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O que o fechamento das lojas da Forever 21 no Brasil diz sobre o varejo no país

Em recuperação judicial nos EUA, rede americana vai encerrar as operações no país e colocará todos os produtos à venda com desconto

Compradores
14 de Junho, 2022 | 06:38 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg Línea — O roteiro é conhecido. Uma marca global de varejo chega ao Brasil com planos ambiciosos de olho em um dos maiores mercados consumidores do mundo. Mas, depois de investimentos e alguns anos com expectativas elevadas, começa a encolher a operação até que decide sair do país. O mais novo protagonista dessa história é a Forever 21, rede americana de varejo fast fashion que anunciou na noite de segunda-feira (13) que vai fechar as portas de suas 15 lojas físicas espalhadas pelo Brasil.

O anúncio da empresa, que está no país desde 2014, veio por meio das redes sociais. A varejista também anunciou a liquidação de todos os seus produtos com pelo menos 50% de desconto.

Ao longo da última década, redes como a espanhola Mango e a britânica Topshop também deixaram o país, citando razões como a carga tributária ou as dificuldades de operar com escala a ponto de diluir os custos. Outras ficam sempre no estágio dos estudos para entrar no país, caso da sueca H&M.

No caso da Forever 21, houve uma combinação de fatores. A empresa enfrenta dificuldades fora do Brasil desde antes da pandemia, que derrubou as vendas em todo o mundo. Em setembro de 2019, entrou com um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos e anunciou o fechamento de suas lojas em diferentes países. Esse foi o gatilho para o encerramento das operações aqui no Brasil, segundo avaliação de Alexandre Machado, head de Delivery de Varejo da consultoria global Bip no Brasil.

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Para ele, foi uma “questão de tempo” até que as consequências da crise global da Forever 21 tenham chegado ao Brasil.

“No processo de recuperação judicial, é comum que a administração precise olhar para as despesas e as operações que não são rentáveis e revisá-las para gerar caixa. O que aconteceu lá fora desencadeou o fechamento das lojas, ainda que no Brasil isso tenha se prolongado um pouco mais”, afirmou.

Somado a essa dificuldade da operação global, o cenário econômico brasileiro com juros elevados e atividade desacelerando também atrapalhou nesta fase mais recente a operação no país.

No ano passado, a Forever 21 foi alvo de diferentes ações judiciais de empresas administradoras de shopping em razão de atrasos no pagamento de alugueis. A Bloomberg Línea entrou em contato com a Multiplan (MULT3) e a brMalls (BRML3), que administram shoppings em que grande parte das lojas da marca americana estavam alocadas, mas ambas preferiram não comentar o assunto.

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Também não foi possível obter contato por telefone com a administração do shopping Rio Sul, no Rio de Janeiro, no qual a Forever 21 enfrentou uma ação de despejo no ano passado.

Crédito faz a diferença

Machado, que é especialista no setor de varejo, destacou o que avalia ser uma diferença fundamental entre a operação da varejista americana no país e as das grandes redes brasileiras: o crédito.

“O acesso ao crédito pessoal e a possibilidade de parcelamento e pagamento facilitado criam vínculos, fidelizam e geram oportunidade de compra. E isso faz toda a diferença no ciclo de consumo do brasileiro”, aponta também Júlia Monteiro, analista fundamentalista da My CAP Investimentos. Monteiro ressalta também que o modelo operacional da Forever 21 e a incapacidade de gerenciamento das demandas do país, como o crédito para o consumo, foram cruciais para a saída da marca do Brasil.

Em um comparativo com outras redes globais de fast fashion que operam no Brasil, como a espanhola Zara, no país desde 1999, Machado lembra que a quantidade de lojas físicas da Forever 21 no país sempre foi limitada. Segundo ele, a rede americana acabou adotando posicionamento mais acima na pirâmide de renda e se concentrou nas classes A e B para tentar fazer, em vão, que o modelo funcionasse no país.

Outras redes de varejo nacionais, como Renner (LREN3) e Riachuelo (GUAR3), operam com crédito ao consumidor, o que atrai clientes de classes com menor renda e muitas vezes fideliza a relação.

“A Forever é uma marca que, como outras, também sucumbiu”, resumiu Machado, em alusão a redes estrangeiras que também deixaram o país nos últimos anos, como a Topshop.

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Melina  Flynn

Melina Flynn

Melina Flynn é jornalista naturalizada brasileira, estudou Artes Cênicas e Comunicação Social, e passou por veículos como G1, RBS TV e TC, plataforma de inteligência de mercado, onde se especializou em política e economia, e hoje coordena a operação multimídia da Bloomberg Linea no Brasil.

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