ESG

Fome na América Latina: o impacto econômico com o aumento da inflação

Desnutrição crônica pode significar perda de até 14 pontos de QI, cinco anos a menos de escolaridade e 54% a menos de renda para um indivíduo

Fila de pessoas por alimentos: desnutrição na América Latina cresceu na pandemia
04 de Junho, 2022 | 07:55 pm
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Línea — O fantasma da fome se fortalece globalmente à medida que os preços dos alimentos continuam subindo. No ano passado, houve um aumento de 25% na insegurança alimentar, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), que espera que a situação “se deteriore ainda mais” neste ano.

O índice de preços de alimentos calculado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já estava próximo do recorde no início do ano como resultado do impacto econômico da pandemia, dos altos custos de fertilizantes e combustíveis, dos efeitos da mudança climática que afetam culturas em países produtores como o Brasil e dos gargalos nas cadeias de abastecimento. A invasão da Ucrânia, um importante fornecedor de grãos e óleo vegetal, acelerou a tendência. Desde então, o índice tem estabelecido sucessivos recordes antes de cair ligeiramente em maio.

Segundo as Nações Unidas, foi essa combinação de fatores (sem contar a guerra) que fez aumentar o número de pessoas em insegurança alimentar de 153 milhões para 193 milhões em 53 países em 2021. O conceito implica que a falta de alimentos representa uma ameaça imediata a suas vidas.

Especialistas apontam que a desnutrição crônica na infância tem consequências irreversíveis que incluem crescimento físico limitado, baixo nível educacional, deficiências cognitivas e produtividade reduzida do trabalho. O problema não se limita a certas regiões do mundo e é prevalecente na América Latina.

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Em termos concretos, qual é o impacto da fome e da desnutrição sobre um indivíduo, um país e uma empresa? Este é o panorama.

Efeitos de pratos vazios no longo prazo

Prejuízo para o setor privado

O nanismo infantil (baixa estatura por idade), indicador-chave de subnutrição, custa ao setor privado em países de baixa e média renda bilhões de dólares em faturamento e ganhos para a força de trabalho.

Um estudo recentemente publicado pela revista The Lancet, que avaliou países incluindo o Brasil, bem como centenas de empresas ao longo de mais de 30 anos e produziu estimativas até 2021, mostra que, em 95 países de baixa e média renda, o nanismo ou a desnutrição crônica custa ao setor privado pelo menos US$ 135,4 bilhões em faturamento por ano.

As empresas das regiões do Leste Asiático e do Pacífico (US$ 65,9 bilhões) e as dos países da América Latina e do Caribe (US$ 46,8 bilhões) são as que sofrem as maiores perdas.

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Os países cujas empresas tiveram as maiores perdas foram China (US$ 57,9 bilhões), Peru (US$ 21,3 bilhões), Brasil (US$ 11 bilhões), México (US$ 8,2 bilhões), Colômbia (US$ 4,2 bilhões), Filipinas (US$ 2,6 bilhões), Vietnã (US$ 2,2 bilhões) e Tailândia (US$ 1,4 bilhão).

Essas perdas para o setor privado são uma proporção significativa do PIB anual de um país. Nesse sentido, o relatório indica que as perdas totais se acumulam entre 0,01% e 1,2% do PIB anual perdido para a desnutrição nos países inclusos no estudo. No entanto, algumas estimativas são mais elevadas, como a do Peru, que atinge 10,1%.

Em todas as regiões, segundo a pesquisa, os setores mais afetados pela desnutrição são a indústria (minerais não-metálicos, metais fabricados e de outros tipos), vestuário e alimentos.

As perdas são maiores para as grandes empresas privadas na América Latina e no Caribe, com mediana regional anual que chega a US$ 91.125, ao passo que na outra ponta do espectro estão as pequenas empresas na África subsaariana (cujo faturamento gira em torno de US$ 421,57).

Prejuízo para trabalhadores

Em termos de renda mensal perdida por indivíduos afetados pela desnutrição, o estudo observa que o prejuízo varia de US$ 2 na Tanzânia a US$ 113 no Brasil. No entanto as perdas podem ser maiores dependendo do setor.

Em geral, o percentual de perda de renda para esses funcionários foi de aproximadamente 15% do total possível. A Ásia Oriental e o Pacífico, seguidos da América Latina e do Caribe, tiveram as maiores perdas de renda total mensal para a força de trabalho.

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“Foi demonstrado que crianças cronicamente desnutridas podem ter 14 pontos a menos de QI, cinco anos a menos de escolaridade e 54% menos renda, se olharmos os estudos da The Lancet e Maternal & Child Nutrition”, disse Juan Carlos Buitrago, diretor da Associação de Bancos de Alimentos da Colômbia (Abaco), à Bloomberg Línea. Isto representa uma “drenagem de capital social em um mundo no qual precisamos de pessoas mais saudáveis e mais inteligentes”, diz ele.

Prejuízo para países

Por sua vez, o Banco Mundial diz que até 2020 149 milhões de crianças sofriam de nanismo, resultando não apenas na incapacidade de atingir seu potencial genético em termos de altura e construção física mas também em limitações de seu desenvolvimento cognitivo. Isso implica ter menos oportunidades e renda no futuro, o que acaba afetando as economias dos países.

Buitrago aponta que a pesquisa da Abaco mostrou que “uma família pobre demora onze gerações” para quebrar o ciclo de vida em condições vulneráveis. Ele insiste que isso pode levar a uma perda significativa do PIB de um país. De fato, o Banco Mundial diz que os custos econômicos da desnutrição para a sociedade da chegam a US$ 3 trilhões por ano devido à queda na produtividade, variando de 3 a 16% ou mais do PIB de países de baixa renda.

Sara Méndez, do comitê de nutrição da Abaco, ressalta que o combate ao retardamento do crescimento na infância poderia reduzir os custos governamentais relacionados aos cuidados de saúde necessários para tratar a desnutrição ou doenças associadas, custos de educação devido aos anos de repetição escolar pela redução da capacidade de aprendizagem. Combater a desnutrição também pode reduzir a perda da capacidade produtiva.

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Isso também significa economia para empresas privadas, diz ele. “A desnutrição traz custos às empresas privadas que precisam deslocar pessoas de uma área para outra (do país) porque em zonas com altos níveis de desnutrição não há trabalhadores capazes de realizar as tarefas exigidas pelas empresas, e isto também afeta o desenvolvimento das áreas e perpetua o ciclo de pobreza”, diz ele.

E na América Latina?

Segundo um relatório da FAO e do Programa Alimentar Mundial, publicado no início de maio, 12,76 milhões de pessoas estão em “situação de crise ou pior” em cinco países da América Latina e do Caribe – El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras e Nicarágua. Isso representa um aumento de um milhão de pessoas em relação ao ano anterior.

Desses cinco países, o Haiti tem a maior crise alimentar da América Latina e do Caribe. O país responde por quase um terço do total: 4,4 milhões de pessoas. A Guatemala está em segundo lugar com 3,73 milhões de pessoas em situação de fome, seguida por Honduras, com 3,29 milhões, e El Salvador com 985 mil. Na Nicarágua, as agências estimam cerca de 400 mil pessoas com fome.

Em 2020, a fome na região atingiu níveis não vistos em duas décadas. De 2019 a 2020, o número de latino-americanos sem acesso a alimentos suficientes aumentou em 13,8 milhões, chegando a 59,7 milhões, de acordo com a ONU. A prevalência da fome na região atualmente é de 9,1%, a mais alta em 15 anos.

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“É preciso dizer alto e bom som: a América Latina e o Caribe estão enfrentando uma situação crítica de insegurança alimentar”, disse Julio Berdegué, representante regional da FAO, em um comunicado à imprensa sobre o estudo. “A fome aumentou quase 70% entre 2014 e 2020″, disse.

Investimentos no combate à desnutrição

De acordo com a Abaco, as apostas na melhoria da nutrição de um país são econômicas e têm as maiores taxas de retorno entre os projetos sociais. Cada dólar investido em programas que impedem a desnutrição crônica rende cerca de US$ 18 à sociedade.

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Segundo o Banco Mundial, os retornos para cada dólar investido no combate à desnutrição vão de US$ 4 no caso do combate à desnutrição aguda, US$ 11 para programas contra o nanismo, US$ 12 pelo combate à anemia e até US$ 35 para amamentação exclusiva, fundamental para combater a desnutrição infantil.

Enquanto o estudo da The Lancet aponta que investir em intervenções contra o nanismo gera retornos de US$ 2 a US$ 81 por dólar investido anualmente – ou 100% a 8.000% em todos os países.

“Somente trabalhando juntos poderemos superar as terríveis consequências desse mal para o pleno desenvolvimento das pessoas e para a economia do país”, diz Buitrago.

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--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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Leidys Becerra (BR)

Leidys Becerra (BR)

Jornalista colombiana com experiência na cobertura de temas locais e internacionais e na geração de conteúdo digital. Foi redatora de notícias da Univision, com passagens pelas redações dos periódicos colombianos El Tiempo e da Semana

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