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Revolut quer absorver o talento tech demitido por unicórnios brasileiros

Em entrevista exclusiva à Bloomberg Linea, CEO da fintech britânica no Brasil falou sobre os planos da empresa de crescer na América Latina

O aplicativo financeiro Revolut. Divulgação/Revolut
05 de Maio, 2022 | 12:38 pm
Tempo de leitura: 8 minutos

Buenos Aires — No final de abril de 2022, os usuários argentinos da Play Store e App Store foram surpreendidos com o aplicativo Revolut, uma fintech britânica avaliada em US$ 33 bilhões e com atuação em mais de 30 países, que começou a dar seu primeiros passos na região.

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Após a contratação de country managers no México e no Brasil, juntamente com suas respectivas equipes, a equipe de expansão da empresa continua olhando de perto os demais mercados da América Latina, visando uma eventual decisão de lançamento em cada país da região.

“Queremos nos tornar o super app financeiro global, e a América Latina não pode ficar de fora dessa abordagem de complementar todos os outros mercados”, aponta Glauber Mota, CEO da Revolut no Brasil, em conversa com a Bloomberg Línea.

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Dentro dessa dinâmica de planejamento, foi disponibilizada uma lista de espera para medir o interesse na Argentina, mas também em outros países da região, assim como já havia acontecido nos Estados Unidos e na maior economia da América do Sul. Em questão de horas, mais de 10 mil argentinos se inscreveram nessa lista.

Por enquanto, o foco da empresa fundada em Londres por Nikolay Storonsky por Vlad Yatsenko‎ permanece no Brasil e no México, mercados onde vê grandes oportunidades devido à maturidade fintech nos dois países, e também devido à sua grande capacidade financeira que permitirá manter o foco no crescimento, enquanto muitos de seus concorrentes se ajustam a um novo cenário global de taxas de juros mais altas.

“Esses unicórnios locais que estão demitindo pessoas significam uma fonte mais ampla de talentos para nossa fase de crescimento”, diz Mota, confiante, afirmando que “QuintoAndar, Facily e outros acabam de lançar muito talento tecnológico no mercado, e certamente estamos entrevistando e contrataremos alguns deles.”

Acompanhe a entrevista abaixo, editada por questões de extensão e clareza.

Bloomberg Línea: Vocês contrataram pessoas na América Latina fora do México e do Brasil?

Mota - No momento apenas nesses dois países. Todo o resto que estamos visando, seja com uma lista de espera ou qualquer outra iniciativa local na América Latina, são exatamente os mesmos passos que foram realizados para o Brasil e o México antes. O primeiro passo é abrir uma lista de espera para perceber o interesse do mercado na Revolut, antes mesmo de ter planos específicos para estabelecer operações locais.

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Bloomberg Línea: Para ser claro, os únicos dois mercados que estão 100% confirmados para ter uma data de lançamento são o México e o Brasil?

Mota - Exatamente.

Bloomberg Línea: Por que a Revolut está chegando à América Latina agora, considerando que a região já possui um grande número de fintechs que começaram a operar anos atrás?

Mota - É uma combinação de três fatores. A primeira é exatamente aquela oportunidade que você mencionou. Algumas empresas veem um desafio em lugares que já possuem vários players fazendo um bom trabalho e dominando o mercado. Mas esta é uma tendência positiva em termos de adoção digital. As últimas pesquisas a que tivemos acesso no Brasil e no México mostram que o número de pessoas que estão usando bancos digitais como contas principais vem aumentando muito. No caso do Brasil, quase 40% das pessoas possuem pelo menos uma conta digital que utilizam para suas atividades diárias. Isso significa que as barreiras à entrada que tínhamos há alguns anos agora são menores.

A tecnologia também evoluiu muito, facilitando muito a configuração de uma nova plataforma em um novo local e a adaptação aos requisitos regulatórios locais. Existem agora muitos fornecedores de produtos como serviço e a Revolut aprendeu muito com a expansão para outras geografias. Agora é mais fácil do que nunca ganhar uma posição madura nos mercados. E, finalmente, nestes locais da América Latina, identificamos o vínculo entre a experiência que a Revolut tem com seus produtos e sua complementaridade com os mercados mais negligenciados para operações locais.

O Nubank é considerado uma das maiores fintechs do mundo, mas ainda está muito focado em seu produto de cartão de crédito e tentando penetrar em outros. Também permanece muito local, apesar de suas iniciativas no México e na Colômbia, e sua base de clientes está centrada na base da pirâmide populacional. Isso significa que temos uma posição complementar, pois nos especializamos em produtos de viagem.

O câmbio é de longe a maior força em mercados maduros como a Europa, e há muita demanda em mais mercados emergentes, com um produto que tem sido amplamente negligenciado na região. As remessas no México ainda são mal atendidas e há muito espaço para uma boa experiência do cliente. E no Brasil, as pessoas continuam indo às casas de câmbio para trocar dinheiro antes de viajar, ou usando cartões de crédito com altas taxas e comissões.

Bloomberg Línea: Qual é o objetivo principal da Revolut como uma empresa global?

Mota - Queremos nos tornar o super app financeiro global, e a América Latina não pode ficar de fora dessa abordagem de complementar todos os outros mercados.

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Bloomberg Línea: Em quantos países foram lançadas listas de espera na América Latina?

Mota - Eu não tenho o número, mas acho que é a maioria dos principais mercados. Na verdade eu não sabia que a Argentina já tinha lista de espera, porque a equipe de expansão trabalha no mundo todo fazendo isso. Pode acontecer nas Filipinas, em outros lugares do mundo também. Colômbia, Chile e Argentina seriam meus palpites.

Bloomberg Línea: A maioria das carteiras digitais, bancos digitais e fintechs em geral ainda estão em fase de penetração, com investimentos pesados em marketing e rentabilidade praticamente inexistente. Qual é a prioridade da lucratividade hoje para a Revolut como empresa e a que distância você está de alcançá-la na América Latina?

Mota - Os últimos números públicos são de 2020 ainda. Os resultados de 2021 estarão disponíveis muito em breve, provavelmente. A tendência que se observa desde 2015 até aos números públicos mais recentes é que a diversificação das fontes de rendimento tem sido uma prioridade para a Revolut. Um terço são pagamentos, uso de cartão em todos os lugares, outro terço são atividades de riqueza e investimento, incluindo ações e criptomoedas.

E cerca de um terço vem de assinaturas dos diferentes planos que a Revolut possui. Muitas outras coisas, como seguros ou serviços de reserva de hotel, são adicionadas a essa tendência, a caminho do ponto de equilíbrio. E, claro, preparando a empresa para o próximo estágio de crescimento. Os mercados mais maduros se concentram em vendas cruzadas e lucratividade. Para mercados em expansão, é claro, há uma curva de penetração antes de chegar a isso. A gestão da Revolut está abrandando o caminho para a rentabilidade precisamente para continuar a expansão global. Talvez a recompensa seja maior se continuarmos indo rápido em vez de buscar rentabilidade no curto prazo.

Bloomberg Línea: Então, apesar do cenário global de taxas de juros mais altas e menos liquidez, a Revolut continuará focada no crescimento? No Brasil, vimos muitos unicórnios da tecnologia demitirem trabalhadores nas últimas semanas.

Mota - Estamos em uma boa posição para conseguir isso. Na verdade, para nós, esses unicórnios locais demitindo pessoas significam uma fonte mais ampla de talentos para nossa fase de crescimento. E somos bem diversificados em todos os lugares, em todo o mundo, o que significa que podemos nos dar ao luxo de estar em diferentes estágios em diferentes lugares. QuintoAndar, Facily e outros acabaram de liberar muitos talentos de tecnologia no mercado, e certamente estamos entrevistando e contratando alguns deles.

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Bloomberg Línea: Quais considera serem os principais obstáculos para se poder posicionar nestes mercados?

Mota - O Brasil é um lugar muito especial para nós porque é um mercado maior. O pool de talentos é bom e temos grandes planos aqui. Mas ainda não somos uma marca conhecida localmente. Somos reconhecidos no exterior, por sermos um dos primeiros na Europa a fazer um produto diferenciado, com uma abordagem membro a membro que funcionou muito bem. Minha inspiração no meu trabalho anterior [BTG Pactual], onde lançamos um banco digital, foi a Revolut. Eu os visitei em 2019 para entender como eles fazem as coisas. Ainda estamos planejando como investir para nos posicionarmos, talvez por meio de associações com canais de distribuição locais. O núcleo do nosso produto se concentrará inicialmente em viagens e e-commerce. E então entraremos em mais produtos como crédito.

Bloomberg Línea: Quantas pessoas a Revolut contratou na região até agora?

Mota - Eu posso falar sobre minha própria equipe. Já temos 15 pessoas e estamos crescendo muito rápido. Há um mês, quando anunciamos nossa chegada, éramos 10. E a Revolut também tem muitos brasileiros trabalhando para a equipe global, do Brasil. Também vamos construir um centro de tecnologia para a América Latina no Brasil, que atenderá toda a região, com engenheiros e pessoal de produto. São Paulo foi escolhida por seu conjunto de talentos.

Bloomberg Línea: Você tem datas de lançamento no Brasil ou no México?

Mota - Não há datas específicas, mas será lançado no início do segundo semestre do ano, então provavelmente em julho ou agosto. Para os clientes maiores em nossa lista de espera no Brasil, será mais para o quarto trimestre, e visando um lançamento antes da Copa do Mundo.

Bloomberg Línea: Quais são os fatores que vão determinar se a Revolut deve ou não ser lançada em outros países da América Latina?

Mota - Certamente é uma mistura entre a atenção que a Revolut decide dar a esse mercado -México e Brasil foram escolhidos como os locais para colocar todo o esforço neste momento- e a demanda pelo produto. É claro que o ambiente regulatório e o conjunto de talentos também contam como os próximos passos de uma decisão. Além disso, o Brasil se tornou um lugar que incentiva a chegada de novos concorrentes, por isso a maturidade dos mercados também é importante.

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Bloomberg Línea: Qual será a importância das criptomoedas para a Revolut na região?

Mota - Sem dúvida, está nos nossos planos no Brasil, porque há muita demanda. A Revolut tem uma forma fácil e segura de dar aos clientes acesso a criptomoedas. No meu trabalho anterior, eu também estava construindo uma plataforma de criptomoedas, e a Revolut também era o modelo que eu estava seguindo. Vamos lançar a conta global primeiro, mas a criptomoeda certamente virá.

Depois, há a nova economia, ou o novo banco, com Web 3.0, soluções blockchain e as possibilidades de finanças descentralizadas. Há muito por vir. O que posso confirmar é que Nikolai Storonski [co-fundador da Revolut] disse à Reuters recentemente que este é um tópico importante para a Revolut e que está fazendo com que as pessoas pensem mais profundamente sobre isso no Reino Unido. Tudo o que eles construírem lá, nós vamos aproveitar na região também. E localmente, estou me certificando de contratar pessoas com alguma experiência em cripto, porque mais cedo ou mais tarde isso será importante para nós. Em nossa equipe de compliance, contratei pessoas que vêm do Mercado Bitcoin, por exemplo. Mas também estou procurando perfis técnicos com recursos em blockchain e contratos inteligentes.

Esta matéria foi traduzida por Isabela Fleischmann, repórter de tech da Bloomberg Línea

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Francisco Aldaya

Francisco Aldaya (BR)

Jornalista argentino com 10 anos de experiência. Francisco cobriu o setor financeiro da América Latina na S&P Global Market Intelligence e também trabalhou nas seções de economia e política do Buenos Aires Herald. Ele também contribuiu para o Buenos Aires Times.