O que ainda é preciso fazer para o metaverso decolar, na visão da Telefónica

Chief Digital Officer do grupo espanhol, Chema Alonso, diz em entrevista à Bloomberg Línea que há ‘muito por construir’ e que as redes ainda não estão prontas

Metaverso
05 de Dezembro, 2022 | 04:00 AM

Leia esta notícia em

Espanhol

Bloomberg Línea - Barcelona, Espanha — Metaverso, a palavra da moda do mundo digital. O tema está em evidência, embora pareça que ainda levará algum tempo para decolar. A Telefónica, uma das dez maiores telcos globais em faturamento, espera que o metaverso arranque somente a partir de 2028, disse à Bloomberg Línea José María Alonso Cebrián, mais conhecido como Chema Alonso, Chief Digital Officer e membro do Comitê Executivo do grupo espanhol.

Essa demora para que o metaverso deixe de ser um conceito e entre na vida das pessoas não se deve tanto a fatores comportamentais, mas a barreiras tecnológicas. “Ainda há chão para desenvolvê-lo porque as redes não estão prontas e não temos capacidade computacional suficiente para desenvolver este metaverso que a Meta/Facebook apresenta”, afirmou Alonso, que também é presidente da ElevenPaths, a empresa de cibersegurança do grupo Telefónica que ele fundou.

LEIA +
Holding do Facebook pede adiamento de regulação para o metaverso

O especialista se refere basicamente a duas infraestruturas chave: as redes que permitirão a conexão a esta realidade digital em alta velocidade e sem “delays” (como 5G, com largura de banda adequada para permitir a conexão ao metaverso) e a “edge computing”, tecnologia que tornará possível criar e transmitir grandes conteúdos digitais em tempo real (a informação viaja menos e, portanto, se reduz a latência da rede).

“Isso nos leva à necessidade de cômputo infinito e conectividade infinita. Portanto, a barreira não são os óculos, não é a inteligência artificial, é simplesmente a necessidade de computação e conectividade, capacidades de conexão que não temos hoje”, explicou em entrevista exclusiva o ex-hacker e executivo da Telefónica há 11 anos.

PUBLICIDADE

“Follow the money, Follow the kids”

O lugar onde os mundos físico e digital coexistem ainda gera muita “incerteza” e há “muito por construir”, nas palavras de Alonso. Entretanto, embora trabalhe com a perspectiva de que esta realidade imersiva só será palpável em aproximadamente seis anos, a Telefónica vem investindo no setor há tempos. “Criamos uma unidade para olhar a web 3.0 e o metaverso. Fizemos uma chamada para startups na Wayra (aceleradora da Telefónica) e surpreendentemente duas mil empresas (de várias partes do mundo) nos procuraram com ideias de negócios direta ou indiretamente relacionadas ao assunto.”

E não é por acaso. De acordo com um estudo da Onyx, a unidade de tecnologia do JPMorgan, o metaverso oferece uma oportunidade de mercado estimada em mais de US$ 1 trilhão em receitas anuais. Em um estudo sobre as oportunidades no metaverso, a empresa estimou que US$ 54 bilhões são gastos anualmente em bens virtuais, quase o dobro do que é despendido na compra de música.

Quando se trata de metaverso, Chema Alonso segue duas premissas que ele considera regras de ouro: “follow the money” e “follow the kids”. Com base na constatação de que o capital e os jovens estão fluindo para este espaço tridimensional baseado em AR (Realidade Aumentada) e VR (Realidade Virtual), o diretor de Dados da Telefónica está certo de que o metaverso, mais cedo ou mais tarde, decolará. “É algo imparável, será como uma evolução das redes sociais”.

PUBLICIDADE

Como fica o modelo de negócios da Telefónica

O executivo dá algumas pistas sobre a estratégia do grupo Telefónica: “Acreditamos que nossa posição não será construir o metaverso, mas construir as redes metaverso e usá-lo como um canal ou uma forma de alcançar nossos clientes, assim como com as redes sociais”, disse ele.

Nesse sentido, Alonso disse que será necessário transformar toda a rede de telecomunicações da empresa. Além de implantar a Edge Computing e as redes de baixa latência com alta largura de banda (Wi-Fi 6 e Wi-Fi 7, 5G Standalone), ele defende que as redes sejam programáveis, ou seja, abertas.

“Não da maneira como vendemos agora, como especialista - vendemos os serviços, a rede e os configuramos. O que precisamos fazer é tornar todas essas redes programáveis para que um desenvolvedor, onde quer que esteja no mundo, possa programá-las em tempo real, sob demanda e com uma única linha de código (‘Single Line of Code’)”.

O diretor digital da Telefónica falou com a Bloomberg Línea sobre as perspectivas do grupo para a revolução digital trazida pela web 3.0 e o metaverso.dfd

Outras apostas - também para a América Latina

Embora nos últimos anos tenha se movimentado para se desfazer de alguns de seus ativos na América Latina, a Telefónica está de olho no setor de tecnologia financeira na região. Em agosto, por exemplo, anunciou investimentos de US$ 3 milhões na fintech brasileira Klavi através de seu fundo de investimento no país Vivo Ventures.

“A região acelerou enormemente na adoção de tecnologias e foi menos afetada pela situação que tivemos na Europa com a guerra na Ucrânia. Chile, Colômbia e Brasil, por exemplo, são muito digitais”.

Nos investimentos que vem fazendo em startups, além dos projetos relacionados à web 3.0 e ao metaverso a Telefónica também está apostando em tecnologias aplicáveis ao lar (como a Internet das coisas/IoT, energia inteligente y soluções de segurança residencial).

LEIA +
Mulheres usam mais o metaverso, mas homens ocupam 90% dos cargos executivos

Os desafios

O otimismo do executivo da Telefónica em relação ao futuro digital não o isenta de preocupações sobre o rumo da economia. Entre os “desafios muito grandes”, Alonso menciona o impacto da inflação, do aumento dos preços da energia e da desaceleração econômica nas empresas de tecnologia, muitas das quais estão sendo obrigadas a “demitir trabalhadores ou congelar salários”.

PUBLICIDADE

Por todas estas razões, “2023 será um ano desafiador em 2023″, acredita. O executivo não revelou se estes fatores afetarão o orçamento da Telefónica para investimentos em inovação tecnológica. “Estamos analisando a situação mercado por mercado, estamos avaliando as tendências. Isto é algo que fazemos mensalmente na Telefónica: estudar o mercado para tomar as decisões corretas de investimento. Somos uma empresa que, por nossa natureza, temos que fazer grandes investimentos em infraestrutura - e alavancar financeiramente é sempre um desafio, não é?”.

As receitas do grupo Telefónica aumentaram 11,2% no terceiro trimestre, em comparação com o mesmo período em 2021, para 10,343 bilhões de euros.

Leia também

O plano da Volkswagen para financiar escolas de programação no Brasil e no México

Michelly Teixeira

Jornalista com mais de 20 anos como editora e repórter. Em seus 13 anos de Espanha, trabalhou na Radio Nacional de España/RNE e colaborou com a agência REDD Intelligence. No Brasil, passou pelas redações do Valor, Agência Estado e Gazeta Mercantil. Tem um MBA em Finanças, é pós-graduada em Marketing e fez um mestrado em Digital Business na ESADE.