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Mulheres representam só 22% dos sócios de fundos de VC na América Latina

Representatividade limitada se traduz em número reduzido de aportes em startups lideradas por empreendedoras, segundo especialistas

Ecossistema de capital de risco da América Latina ainda tem baixa participação de mulheres, apontam estudos
04 de Julho, 2022 | 05:07 pm
Tempo de leitura: 7 minutos

Bloomberg Línea — O ecossistema de capital de risco da América Latina ainda tem baixa participação de mulheres. A Endeavor entrevistou mais de 120 sócios de fundos de capital de risco que investem na América Latina e descobriu que, em média, as mulheres representam 22% dos sócios dos fundos. As entrevistas foram realizadas no último trimestre de 2021.

Por que isso é importante? De acordo com Anna Raptis, fundadora da empresa de capital de risco Amplifica Capital, com sede no México, os VCs - como são chamados os fundos de venture capital - representam os investidores de companhias nas quais surgem novas ideias e o futuro está sendo criado.

“Sem mulheres na mesa tomando decisões de investimento, elas estão sendo excluídas da forma como projetamos o futuro”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.

O Amplifica Fund 1 é o primeiro fundo de capital de risco focado em mulheres no México. Ele investe em startups em estágio inicial, com um fundo de US$ 10 milhões. “Sempre tive interesse em investir com propósito, investir para resolver os desafios no México”, disse Raptis.

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Ela relata que não há dinheiro suficiente para as mulheres empreendedoras. E a fonte do problema é que não há muitas mulheres investidoras.

“90% dessas decisões dos VCs são feitas por homens. Não deve ser surpresa que 90% do capital vá para equipes masculinas”, disse ela, explicando por que a falta de mulheres em VC é um problema.

“Buscamos atrair mais mulheres e investimos em equipes lideradas por mulheres ou que tenham bens e serviços focados em mulheres”, disse Raptis.

Mais de 70% dos investidores do fundo da Amplifica são mulheres. “Não há outro fundo de capital de risco como esse no México ou na América Latina. Estamos felizes em trazer novas investidores para o espaço”, disse.

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Temas caros para VCs na América Latina

Mais do que o modelo de negócio, para investidores de VC da América Latina, a equipe fundadora é o fator mais importante, segundo o relatório da Endeavor: 98% dos capitalistas de risco reconhecem a equipe fundadora como o fator mais importante para o sucesso de um investimento.

Mais de 80% dos fundos da região têm menos de US$ 200 milhões de ativos sob gestão, e 82% dos fundos focam em early-stage, ou seja, nas startups em estágio inicial. Apenas 3,6% focam em late-stage (estágio mais avançados), cross-over e pré-IPO.

No estudo conduzido pela Endeavor, 82% dos investidores de VCs disseram que costumam usar direitos pró-rata como cláusula para investir. A cláusula garante ao investidor o direito de participar de rodadas subsequentes para manter o percentual que o fundo detém de uma empresa, evitando que sua fatia seja diluída conforme a startup avança nas rodadas de investimento.

Ainda aquém do potencial de VC

Ano passado foi um ano histórico para a indústria de venture capital global. Na América Latina, relatório do PitchBook mostra que o investimento de VCs em 2021 foi três vezes maior do que em 2020.

Segundo a Endeavor, o crescente investimento em capital de risco não decorre apenas de uma tendência global de rodadas de investimento, mas também tem a ver com o aumento consistente no número de negócios sendo criados por ano a partir de 2017 na região.

A rede de empreendedores também aponta que o ecossistema se tornou mais dinâmico depois que fundos renomados como Andreessen Horowitz e Sequoia começaram a investir na região. “Mas sem dúvida o mais significativo movimento foi a decisão do SoftBank de criar um fundo de US$ 5 bilhões para a América Latina em 2019, um fundo maior do que o montante total investido em qualquer ano anterior”, disse a Endeavor.

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De acordo com o relatório, para originar um acordo de investimento na América Latina, os VCs enxergam que há ambiente de investimento colaborativo: 75% dos negócios são encaminhados por uma rede de investidores de VC, outras empresas de capital de risco, redes profissionais, empresas de portfólio existentes, LPs (Limited Partners) e empreendedores residentes.

E o funil é altamente seletivo. Segundo a Endeavor, os VCs investem em apenas 3,5% das empresas em potencial. Tomando como base 200 encontros com fundadores, por exemplo, apenas 41 negócios passam para a próxima fase para serem revisados com comitê de investimentos e 15 negócios passam por diligência. Desses, oito term-sheets são oferecidos para os fundadores e apenas sete negócios são fechados.

De cada 200 encontros com fundadores, apenas sete acordos são fechados. Fonte: Endeavordfd

No processo de análise e negociação, a Endeavor aponta que 81% dos investidores de capital de risco consideram o time como fator mais importante para investir e 61% dos VCs consideram a capacidade para crescer o negócio como o mais relevante. 91% dos VCs usam o unit economics como uma métrica principal, seguida de churn e margem de vendas.

Os VCs consideram a diluição do fundador o segundo fator mais importante quando decidem uma avaliação e os direitos pro-rata são de longe os recursos contratuais mais usados.

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Questionados sobre como os VCs podem agregar valor às empresas, os investidores disseram que os dois maiores desafios que as empresas enfrentam são atrair e manter talentos e expandir para novos mercados.

Por isso, as atividades de agregação de valor mais populares realizadas pelos VCs são o apoio para a captação de recursos para a empresa (82%), fornecer orientação estratégica (74%), e apoiar o desenvolvimento de negócios (68%).

Em média, os investidores interagem com empreendedores da América Latina de duas a três vezes por mês. Segundo a Endeavor, a grande maioria está em contato com seu portfólio entre uma vez por semana e uma vez por mês.

Pensando nos resultados do investimento, os investidores acreditam que a equipe fundadora é a principal causa de investimentos bem-sucedidos, seguida pelo modelo de negócios.

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As principais razões para o fracasso do investimento, segundo os VCs, são a falta de adequação do produto ao mercado e o conflito da equipe gestora.

Apenas 2,9% das empresas do portfólio desses VCs têm uma saída bem-sucedida por meio de um IPO (oferta pública inicial). A maioria (37,8%) saem por meio de M&A (fusões e aquisições).

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Olhando para o ecossistema na região, os VCs veem o México, o Brasil e a Argentina como países “estrelas” com forte tração para o ecossistema e forte potencial futuro.

Investidores estão mais entusiasmados com o ecossistema do Brasil, México e Argentina. Fonte: Endeavordfd

Chile, Peru, Uruguai e Colômbia são vistos como “estrelas em ascensão”, com sólida tração atual e forte potencial futuro e Paraguai, Venezuela, Bolívia, Equador e países da América Central sem atividade de investimento significativa até o momento.

A maioria dos fundos da região ainda são novos e o tamanho dos fundos para a América Latina giram em torno de US$ 50 milhões a US$ 99 milhões, em média.

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Considerando que 2016 foi quando a atividade de VCs ficou mais intensa na região e assumindo um ciclo de fundos de 10 anos, muitos dos VCs não liquidaram seu primeiro fundo até o momento do estudo da Endeavor. Metade dos tomadores de decisão na indústria de VC na região são novos investidores.

“VC é uma classe de ativos outliers e a América Latina não é exceção: os 5% melhores da nossa amostra de dados compõem fundos com tamanhos de US$ 500 a 1 bilhão; 33,3% da nossa amostra de dados (21 fundos) declarou ter empresas unicórnios no portfólio”, relata a Endeavor.

Fundos com unicórnios no portfólio tendem a estar no jogo por mais tempo, com uma média do primeiro ano de safra de 2013, com base nas respostas da pesquisa.

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Quanto às tendências do ecossistema, 90,1% dos VCs consideram que o ecossistema da América Latina ainda está nos estágios iniciais ou intermediários de seu ciclo econômico. A maioria dos VCs consideraram fintech como o setor mais promissor e enxergam os riscos macroeconômicos como alta de juros, inflação e geopolítica como principais riscos para investir na América Latina.

Segundo o estudo da Endeavor, o ecossistema da América Latina ainda está atrás de seu potencial comparando venture capital com o PIB (Produto Interno Bruto) da região.

O setor de capital de risco representa a menor proporção do PIB na América Latina, menor do que se comparado com outras regiões.

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“Enquanto a América Latina tem visto uma explosão de dinheiro fluindo para o ecossistema, o nível desse financiamento em relação ao mercado em que esses empreendedores estão ainda é relativamente pequeno. Ainda há uma quantidade considerável de espaço para o ecossistema de VC crescer, indicando que a América Latina continuará um ecossistema dinâmico para o futuro”, disse a Endeavor.

Apesar das preocupações de um mercado mais restrito para ativos de risco, a Endeavor anunciou na semana passada seu maior fundo de VC. O Catalyst Fund IV levantou mais de US$ 290 milhões, elevando o total de ativos sob gestão da Endeavor para mais de US$ 500 milhões. O fundo investe em grande parte em mercados emergentes, especialmente no Brasil.

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann BR

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups

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