Brasil

Caos aéreo do exterior chegará ao Brasil? Especialistas apontam outro risco

Filas tomam conta de aeroportos na Europa e nos EUA com atrasos e cancelamentos de voos; por aqui, férias de julho acendem o alerta com alta da demanda

Saguão para o check-in do aeroporto de Congonhas, em São Paulo: número de voos planejados em julho é o maior desde o início da pandemia
26 de Junho, 2022 | 07:19 am
Tempo de leitura: 7 minutos

São Paulo — Filas extensas nas áreas de segurança para o raio-x e de imigração. Atrasos e cancelamentos de voos. Extravios de bagagens. O combo do chamado “caos aéreo” virou a imagem de aeroportos na Europa e nos Estados Unidos no começo do verão no Hemisfério Norte, com a volta da demanda de passageiros aos níveis pré-pandemia e a escassez de mão-de-obra nas companhias aéreas após as demissões em massa por causa justamente da covid. Esse transtorno pode afetar as férias dos brasileiros?

Se a viagem for para algum dos destinos mais procurados dos brasileiros no exterior, a resposta é que existe, sim, esse risco, como mostra reportagem da Bloomberg News.

Mas, no Brasil, a preocupação para quem planeja viajar em voos domésticos é de outra ordem, segundo especialistas consultados pela Bloomberg Línea de três das principais partes envolvidas na operação do transporte aéreo: companhias, trabalhadores e governo (que regula e supervisiona). A avaliação é consensual: por características do mercado interno, não se espera cenas de caos nos aeroportos.

Em julho, estão programadas 2.134 decolagens diárias de voos domésticos e 116 partidas diárias para o exterior nos aeroportos brasileiros, em média. São os maiores números mensais desde o início da crise sanitária da covid-19, em março de 2020, segundo a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas). O desempenho, se confirmado, vai superar os dados de dezembro (2.036 decolagens domésticas por dia) e de janeiro (1.995) passado e representa cerca de 90% do total de voos no pré-pandemia.

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Para as companhias, a principal preocupação é com um velho conhecido em tempos sem ou com pandemia: os tradicionais nevoeiros de inverno, mais comuns no mês de julho, que chegam a paralisar temporariamente as operações nos terminais, principalmente no Sul e Sudeste.

Segundo especialistas, a principal razão para o risco reduzido de ocorrerem centenas de atrasos e cancelamentos, como na Europa, é que as companhias aéreas Latam, Gol e Azul evitaram demissões em massa nos últimos dois anos, durante a pandemia. Em vez de cortes definitivos, fecharam acordos trabalhistas que permitiram que tripulantes não fossem dispensados mesmo com os aviões no chão durante os meses de fechamento das fronteiras e de suspensão de rotas em 2020 e 2021.

A Azul, por exemplo, chegou ao fim do primeiro trimestre deste ano com 12.944 funcionários, com alta de 11% em relação ao mesmo período de 2021. Na comparação com o último trimestre de 2019, sem qualquer impacto da pandemia, o quadro atual é apenas 2% menor (eram 13.189 na ocasião).

“A tendência no Brasil não é de caos aéreo nas férias de junho nem nos próximos meses. Os principais aeroportos estão bem equipados e aparelhados. Após as concessões para a iniciativa privada, os terminais passaram por uma revolução e estão mais eficientes e eficazes. Além disso, a maior movimentação de viajantes acontece só no fim do ano, que supera a alta estação de julho, de inverno”, disse o secretário nacional de Aviação Civil, Ronei Glanzmann, em entrevista à Bloomberg Línea.

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Normas trabalhistas distintas

As diferenças entre as normas trabalhistas do Brasil em relação às dos Estados Unidos e da Europa ajudam a explicar por que as companhias aéreas no Brasil conseguiram evitar demissões coletivas nos últimos dois anos - e, portanto, reduziram o risco de escassez de pessoal e necessidade de maiores custos na recontratação. Substituir tripulantes é considerada uma tarefa complexa e demorada para as empresas, pois a oferta de mão-de-obra é limitada por exigir formação profissional mais demorada e específica.

“Nos Estados Unidos, a lei trabalhista é diferente. Não existe CLT [Consolidação das Leis Trabalhistas] como aqui, onde o vínculo do empregado com a empresa é mais forte. Isso fez com que a força de trabalho do setor fosse mantida, pois as companhias aéreas fizeram acordos de licenças não remuneradas durante a crise”, afirmou o diretor de segurança e operações de voo da Abear, Ruy Amparo.

Na Europa, muitos tripulantes demitidos pelas grandes companhias aéreas acabaram, segundo Amparo, optando por trabalhar em companhias da Ásia ou em empresas de low cost. Isso tem dificultado a recontratação, o que se traduz em número insuficiente de funcionários para atender a demanda.

O SNA (Sindicato Nacional dos Aeronautas), principal entidade da categoria, reforça a avaliação de que o Brasil apresenta um risco menor de caos aéreo na alta temporada na comparação com outros países. “A Latam chegou a fazer demissões pontuais quando as aeronaves estavam paradas, durante a pandemia, mas está recontratando”, disse o presidente da entidade, Henrique Hacklaender.

Acordos trabalhistas - amparados em lei - de manutenção de empregos no auge da pandemia, que autorizavam medidas extraordinárias como redução de jornada e de salários, deixaram de vigorar no fim do ano passado na Gol e na Azul, segundo ele. “Ainda não voltamos ao nível de emprego do setor de antes da pandemia. Mas as companhias estão aumentando seus quadros pessoais aos poucos, à medida em que retomam os voos”, afirmou Hacklaender à Bloomberg Línea.

Em novembro do ano passado, o SNA chegou a convocar uma greve para pressionar as empresas aéreas nas negociações do dissídio salarial dos aeronautas, que é no mês de dezembro, mas as partes chegaram a um acordo de última hora, evitando o caos nos aeroportos na ocasião.

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Nevoeiros: ameaça do tempo

Mesmo com as entidades minimizando os riscos de caos aéreo, isso não significa que os passageiros não podem enfrentar transtornos nos aeroportos na alta estação do meio do ano. “Os nevoeiros de julho se tornam uma dor de cabeça para as operações, principalmente nos aeroporto de Guarulhos e Congonhas, em São Paulo, ainda que as companhias aéreas estejam acostumadas e saibam enfrentar essa situação com a recomposição de aeronaves de reserva e tripulações”, disse o diretor da Abear.

O presidente do SNA acrescentou que o mau tempo - como neblina e chuva forte -, que reduz a visibilidade para os pilotos e pode levar à suspensão temporária das operações, acaba prejudicando toda a malha aérea com atrasos dos voos em cadeia. “Se tem nevoeiro em Porto Alegre e Curitiba, por exemplo, isso afeta os horários de decolagens e pousos em aeroportos de outras cidades”, exemplificou.

É uma realidade distinta à do começo do ano, em que a variante ômicron, da Covid-19, foi o pivô de transtornos nos aeroportos, pois muitos tripulantes adoeceram e se afastaram do trabalho, provocando uma escassez de mão-de-obra. Sem pilotos nem comissários disponíveis, muitos voos foram cancelados, prejudicando como consequência as atividades do setor turístico no primeiro trimestre.

Analistas do mercado financeiro também monitoram os riscos da evolução do caos aéreo nos EUA e na Europa. “Isso pode comprometer os resultados das companhias aéreas, embora no Brasil as empresas tenham conseguido mitigar esse impacto até agora”, escreveram os analistas Victor Mizusaki (Bradesco BBI) e Wellington Lourenço (Ágora Investimentos) em relatório enviado a clientes.

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“Mantemos a recomendação de compra para as ações da Azul (AZUL4, com preço-alvo de R$ 40 em 12 meses) e neutra para Gol (GOLL4, com preço-alvo de R$ 21)”, apontaram. São papeis que encerraram negociados na sexta-feira (24) a R$ 14,06 e R$ 10,50, respectivamente, o que sinaliza a avaliação de que há perspectiva de forte valorização (upside), igual ou acima de 100%.

Reformas em aeroportos

Durante o período mais crítico da pandemia, em que a maioria das aeronaves ficou no chão, os principais aeroportos do país passaram por obras de reparo para melhorar a infraestrutura, o que pode contribuir para evitar - ou ao menos amenizar - o caos aéreo na alta temporada, segundo o diretor da Abear. “Congonhas, por exemplo, recebeu uma nova camada de asfalto em sua pista”, citou Amparo.

O executivo lembra que o funcionamento dos terminais depende ainda da recomposição do chamado “ground crew”: funcionários de terra como mecânicos, técnicos e atendentes de check-in, por exemplo. “Se uma companhia aérea lança um novo voo no sistema, ela precisa saber se vai ter gente no check-in para o atendimento, por exemplo. No caos aéreo que estamos vendo na Europa e nos EUA, devido à enorme demanda reprimida, novos voos estão sendo abertos sem esse cuidado”, disse Amparo.

Para os próximos anos, com a demanda retomando a trajetória de crescimento, o governo federal aposta na 7ª rodada de leilões de concessões de 15 terminais em bloco, incluindo Congonhas, prevista para 18 de agostov na B3. É uma iniciativa para melhorar a infraestrutura dos aeroportos brasileiros no longo prazo e evitar transtornos para os passageiros em períodos de pico de tráfego, segundo o secretário da Aviação Civil. “Grandes grupos nacionais e estrangeiros de infraestrutura vão participar dessa rodada”, antecipa Glanzmann, citando CCR, Zurich Airport, Socicam, Fraport, Aena, Vinci e ADP.

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.