Fundos de venture capital alteram forma de operar após quebra do SVB

Empresas passam a buscar a diversificação de formas de captação com investidores e de uso de recursos, dado que o banco do Vale do Silício também fornecia capital a eles

Muitos fundos de venture capital dependiam também de recursos fornecidos pelo SVB
15 de Abril, 2023 | 08:25 AM

Bloomberg Línea — A quebra do Silicon Valley Bank (SVB) há um mês, até então o banco mais utilizado por startups apoiadas por fundos de venture capital do Vale do Silício, tem alterado a forma como as empresas de investimento se organizam para fazer aportes.

Empresas novatas de tecnologia passaram a preferir reunir os recursos de diversos investidores individuais para investir em uma única startup, de acordo com Alex Zaytsev, CEO e cofundador da Raison Asset Management, fundo pré-IPO da Europa.

Nesse modelo de operação, conhecido no jargão do mercado como syndication investment (investimentos sindicalizados), o agrupamento de recursos permite que investidores espalhem seus riscos por várias startups e potencialmente aumentem suas chances de sucesso.

De acordo com o investidor, o crescimento do uso desse modelo tem como razão o fato de que muitos fundos de venture capital tinham empréstimos com o SVB e davam como garantia os seus compromissos com seus próprios investidores, os chamados Limited Partners (LPs, que em geral são fundos de pensão, endowments, family offices etc., de onde vem o dinheiro gerido pelos fundos).

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Com a quebra do SVB, eles perderam em um primeiro momento a capacidade de usar essa alavancagem. Os ativos do SVB foram comprados por US$ 72 bilhões pelo banco regional First Citizens no final de março.

A Ulu Ventures, gestora de VC de Palo Alto, nunca participou em investimentos sindicalizados de investidores-anjo, já que tem uma estrutura de fundo de capital de risco tradicional, com LPs institucionais representando cerca de 80% dos ativos sob gestão, disse Miriam Rivera, fundadora e CEO do Ulu Ventures, em entrevista à Bloomberg Línea.

“Sabemos que algumas empresas de capital de risco com estruturas de fundos tradicionais usam investimentos sindicalizados”, disse.

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De forma geral, nesse modelo, um investidor lidera a rodada, negocia os termos com a startup e convida outros investidores a participar da rodada. O líder da rodada normalmente terá uma participação maior na empresa e pode desempenhar um papel mais ativo na gestão da empresa e na tomada de decisões estratégicas.

Segundo Rivera, ter uma linha de crédito para facilitar tais aportes seria útil se os investidores participantes não pagarem antecipadamente seus compromissos e uma transação precisasse acontecer rapidamente.

“A interrupção das linhas de crédito do SVB poderia ser resolvida com a exigência para que os investidores financiem uma porcentagem de seu compromisso. Por exemplo, cada investidor membro que se compromete a investir antecipadamente US$ 100 mil concorda em pagar US$ 25 mil a cada um dos quatro anos”, explicou a investidora.

Para Rivera, a abordagem de pagamento periódico também elimina a necessidade de pagar juros, o que se tornou uma despesa maior recentemente.

Ela explica que, nesse modelo, há a possibilidade de que um investimento aconteça quando o saldo de fundos disponíveis no momento inicial for muito baixo para conseguir concluir o acordo.

“Um investidor de meios independentes também poderia fazer os investimentos durante essa janela e garantir que os documentos legais permitam a transferência para uma entidade afiliada quando o dinheiro dos LPs estiver disponível”, afirmou.

Já para Zaytsev, o futuro do mercado de venture capital será uma indústria bem diversificada com participantes de diferentes tipos, exemplificando que há um grande potencial para investidores privados como indivíduos com elevado patrimônio líquido financiarem startups diretamente, com a ajuda de plataformas digitais e sem intermediários como fundos de VC.

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“Isso já está acontecendo, vemos que cada vez mais capital de investidores privados estão entrando no empreendimento e no pré-IPO nos últimos anos, e esperamos que essa tendência continue ocorrendo”, afirmou Zaytsev.

Fundada em 2014, o Raison Asset Management é uma empresa de investimentos de capital de risco internacional com sede em Tallinn, na Estônia. A gestora investe em startups dos Estados Unidos, Europa, Israel e outros países, além de gerir um hedge fund e estratégias de ações, renda fixa, derivativos e câmbio. A empresa com mais de US$ 50 milhões em ativos sob gestão

O Raison já fez investimentos em empresas como SpaceX, Robinhood, Coursera e Airbnb. A gestora também é uma das investidoras da Rappi e comprou uma parte da empresa por meio de uma oferta secundária no início do ano passado. Em seu portfólio, a Rappi é a única da América Latina, embora o Raison afirme que está atento a novas oportunidades na região.

A Ulu Ventures, fundada em 2008, investe em startups em estágio inicial nos Estados Unidos e tem US$ 200 milhões em ativos sob gestão, segundo o PitchBook.

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Investimento mais acessível

Outra alternativa para levantar capital, segundo o investidor da Raison, é utilizar plataformas de investimentos que permitem reunir centenas ou milhares de pequenos investidores para aportar recursos em uma startup, em uma espécie de crowdfunding para startups.

No Brasil, existem empresas que realizam esse serviço, como a EqSeed, SMU e Captable, e permitem fazer captações para startups em estágios mais iniciais.

Zaytsev disse acreditar que o mercado de venture capital ainda é muito tradicional e pouco digitalizado, mas que o crescimento desse tipo de iniciativa é uma “questão de tempo”.

“Acreditamos fortemente na democratização do investimento em VC; esse foi o motivo do lançamento do aplicativo Raison, que permite aos usuários investir em empresas privadas como a SpaceX.”

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-- Corrige estágio avançado para estágio inicial às 14h17 do dia 17/04

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Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups