Aliança com Volks reforça negócios na região mais rica do país, diz CEO da Vamos

Em entrevista à Bloomberg Línea, Gustavo Couto explica planos decorrentes da aquisição da Tietê Veículos, de caminhões e ônibus da VW, e resultados do 1º trimestre

Gustavo Couto, CEO da Vamos: empresa reportou crescimento e aumento da rentabilidade no primeiro trimestre
27 de Abril, 2023 | 10:30 AM

Bloomberg — De olho no avanço do mercado de veículos elétricos na América Latina, a montadora Volkswagen/MAN está reforçando seus laços comerciais com o Grupo Simpar (SIMH3), única holding do setor de logística e transporte com ações listadas na bolsa brasileira, a B3 (B3SA3).

A holding brasileira, que transporta a produção dos maiores players da indústria nacional e do agronegócio, deve assumir neste trimestre uma rede de concessionárias de caminhões e ônibus da marca VW situadas em três cidades estratégicas de São Paulo (capital, Guarulhos e Campinas).

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A aquisição da Tietê Veículos por R$ 331 milhões, comunicada ao mercado no último dia 6, ainda aguarda duas aprovações — pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão antitruste) e pelo grupo alemão, disse o CEO da Vamos (VAMO3), subsidiária da Simpar, Gustavo Couto, em entrevista à Bloomberg Línea.

“Acreditamos que não haverá nenhum problema nessas duas aprovações, dado que faz sentido tanto para nós como para o mercado e para a Volkswagen. Não há nenhum ato de concentração. Esperamos a aprovação nos próximos dias. Com isso, nós consolidamos uma liderança absoluta como rede concessionária de caminhões e ônibus da Volkswagen/MAN”, afirmou o executivo.

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Analistas dizem que o negócio deve aumentar o poder de barganha da Vamos na hora de negociar preços de veículos com a montadora alemã. Hoje, a companhia de locação de caminhões, máquinas e equipamentos, líder no segmento, é apontada como top pick do setor de transporte na bolsa, como é o caso do Bradesco BBI em relatório no último dia 10, indicando um preço-alvo de R$ 25.

As ações encerraram a quarta-feira (26) negociadas a R$ 12,87, o que significa um upside (potencial de alta) de quase 100%. Desde o IPO em janeiro de 2021, as ações subiram 66%, em um raro caso de empresa que abriu o capital entre 2020 e 2021 que acumula valorização desde a estreia.

Localização estratégica

O CEO preferiu destacar a aliança histórica com a Volks e a importância estratégica da região em que a Tietê Veículos atua, a Grande São Paulo, por onde passa boa parte do PIB (Produto Interno Bruto) do país, em direção ao Porto de Santos, o maior do país, vindo dos polos industriais instalados nos arredores da capital e no interior paulista.

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“Já temos uma aliança histórica de décadas com a Volks por meio da Transrio [subsidiária da Vamos, rede de concessionárias]. Há dois anos, compramos a BMB, especializada na customização de caminhões e ônibus para a VW Caminhões e Ônibus, que tem operação no México”, disse Couto.

O executivo considerou o negócio como um “reforço de uma aliança comercial e operacional histórica” e uma “oportunidade de desenvolver negócios na região mais importante do país”. A Tietê Veículos foi fundada em 1992 pelo Grupo Comolatti, player relevante do segmento de peças de reposição (aftermarket), que reportou receita bruta de R$ 542 milhões em 2022.

Maior escala e sinergias

O negócio aumenta a presença da Vamos em São Paulo, um mercado premium de caminhões no país, devido a extensos corredores logísticos como as rodovias Dutra e Anhanguera: isso permite maior escala para oportunidades de cross-selling (venda casada) e customização, além de expandir as vendas de ativos da rede por meio da Vamos Seminovos, de implementos rodoviários pela Truckvan, e de oferecer serviços de outras empresas do Grupo Simpar, como a BBC Leasing, citou o BTG Pactual em relatório.

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A estratégia da VWCO (Volkswagen Caminhões e Ônibus) é abocanhar uma fatia do mercado de caminhões com motorização Euro 6 (com regras mais rígidas quanto à emissão de poluentes), disputado por marcas como Mercedes-Benz, Volvo e Scania. Neste ano, a Volks pretende lançar mais de 30 modelos de caminhões no mercado.

“No Brasil, há ainda uma demanda um pouco mais fraca para produtos Euro 6. No Euro 5, a demanda segue forte. É o que comprovam os dados de emplacamentos. Há um estoque residual do Euro 5. Quem pegar esse estoque vai fazer um bom negócio”, disse o CEO da Vamos.

A renovação da frota brasileira de caminhões enfrenta, no entanto, obstáculos macroeconômicos nesse processo. O executivo afirmou que o mercado sofre com as restrições ao crédito, em um ambiente de juros elevados (taxa Selic de 13,75% ao ano).

“A taxa de juros inibe investimento e todo mundo está preocupado. Isso não impediu a Vamos de aumentar sua receita consolidada no 1º trimestre em 78% e o número de contratos assinados em 11%, na comparação anual. A despeito das incertezas da economia, nosso modelo de negócio, de locação de veículos pesados, ajuda nossos clientes em ter economia e ganhos de produtividade”, disse.

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No resultado do primeiro trimestre divulgado na noite de quarta-feira, a Vamos registrou receita líquida de R$ 1,682 bilhão. O lucro líquido consolidado alcançou R$ 169,1 milhões, alta de 38,8% em 12 meses. A geração de caixa, medida pelo Ebitda, atingiu R$ 65,2 milhões, crescimento de 83,3% na base anual. O capex implantado (investimento) cresceu 1,316 bilhão, aumento de 55,5% em 12 meses.

Rentabilidade e Valtra

A Vamos apresentou, no período, aceleração no crescimento operacional com ganhos de rentabilidade. O ROIC (retorno sobre o capital investido) e o ROE (retorno sobre o patrimônio) ficaram em 19,4% e 22%, respectivamente, acima do mesmo trimestre do ano passado (14,3% e 21,6%). A empresa terminou março com 45.055 ativos (35.529 caminhões e 9.526 máquinas e equipamentos).

“Melhoramos as margens no primeiro trimestre. Pelo 17º trimestre consecutivo, conseguimos expandir nossos principais indicadores tanto em volume de negócios como rentabilidade e contratos assinados. A inadimplência de nossa carteira é historicamente baixa, pois somos sempre diligentes antes de assinar novos contratos”, disse o CEO.

Nesta quarta, a Vamos anunciou também a compra da DHL Tratores, adicionando seis lojas a seu portfólio de concessionárias de máquinas e equipamentos agrícolas no estado do Paraná, um dos gigantes do agronegócio brasileiro. Em fato relevante, que não informou o valor do negócio, a companhia diz que se consolida como maior rede de concessionárias da Valtra na América do Sul.

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Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.