tadeu, Delfin, Multiscan e Multilab.

Em São Paulo, o foco é otimizar filas de marcação de exames. Nas unidades do CDB, a companhia começou a perseguir um plano “fila zero”, ampliando a disponibilidade de horários e dias livres.

“O perfil do paciente de São Paulo é de maior exigência, mais crítico. Não tolera esperar quatro, cincos dias para fazer um exame. Estamos conseguindo reduzir o tempo médio de atendimento com ferramentas como o web check, cada vez mais adotado pelos clientes”, disse Thompson.

Receita recorde

A companhia teve R$ 312 milhões em receita bruta no primeiro trimestre, um resultado 11% superior na comparação anual e o maior de sua história. O lucro bruto saltou para R$ 99 milhões, com alta de 32% em 12 meses, refletindo a combinação de aumento de receitas com ganho operacional e de custos.

Houve ainda aumento do tíquete médio em quase todos os tipos de exames, reflexo do reposicionamento comercial da empresa, e o crescimento do volume de exames de imagem.

Em janeiro, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) recebeu uma minuta de edital da Alliança para a realização de uma OPA (Oferta Pública de Aquisição), mas a autarquia federal negou o registro em fevereiro, com pedido de documentação. A operação ainda aparece “em análise” no site da CVM.

Questionado sobre o assunto, Thompson não respondeu se o objetivo final da operação de compra das ações detidas por minoritários seria o fechamento de capital, limitando-se a dizer que se trata de um assunto e de uma decisão do acionista controlador da companhia.

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