Os escândalos e a desconfiança que acabaram com o Credit Suisse após 166 anos

A venda arquitetada pelo governo suíço marca o fim da queda do banco, que no Brasil cresceu após a aquisição do Garantia, de Lemann, Telles e Sicupira, e da Hedging-Griffo

Durante 166 anos, o Credit Suisse ajudou a posicionar a Suíça como um centro de finanças internacionais e se comparou a titãs de Wall Street
Por Marion Halftermeyer - Myriam Balezou
20 de Março, 2023 | 09:25 AM

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Bloomberg — Antes um baluarte do sistema financeiro global, o Credit Suisse (CS) deixará de existir.

Após um fim de semana de tensas e frenéticas negociações, o UBS (UBS) concordou em comprar o seu rival por cerca de US$ 3,25 bilhões, menos do que o valor de mercado do atribulado banco norte-americano First Republic.

A venda intermediada pelo governo suíço marca o fim da queda do banco, que se tornou vítima de uma crise de confiança que ameaçou se espalhar para os mercados financeiros globais.

Durante 166 anos, o Credit Suisse ajudou a posicionar a Suíça como um centro de finanças internacionais e se comparou a titãs de Wall Street antes de uma sucessão de escândalos, problemas legais e de gestão que minaram a confiança dos investidores. Embora o declínio tenha durado anos, o fim não tardou a chegar.

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No Brasil, o Credit Suisse se consolidou como um dos principais bancos de investimento do mercado, com forte atuação em private banking, gestão de patrimônio e de ativos, especialmente depois da compra do Banco Garantia, de Jorge Paulo Lemann, Claudio Haddad, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, em 1998, por mais de US$ 1 bilhão. Na época, ainda era Credit Suisse First Boston.

Outro passo importante para os negócios no país foi a compra da tradicional gestora Hedging-Griffo, que tinha Luis Stuhlberger e outros nomes experientes, em 2006 por cerca de US$ 300 milhões.

Em 2014, um acordo entre Luis Stuhlberger e o Credit Suisse levou à cisão da área de parte da área de gestão de ativos para a criação da Verde Asset, da qual o banco se tornou acionista. Essa participação estava à venda, segundo fontes, com a crise mais aprofundada do banco.

Após o colapso do Silicon Valley Bank no fim de semana passado, o Credit Suisse rapidamente se tornou um foco de preocupação. Depois que o principal acionista, o Saudi National Bank, disse rotundamente na quarta-feira à Bloomberg Television que não investiria mais no banco, a crise se desdobrou.

Um respaldo financeiro de US$ 54 bilhões do banco central suíço - anúncio fechado no final da quinta-feira (16) para acalmar os nervos do mercado - não se converteu na tábua de salvação que o Credit Suisse esperava. Com o setor bancário do país em perigo, as autoridades suíças entraram em cena para pressionar o UBS a se tornar um cavaleiro branco, ainda que relutante.

O governo suíço “lamenta que o CS não tenha sido capaz de dominar suas próprias dificuldades, pois essa teria sido a melhor solução”, disse a ministra das Finanças Karin Keller-Sutter em uma coletiva de imprensa em Berna no domingo. “Infelizmente, não foi mais possível conter a perda de confiança do mercado e dos clientes.”

Designado como um dos 30 bancos com maior importância sistêmica do mundo, o Credit Suisse é a maior vítima da turbulência financeira desencadeada pelos bancos centrais em seu aperto monetário para conter a inflação mais alta em décadas. Embora a preocupação com um maior contágio certamente persista, a venda ao UBS evita um colapso desordenado.

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Aqui estão os principais detalhes da venda mediada pelo governo:

  • O UBS paga cerca de 3 bilhões de francos suíços (US$ 3,25 bilhões) em ações
  • O Banco Nacional Suíço fornece uma facilidade de liquidez de 100 bilhões de francos suíços (cerca de US$ 110 bilhões) para o UBS
  • O governo suíço fornece uma garantia de 9 bilhões de francos suíços para possíveis perdas em alguns ativos do Credit Suisse
  • O agente regulador Finma diz que cerca de 16 bilhões de francos suíços (US$ 17 bilhões) em títulos do Credit Suisse perderão valor
  • O UBS pretende reduzir a divisão de bancos de investimento do Credit Suisse.

Antes da crise financeira global - a qual o Credit Suisse sobreviveu sem ser socorrido, ao contrário de muitos de seus pares -, o banco suíço tinha mais de US$ 1 trilhão em ativos. Porém, após anos de declínio, estes ativos diminuíram para cerca de US$580 bilhões, cerca da metade do UBS.

“Sejamos claros, no que diz respeito ao Credit Suisse, este é um resgate de emergência”, disse o presidente do conselho do UBS, Colm Kelleher, que permanecerá no cargo após o negócio.

Para a Suíça, o golpe pode ser significativo. Lar de 243 grupos bancários e 24 agências de bancos estrangeiros, a estabilidade e a riqueza do país dependem muito do setor financeiro. Os ativos combinados do UBS e do Credit Suisse equivalem aproximadamente ao dobro do Produto Interno Bruto (PIB) da Suíça, e os jornais locais estavam cheios de histórias sobre o iminente desaparecimento de um ícone nacional.

Ao longo de sua história, o Credit Suisse financiou as ferrovias alpinas e o desenvolvimento do Vale do Silício. Cuidou da fortuna dos reis árabes e dos oligarcas russos e foi um grande incentivador para os gigantes de Wall Street. Mas lutou para controlar o risco e ganhar dinheiro de forma consistente.

Nos últimos anos, o banco tem sofrido uma porta giratória de altos executivos e gestores, e cada mudança de liderança tem colocado mais pressão sobre o desempenho. Suas ações mergulharam mais de 95% de seu pico pré-crise financeira de 2008, quando chegou a ser avaliado em US$ 100 bilhões, e a empresa foi avaliada em apenas 7,4 bilhões de francos suíços (US$8 bilhões) no fechamento da sexta-feira (17), menos de um décimo do valor do Goldman Sachs (GS).

“Em Zurique, tivemos um lugar na primeira fila para este espetacular fiasco em câmera lenta”, disse Matthew Ruesch, fundador e sócio-gerente da Broad Creek Capital, um escritório familiar. “Temos assistido ao abandono do banco de escândalo em escândalo por tanto tempo que é difícil lembrá-los a todos neste momento.”

UBS y Credit Suisse solían tener valuaciones similares. Ya no es el casodfd

Em chamas

As sementes da ascensão e da posterior queda do Credit Suisse foram semeadas no verão do norte de 1990, quando o então CEO Rainer Gut viu uma oportunidade de assumir o controle do parceiro americano do banco suíço, First Boston, em troca de uma modesta injeção de capital e para apoiar empréstimos ruins.

O First Boston tinha abraçado os mercados de dívida de alto rendimento durante os anos de 1980 e emprestou bilhões de dólares para financiar aquisições corporativas arriscadas. O setor outrora lucrativo tinha implodido, e um dos negócios mais problemáticos foi um empréstimo de US$ 457 milhões para a compra alavancada da Ohio Mattress. O financiamento fracassado cairia na infâmia de Wall Street como “o leito em chamas”.

Após a aquisição, o Credit Suisse adotou o mesmo tipo de negócio de risco - como o financiamento alavancado e a negociação de títulos hipotecários - que levou ao negócio do “leito em chamas”. Sucessivos líderes do banco suíço empreenderam numerosas revisões, até que em 2006 abandonaram o nome First Boston.

A aquisição foi parte de uma estratégia agressiva de crescimento, incluindo aquisições de rivais suíços, e a complexidade continuou a crescer. Após suceder a Gut como CEO, Lukas Muehlemann comprou a Winterthur Insurance em 1997.

O banco suíço adquiriu a Donaldson, Lufkin & Jenrette Inc. em 2000, mas o negócio com o banco de investimentos de Nova York provou ser um passo em falso bastante caro, já que vários dos principais banqueiros da DLJ deixaram a casa para se mudar os rivais no curto prazo.

A Winterthur foi vendida em 2006 pelo então CEO Oswald Gruebel, que dirigia o banco ao lado de John Mack por um breve período. Mudanças freqüentes na liderança criaram confusão estratégica no topo, ao mesmo tempo em que aumentaram a pressão sobre o ranking e a divisão para gerar lucros.

“A liderança, ou a falta dela, é a principal causa do desaparecimento da CS”, diz Thomas Bell, membro da diretoria do banco no início dos anos 2000. “Ninguém realmente sabia o que todas as partes estavam fazendo, o que levou a uma má gestão de risco e à crise.”

‘Copiar e colar’

Em 2015, foi descoberta uma fraude perpetrada por um banqueiro privado que não tinha clientes ou experiência bancária antes de ingressar no Credit Suisse. Após a turbulência do mercado acionário de 2008, Patrice Lescaudron - um francês de fala mansa - começou a colocar dinheiro clandestinamente na conta de um cliente rico, usando o dinheiro para tentar recuperar as perdas de outros clientes.

As fraudes eram surpreendentemente simples. Ele cortava uma assinatura de um documento, colava-a em ordens de comércio e fotocopiava-as, segundo o próprio Lescaudron. Houve sinais de alarme pelo caminho, incluindo avisos verbais e repreensões escritas dos supervisores em 2008, 2011 e duas vezes em 2013 por infringir as políticas de conformidade. No entanto, o Credit Suisse não o impediu. Ele foi condenado por fraude em 2018 e tirou sua própria vida em 2020.

Enquanto o dinheiro fluía, o banco concordou com o mau comportamento de Lescaudron, de acordo com uma investigação independente encomendada pela Finma, o agente regulador bancário suíço, embora não tenha concluído que o banco sabia da fraude.

Espionagem na sala do conselho

Em janeiro de 2019, uma longa disputa entre o então CEO, Tidjane Thiam, e Iqbal Khan, que chefiava a gestão de patrimônio e tinha como objetivo um dia liderar o Credit Suisse, veio à luz em um jantar em um rico subúrbio do Lago Zurique.

El ex CEO de Credit Suissedfd

O que começou como um comentário depreciativo de Khan sobre o jardim de Thiam, evoluiu para um escândalo corporativo esplêndido que abalou a reputação da empresa por discrição e descobriu uma cultura na qual as vaidades pessoais superavam os limites éticos e legais.

Poucas semanas após o jantar, Khan foi descartado para uma promoção e se demitiu em julho. Quando mais tarde ele aceitou um cargo no UBS, a decisão causou preocupação nos escalões superiores do Credit Suisse de que ele poderia roubar pessoas-chave. Uma empresa de segurança privada foi contratada para monitorar suas atividades, mas Khan foi pego em um incidente que levou a uma desavença física.

Embora o banco tenha sido rápido em reprimir o embaraçoso incidente, logo foi revelado que ele não era o único. Thiam foi destituído em fevereiro de 2020, com o então presidente Urs Rohner culpando-o por “uma deterioração em termos de confiança, reputação e credibilidade entre todas as partes interessadas”.

Como parte de uma investigação motivada pelo episódio de Khan, o regulador bancário suíço em outubro de 2021 descobriu outros cinco casos de vigilância entre 2016 e 2019. O ambiente tóxico no topo contribuiu para erros operacionais prejudiciais.

Perdas bilionárias com a Archegos

Em março de 2021, a mesa de operações do Credit Suisse foi informada de que seu maior cliente não poderia pagar os mais de US$ 2 bilhões que devia no dia seguinte. A Archegos Capital Management, empresa de investimento sediada em Nova York que administrava a fortuna pessoal do bilionário Bill Hwang, havia passado os dois dias anteriores liquidando com outros bancos depois que suas grandes apostas deram errado, e não havia o suficiente para o Credit Suisse.

A notícia desencadeou um jogo de culpas interno, com executivos em Nova York, Londres e Zurique colocando um contra o outro, em vez de se concentrarem no controle de danos.

Os rivais correram para vender as garantias da Archegos, e o Credit Suisse levou quase duas semanas para fazer uma contagem inicial de sua exposição: US$ 4,7 bilhões. Eventualmente, o valor subiu para US$ 5,5 bilhões, eliminando mais de um ano de lucros e enviando o banco para a espiral existencial que levou à crise de confiança da semana passada.

A administração já estava sendo criticada por não proteger o banco e seus clientes ricos do fracasso de um pool de fundos de US$ 10 bilhões que ele administrou com o desacreditado Lex Greensill. Os dois episódios chocaram o mundo das finanças, mas, em retrospectiva, estavam havia décadas em construção.

A complexidade, a cultura e os controles do banco foram os culpados pela enorme perda da Archegos, segundo um relatório independente sobre o colapso do escritório de advocacia Paul, Weiss, Rifkind, Wharton & Garrison. O Credit Suisse teve uma “atitude cavalheiresca em relação ao risco” e “falhou em tomar medidas decisivas e urgentes em vários pontos no tempo”, conclui o relatório.

O banco respondeu com uma série de medidas para corrigir as deficiências e se comprometeu a usar o incidente como um “ponto de virada em sua abordagem geral de gestão de risco”.

Mas o tempo se esgotou.

Capítulo final

Em outubro do ano passado, a nova dupla de administradores com o presidente do conselho, Axel Lehmann, e o CEO Ulrich Koerner - que assumiu o cargo no ano passado, após o fracasso dos negócios - propôs um retorno às raízes suíças do Credit Suisse como o melhor caminho a seguir.

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Cortaram postos de trabalho e arrecadaram US$ 4 bilhões em capital novo. Mais importante ainda, eles planejaram a separação das operações bancárias de investimento e eventualmente a cisão do First Boston para encerrar um esforço de três décadas para competir em Wall Street.

“O novo Credit Suisse será definitivamente lucrativo a partir de 2024″, disse Koerner após revelar o plano de reestruturação. “Nós não queremos prometer em demasia e entregar em demasia, queremos fazer o contrário.”

Contudo o mundo não estava parado. O fim do dinheiro barato tinha chegado, a economia global estava em turbulência e a confiança dos investidores, em falta, uma combinação que provou ser demais para um banco que nunca aprendeu realmente as lições da crise financeira global.

“O setor bancário não é como qualquer outro”, diz John Plassard, especialista em investimentos do Mirabaud, sediado em Genebra. “Quando se perde a confiança, não se pode simplesmente reconstruí-la.”

- Com a colaboração de Bryce Baschuk, Claudia Maedler, Natasha Doff, Philip Lagerkranser, Loukia Gyftopoulou, Donal Griffin, Hugo Miller, Sagarika Jaisinghani, Julien Ponthus, Allegra Catelli e Bastian Benrath.

- Com informações da Bloomberg Línea sobre a operação no Brasil.

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