A trajetória do CEO do SVB, de bajulado por fundos de VC e startups a renegado

Greg Becker era presença constante em festas privadas, eventos beneficentes e festas do Vale do Silício, mas não conseguiu evitar a onda de resgates dos contatos mais próximos

Greg Becker, CEO do Sillicon Valley Bank, em foto de 2016: parceiro próximo de grandes fundos de VC e de fundadores de startups por 30 anos (Luke MacGregor/Bloomberg)
Por Lizette Chapman e Jennifer Surane
23 de Março, 2023 | 10:24 AM
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Bloomberg — No início do dia 9 de março, quando as ações do SVB Financial Group começaram a despencar, o CEO Greg Becker pegou o telefone.

Becker começou a ligar para amigos, esperando que parte da boa vontade que ele havia passado décadas acumulando como chefe do banco escolhido pela comunidade de startups pudesse ser retribuída. Entre os investidores de capital de risco com quem ele falou estava Alex Rampell, general partner da Andreessen Horowitz, a A16Z, uma das maiores gestores de venture capital do Vale do Silício.

Becker queria que a Andreessen Horowitz ajudasse a sustentar o SVB, o banco comercial da empresa, enquanto os depositantes sacavam seu dinheiro, de acordo com uma pessoa com conhecimento da conversa.

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Durante as próximas 24 horas mais ou menos, a A16Z e muitas outras empresas de capital de risco e startups perceberam a posição precária do banco, com alguns fundadores sendo aconselhados a sacar seu dinheiro. Na tarde seguinte, o SVB já estava nas mãos da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), entidade semelhante ao Fundo Garantidor de Crédito no Brasil.

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O colapso do SVB acabou com a carreira de 30 anos de Beck no banco. Pouco mais de uma semana depois de ele ter incitado os clientes em uma conferência telefônica a “ficarem calmos” enquanto o dinheiro saía das contas, a matriz do banco entrou com pedido de recuperação judicial.

Os órgãos reguladores estão investigando as vendas de ações que Becker e outros executivos fizeram poucas semanas antes do colapso, e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu ao Congresso que decretasse punições mais severas para executivos líderes do banco se a má administração tivesse contribuído para o colapso das instituições.

Por meio de seus advogados, Becker não respondeu a pedidos por comentários sobre esta história da Bloomberg News, que tem como base conversas com numerosos investidores de venture capital e fundadores. Um representante do SVB também não respondeu, e a A16Z não quis comentar.

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No Vale do Silício, a saga frenética deixou empresários e investidores de venture capital questionando suas relações com o homem com quem haviam feito negócios durante anos.

Um investidor de risco que negociou com Becker, colocou dinheiro no SVB e incentivou muitas de suas startups a fazer o mesmo, disse que pensava conhecê-lo bem depois de mais de uma década de interações. Agora, diz ele, o momento das vendas de ações de Becker, feitas em 27 de fevereiro sob um plano preestabelecido e regulamentado que lhe permitiu o ato, estão lhe fazendo pensar melhor.

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Jornada do CEO

Becker, de 55 anos, cresceu em uma fazenda de 121 hectares no nordeste do estado americano de Indiana. Após se formar bacharel pela Kelley School of Business da Universidade de Indiana, ele ingressou na Comerica em Detroit.

Foi no meio de um inverno brutal no estado do Michigan que o gerente de Becker lhe pediu que fizesse um trabalho nos escritórios da empresa em Pleasanton, Califórnia, para financiar empresas emergentes de tecnologia. Ele nunca mais voltou.

Becker acabou ingressando no Silicon Valley Bank em 1993, quando o banco ainda estava se recuperava da crise imobiliária comercial da Califórnia. Em seis anos, ele foi promovido para supervisionar a crescente prática de capital de risco da empresa e ajudou a criar seu primeiro fundo de ações direto.

Em 2008, depois de ser chefe de serviços bancários comerciais comercial e diretor de operações, Becker foi nomeado presidente do banco. Três anos mais tarde, ele assumiu o cargo de CEO.

A essa altura, o Silicon Valley Bank havia crescido e se tornado um gigante no setor de tecnologia, com mais de duas dúzias de escritórios em todo o mundo.

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Ryan Breslow, que mais tarde fundou as empresas de pagamentos Bolt Financial e Eco Payments, lembra-se de ter encontrado Becker em 2014. Breslow tinha acabado de sair da Universidade de Stanford para construir uma startup de carteira de bitcoin (BTC).

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Embora os criptoativos estivessem começando a ganhar tração entre engenheiros, os investidores de risco eram em grande parte céticos, e as instituições financeiras tradicionais, em muitos casos, hostis. A tecnologia emergente não só era arriscada do ponto de vista regulatório, mas, se bem-sucedida, diminuiria o papel dos bancos.

Assim, quando Breslow garantiu uma reunião com o SVB, ele ficou animado. Quando ele entrou na sala e viu o próprio Becker sentado ali com alguns executivos, ele ficou “definitivamente surpreso”.

“Ele fez perguntas difíceis, mas também estava aberto”, disse Breslow, que não é conhecido por distribuir elogios à elite do Vale do Silício. “Ele parecia progressista, mas também um sério CEO de banco.”

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Nos anos seguintes, o dinheiro inundou o SVB enquanto as startups tinham cada vez mais dificuldade em levantar fundos e recorriam ao banco para tudo, desde depósitos multimilionários até dívidas de risco e hipotecas pessoais. As ações de sua controladora subiram de cerca de US$ 50 por ação em 2011 para mais de US$ 755 em seu auge em 2021.

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Becker set tornou um rosto familiar no circuito de jantares privados, fundações beneficentes e festas do Vale do Silício: os atalhos para o fechamento de negócios no setor.

O SVB patrocinou regularmente eventos que reuniam clientes – e potenciais clientes – com fundos de capital de risco, advogados, contadores e auditores, incluindo shows ao ar livre na Mountain Winery e jogos de futebol americano no Levi’s Stadium, do San Francisco 49ers, visível da sede do SVB. Becker aparecia de forma confiável, estabelecendo uma reputação como um player importante no ecossistema de startups que era amigável e envolvente.

Nos ambientes em que a rede de Becker foi ampla, as conexões construídas por seus discípulos – os banqueiros do SVB que lidavam com as relações com os clientes – foram profundas.

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Dezenas de investidores de risco e fundadores de startups descreveram os negociadores do SVB em termos brilhantes, por vezes chamando-os de amigos. As mesmas pessoas disseram que gostavam de Becker, mas sabiam muito pouco sobre ele.

Mamoon Hamid, sócio da empresa de capital de risco Kleiner Perkins, disse que sempre achou Becker “calmo e comedido”.

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Aposta no relacionamento

Entre os grupos do Vale do Silício, a máquina que Becker tinha ajudado a construir era quase universalmente apreciada. Seus banqueiros entenderam como funcionavam as startups e não eram necessárias explicações demoradas sobre o porquê de uma empresa nascente ainda não ter receita, diferentemente do que faziam alguns dos maiores bancos.

As startups às vezes violavam as condições de suas linhas de crédito, de acordo com vários investidores de risco, mas o SVB entendeu que ter uma estratégia de longo prazo significaria resistir aos altos e baixos de uma startup e poder tomar proveito de um pagamento muito maior do que confiscar ativos ou forçar uma empresa a fechar.

Longe do escritório, Becker passou um tempo pedalando com um grupo chamado Over the Hill Bike Club, que partiu de Woodside, Califórnia, em direção à costa montanhosa da península, às vezes pedalando mais de 160 quilômetros por dia.

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Junto com sua segunda esposa, Marilyn Bautista, professora da Stanford Law School, ele foi um doador significativo para a Sacred Heart Schools – uma escola particular preparatória em Atherton, Califórnia.

Becker também fez contribuições pessoais para o grupo de lobby TechNet, que pressiona por políticas que beneficiem o Vale do Silício e a indústria tecnológica em geral, e passou décadas doando para campanhas de candidatos políticos democratas. Meg Whitman, ex-CEO da eBay que concorreu para governadora da Califórnia em 2010 e perdeu, foi uma das poucas republicanas que ele apoiou.

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Em 7 de março deste ano, Becker falou em uma conferência do Morgan Stanley (MS) no Palace Hotel, em São Francisco. Foi uma breve pausa para o CEO, que havia passado dias se reunindo com banqueiros do Goldman Sachs (GS) para discutir o plano do SVB de vender uma grande carteira de títulos. Mas ninguém reparou: ele contava histórias de jantares com a Bain Capital e reuniões com empresas pré-IPO, e não recebeu uma única pergunta sobre a posição financeira de sua própria empresa.

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No dia seguinte, o anúncio da perda de US$ 1,8 bilhão para a carteira de títulos – juntamente com um aumento de capital de US$ 2,25 bilhões – desencadeou a queda das ações e a corrida bancária que engoliu o SVB e acabou levando as autoridades americanas a garantir os depósitos do banco.

A crise bancária mais ampla, que agora abrange vários bancos regionais dos EUA até o gigante suíço Credit Suisse (CS), desde então tem desviado parte da atenção do SVB e de Becker.

Mas, atrás de portas fechadas, os esforços para salvar o que resta de seu império continuam: na segunda-feira (20), o FDIC ampliou o leilão do Silicon Valley Bank, dando mais tempo aos potenciais licitantes para decidir se seu legado é algo que desejam continuar.

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