Copo meio cheio: fundos de VCs seguem captando para investir na América Latina

Na Kaszek e na Monashees, family offices são em geral investidores globais que ‘entendem o ciclo’ de alta e de baixa do mercado de startups e têm visão de longo prazo

'A festa começa tarde e acaba cedo aqui no Brasil, mas foi o suficiente para colocar o país no mapa da indústria de VC'
13 de Agosto, 2022 | 07:33 AM

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Bloomberg Línea — Anúncios de demissão em massa tomaram conta do noticiário de startups na América Latina nos últimos meses, em um ambiente de redução da liquidez de capital disponível para investimentos. Mas isso não significa que não há perspectivas de aportes e rodadas para empresas da região.

Algumas das maiores e mais tradicionais empresas de capital de risco (VCs, de venture capital) seguem otimistas de que conseguirão captar recursos para novos fundos: 2022 tem sido até agora o melhor ano para captação para os fundos nos Estados Unidos, com US$ 137 bilhões até o momento, segundo dados do Pitchbook. Em 2021, US$ 142 bilhões foram captados por fundos de capital de risco.

Fonte: Pitchbook

Na América Latina, os números revelam duas faces da mesma moeda. Houve queda de 34% no valor total transacionado em dólares na região no segundo trimestre em comparação ao mesmo período no ano passado. Mas o número de negócios (investimentos) cresceu 9%, segundo informações do TTR (Transactional Track Record). Foram 278 transações domésticas e 250 de fundos estrangeiros.

Os investidores mais ativos na América Latina no segundo trimestre foram Kaszek, Canary, SoftBank, Global Founders Capital, DOMO Invest, Tiger Global Management, Y Combinator e Platanus Ventures, segundo o TTR (veja gráfico mais abaixo).

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Transações por VCs no segundo trimestre na América Latina

Na Kaszek, uma das maiores empresas de VC da América Latina, 90% dos chamados LP (Limited Partners, que são family offices e fundos de pensão que têm seus ativos geridos pela empresa de VC) são de fora da região: estão nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia.

“São investidores que já viveram esse ciclo e continuam animados com a América Latina. Vai ter muito capital direcionado para gestores”, disse o sócio da Kaszek Santiago Fossatti, durante evento da ABVCAP (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital) nesta semana em São Paulo.

Santiago Fossatti, sócio da Kaszek, em evento da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital em São Paulo nesta semana

Para Fossatti, a conversa com os LPs não sofreu mudança com o mercado mais restrito para ativos de risco em razão da alta global de taxas de juros, especialmente no mundo desenvolvido, origem do capital. “Eles estão muito tranquilos, trabalham conosco há cinco, dez anos”, contou.

Ele afirma que os LPs brasileiros também estão mais calmos porque entendem as startups investidas.

Para Eric Acher, sócio-fundador da Monashees, outro dos mais tradicionais fundos de VC na América Latina, as conversas com os Limited Partners são contínuas. Segundo ele, investidores da Monashees entendem os ciclos de investimento a longo prazo e sabiam que uma potencial correção chegaria.

“Tivemos a liquidez devolvida várias vezes em relação ao primeiro fundo, o que ajuda muito nessa conversa”, contou no mesmo evento: 70% dos LPs que têm ativos na Monashees são investidores globais.

Acher lembra que esta não é a primeira correção pela qual a indústria de venture capital está passando, embora seja a primeira vez que isso acontece depois que a indústria de VCs se espalhou para mercados emergentes na última década. E ele diz que os LPs sabem reconhecer esse ciclo.

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“Os fundos globais estão todos captados. Há muito dry powder [dinheiro para investir nas oportunidades]”, disse Edson Rigonatti, cofundador da Astella Investimentos, outra empresa tradicional de VC da região, em entrevista à Bloomberg Línea.

Nos últimos dias, a Astella anunciou que captou US$ 150 milhões em um novo fundo para investir em startups early-stage, ou seja, nos primeiros estágios de desenvolvimento.

“Estamos chegando agora aos preços de 2017, com qualidade de produto de 2023. Por isso achamos que esta será a melhor safra para investir, porque estamos pegando um excelente ponto de entrada”, afirmou Rigonatti.

Novos fundos

Para o sócio da Astella, uma quantidade significativa de empresas passará por um processo de revisão com a possibilidade de captar uma rodada estável - ao mesmo valuation do aporte anterior - ou até mesmo um down round (com valuation abaixo da rodada anterior).

Há outros exemplos pela região. A L’Attitude Ventures é outra empresa que acabou de fechar um fundo de US$ 100 milhões para investir em empreendedores latinos nos Estados Unidos. A Maya Capital e a Vine Ventures também levantaram recursos para investir na América Latina.

A Lightspeed Ventures, empresa de capital de risco com sede em Menlo Park, próximo a São Francisco, anunciou recentemente um fundo de US$ 7 bilhões, no qual parte do valor iria para a América Latina, conforme relatado pelo blog da fintech Trace Finance. “Estamos empolgados em aumentar nosso investimento na América Latina daqui para frente”, disse Mercedes Bent, sócia da Lightspeed.

A Trace Finance tem um modelo de negócios semelhante ao do Silicon Valley Bank e possibilita que startups na América Latina recebam recursos estrangeiros.

“Os fundos de capital de risco estão prestes a quebrar um recorde neste ano. Há muito dry powder no mercado, os VCs continuarão investindo e grandes fundadores vão receber aportes”, disse Bernardo Brites, CEO da Trace Finance, em comunicado à Bloomberg Línea. “A verdadeira questão a que fundadores e VCs estão tentando responder é em quais termos.”

Chris Yeh, investidor e mentor do Vale do Silício, disse que se sente mais “otimista” em entrevista durante passagem por São Paulo na semana passada.

“Nos Estados Unidos, a inflação está menor do que antes, embora ainda elevada. Parece que o governo está tomando as medidas corretas para reduzir a oferta de dinheiro com as taxas de juros. E isso melhora a situação para o mundo de startups, porque nós precisamos de certeza, precisamos de pessoas capazes para investir nos mercados”, afirmou.

Contudo Yeh reconhece que ainda haverá pedras no caminho por causa de uma situação geopolítica instável. “Não sabemos o que vai acontecer na Europa, na Ásia, e todas essas questões têm o potencial de deixar os investidores mais pessimistas.”

“Mas, assumindo que nada maluco aconteça, acho que começaremos a ver uma recuperação no fim deste ano ou no fim do próximo ano. Mas nós provavelmente só vamos sentir que houve uma recuperação no meio de 2023″, afirmou.

O levantamento do TTR mostra também as saídas de VCs das startups então investidas, seja por meio de IPO ou por venda: a Astella lidera a lista da América Latina no segundo trimestre (veja abaixo).

Desinvestimentos por VC na América Latina no segundo trimestre de 2022

Brasil e LatAm no mapa dos VCs

No Brasil, os aportes dos fundos de Private Equity, que costumam fazer alocações em companhias privadas em estágio mais maduro, alcançaram R$ 11,3 bilhões, com alta de 2,7% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano passado.

Já o volume de recursos de fundos de Venture Capital foi de R$ 5,2 bilhões, uma queda de 62% em relação ao segundo trimestre de 2021. Os dados são de pesquisa trimestral realizada pela KPMG e pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).

“O Venture Capital se caracteriza por ser uma classe de ativos mais acíclica. Os LPs sabem que os resultados vêm em safra. Apesar, ou talvez em razão dessa correção, os vintages após as correções são muito bons, e os valuations, mais realistas”, disse Acher.

“Não acho que ‘hype’ seja sinônimo de bolha. Era previsível que haveria correção em algum momento”, afirmou o sócio da Monashees. Para ele, os ajustes de valuation têm mais a ver com o ciclo financeiro do que com o momento das empresas de tecnologia.

Em 2000 [ano do estouro da bolha da internet], era o fim de um ciclo de tech. Agora, não. O que está acontecendo tem mais a ver com os juros”, disse. Mas Acher reconhece que os aportes em empresas que se dizem “tech-enabled”, ou seja, que não são nativas de tecnologia mas a utilizam para alavancar os serviços, como é o caso da WeWork, por exemplo, podem ter sido “exagerados”.

Para Acher, a grande conquista do ciclo de bonança foi ter colocado a América Latina no mapa de venture capital. “Os Estados Unidos tiveram 14 anos de bull market. O Brasil teve quatro, cinco. A festa começa tarde e acaba cedo por aqui, mas foi o suficiente para nos pôr no mapa e estabelecer a indústria.”

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Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups