Petro, de esquerda, foi o vencedor, mas nenhuma das opções era necessariamente boa para o país
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg Opinion — No caos da política latino-americana, a Colômbia tem parecido uma ilha de estabilidade. Agora, a mudança é certa. A eleição presidencial colombiana de domingo (19) se deu entre dois forasteiros: o primeiro candidato de esquerda viável em décadas, e um magnata populista da construção civil com discurso de combate à corrupção. Gustavo Petro, o vencedor, deve aprender com a ascensão e queda dos líderes contra o status quo de outros países da região. Sem um amplo apoio e sem atenção às finanças públicas, ele não poderá proporcionar as melhores condições de vida exigidas pelos eleitores.

Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, venceu o primeiro turno em maio e enfrentou Rodolfo Hernández, empresário e ex-prefeito, no segundo turno deste fim de semana. Petro levou a melhor com 50,44% dos votos.

PUBLICIDADE

Nenhuma das opções era necessariamente boa para a economia. Os investidores se preocupam com a agenda intervencionista da Petro, que visa reduzir a desigualdade com os gastos públicos e aumento de impostos. Ele quer garantir empregos no setor público para os desempregados, ao mesmo tempo em que deve reduzir novas explorações de petróleo e gás – uma mudança bem intencionada, mas bastante abrupta para um país que depende tanto das exportações de petróleo. A diminuição das reservas significaria que a Colômbia deixaria de ser autossuficiente antes do final da década.

Por sua vez, Hernández era visto como mais favorável aos negócios, prometendo austeridade, mas suas propostas políticas eram ecléticas e vagas. Uma quase redução do IVA, maior contribuinte para a receita do governo, também não ajudaria muito a domar a inflação. Ambos os candidatos fizeram promessas preocupantes sobre o aumento das barreiras comerciais.

PUBLICIDADE

A Colômbia, que perdeu seu status de investimento no ano passado, não pode se dar ao luxo de ter esses esquemas. Embora a economia tenha se recuperado bem da covid-19, problemas complicados persistem. No ano passado, uma reforma tributária mal feita gerou protestos violentos que duraram semanas. A desigualdade é pronunciada mesmo pelos padrões da região – a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico estima que levaria 11 gerações para que os 10% mais pobres da sociedade colombiana passassem para a renda média – e o setor informal, que ajudou a impulsionar essa rápida recuperação, agora irá impedir a Colômbia de ascender.

Petro deve tentar acalmar os nervos com um ministro da Fazenda experiente e tecnocrático e começar a desatar os nós do país, como um sistema tributário que atualmente sobrecarrega as empresas, mas que ainda se estende para atender às demandas sociais. A produtividade vai melhorar com o alívio dos regulamentos para startups e a redução do protecionismo. No entanto, acelerar o crescimento exige uma pessoa que mantenha a calma em tempos de crise.

PUBLICIDADE

Outros governos que vão contra o status quo na região soaram o alerta. Pedro Castillo, eleito presidente do Peru em 2021, não ampliou sua base e está em crise, já que sua já conturbada economia foi atingida por uma inflação crescente. Gabriel Boric, do Chile, está angariando apoio, mas sua popularidade ainda é de 44% apenas meio ano após uma eleição que ele ganhou facilmente (em grande parte por causa de uma guinada mais moderada). O presidente Jair Bolsonaro pode ser o equivalente mais próximo de Hernández, mas graças à política inepta e à divisão, ele não conseguiu cumprir a maior parte de suas promessas pró-negócios.

Os riscos na Colômbia são ainda maiores, devido às instituições frágeis, aos altos níveis de desconfiança e à violência. Além disso, Hernández está sendo julgado por corrupção. Ambos os candidatos teriam de lidar com cheques e saldos, lutar contra a rigidez do orçamento e, acima de tudo, com um Congresso dividido, no qual Petro tem uma minoria de assentos.

PUBLICIDADE

O populismo não é um bom remédio para as aflições da Colômbia.

Os Editores são membros do conselho editorial da Bloomberg Opinion.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Quais países mais guardaram dinheiro durante a pandemia

Por que a XP decidiu apostar em uma conta digital que nem a dos grandes bancos