Não há recessão no setor de luxo: vendas da Dior e da Mercedes disparam

Aumento do consumo reflete período da pandemia, mas, com incertezas no horizonte, analistas acreditam que período de bonança pode passar

Fila de clientes na loja da Christian Dior na Champs Elysees, em Paris, França, em julho de 2022
Por Angelina Rascouet
13 de Outubro, 2022 | 06:47 PM

Leia esta notícia em

Espanhol

Bloomberg — O salto nas vendas relatado pela LVMH, dona da Louis Vuitton e da Christian Dior, sugere que pelo menos um segmento da economia permanece imune às crises que atingem os varejistas: os bens de luxo.

Mercados agitados, inflação crescente e o constante desânimo econômico não impuseram nenhuma barreira para a demanda entre os consumidores ávidos por bolsas, relógios, joias e carros. Isso fica evidente no salto de 22% nas vendas de moda e artigos de couro da LVMH no último trimestre.

“O alívio de sair vivo da pandemia superou qualquer má notícia, pois os consumidores podem adotar uma postura mais ‘carpe diem’”, disse Luca Solca, analista da Bernstein, em relatório. O termo é uma expressão em latim que significa “aproveite o dia”. “Ninguém quer ser a pessoa mais rica do cemitério.”

Essa atitude fez com que filas se formassem do lado de fora das lojas da Christian Dior e da Chanel em Paris, Berlim e Londres, em cenas que lembram a era pré-pandemia, quando turistas chineses aproveitavam os preços mais baixos na Europa.

PUBLICIDADE

Só que agora, com os chineses ainda em grande parte ausentes devido às políticas de covid zero de seu país, os americanos com seus dólares fortes e os europeus se tornaram os principais clientes destas marcas.

O apetite persistente por marcas procuradas entre os endinheirados transcendeu itens como bolsas e acessórios caros e ajudou a aumentar as vendas de carros da Mercedes Benz em mais de um quinto no último trimestre. A oferta pública inicial da Porsche se beneficiou do prestígio de luxo da marca, cujo valor de mercado superou o de sua controladora, a Volkswagen.

Jean-Jacques Guiony, diretor financeiro da LVMH, disse a analistas que, em crises passadas, os clientes tendiam a reagir mais aos choques do mercado de ações do que à desaceleração do crescimento econômico em si. Ao contrário dos varejistas do mercado de massa, a LVMH tem a capacidade de repassar os aumentos de custos a seus clientes, disse ele.

PUBLICIDADE

Enquanto isso, o frenesi de gastos continua. A Sotheby’s, tradicional casa de leilões, vendeu no final do mês passado sua bolsa mais cara, uma Hermes Kelly de pele de crocodilo, em um leilão em Paris por 352.800 euros (USD 341.862).

A questão agora é por quanto tempo esse consumo desenfreado pode continuar. Flavio Cereda, analista da Jefferies, disse que, embora os resultados da LVMH tenham sido positivos, ainda há incerteza sobre a trajetória daqui para frente.

“É como um grito do vencedor no pós-pandemia”, escreveu ele em nota aos clientes. Mas ainda não está claro “se estamos testemunhando um último suspiro”, acrescentou.

-- Com a assistência de Benedikt Kammel.

Leia também

Inflação nos EUA: CPI avança 0,4% em setembro e supera expectativas