Espanha e Portugal beneficiados por teto no preço da energia
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Bloomberg Opinion — Espanha e Portugal tiveram uma vitória diplomática com uma nova estratégia para rebater o aumento nos preços de energia elétrica. Não contra a Rússia de Putin, que está pressionado pelos europeus importadores de gás, mas em oposição a seus próprios parceiros: a União Europeia.

No curto prazo, a decisão protegerá os consumidores da Espanha e Portugal, cuja indignação a respeito da inflação ficou evidente durante os protestos nas ruas no 1º de maio. Mas no longo prazo, o acordo poderá acarretar rupturas visíveis para a UE.

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Os dois países receberam na semana passada uma “Exceção Ibérica” que desagrega o preço da energia na península, que tem amplo acesso a fontes de energia renováveis, do custo cada vez maior do gás natural, do qual depende o restante do Bloco. O preço máximo de até 50 euros (US$ 52,55) por megawatt-hora será reduzido pela metade nas contas de energia, resultando em 40% para os consumidores na península. O Primeiro-Ministro de Portugal, Antonio Costa, chamou de “grande conquista”.

À primeira vista, essa medida – apresentada como ferramenta “temporária” de emergência – não é diferente dos bilhões de euros gastos por diferentes economias europeias para proteger consumidores e empresas europeias vulneráveis da alta de energia pós-covid. Isto revela divisões e tensões mais profundas dentro da UE, enquanto o Bloco se esforça para manter uma posição unificada contra a Rússia.

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Por um lado, trata-se de um freio no esforço da UE para unificar os mercados de energia, em um contexto em que os reguladores estão defendendo ajustes como estratégias de hedging ou vouchers, no lugar de intervenções mais radicais. Isto faz com que a península seja transformada em uma “ilha de energia”, apartada do resto da União. Espanha e Portugal têm uma baixa interconexão com o mercado da UE e com este movimento, em termos de integração, significa um retrocesso de anos.

A exceção ibérica também destaca a reorganização sobre a dinâmica de poder dentro da UE, enquanto a influência do “modelo” econômico da Alemanha é enfraquecida pela sua dependência dos preços do gás russo barato. Bruxelas está presenciando o aumento da liderança francesa. Já Espanha e Portugal, antes ridicularizadas como economias do estereótipo “Club Med”, podem ver seu crescimento pós-covid se recuperar e ganhar destaque no continente, hoje presenciando uma desaceleração devido à interrupção de energia partindo da Rússia.

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“Redefinir a divisão Norte-Sul com base na energia pode ter ramificações profundas”, diz Ramon Mateo Escobar, diretor da consultoria BeBartlet. “Se os preços da energia ibérica forem reduzidos artificialmente em comparação ao de seus vizinhos”, diz ele, “o investimento e os negócios podem também mudar em função disso”. Espanha e Portugal poderiam usar essa influência para estimular os outros países a exerceer pressão no sentido de um estímulo fiscal intensificado na forma de fundos da covid — modelo promovido pela nova dupla de poderio da UE, Itália e França.

A visão otimista é que a exceção ibérica poderia ser um exemplo de iniciativas para a UE. A Espanha quer ter um papel mais significativo nas fontes alternativas de energia, incentivando o investimento em energias renováveis e armazeamento. Os dois vizinhos ibéricos podem liderar a economia de energia, bem como subsidiá-la, ao defender edifícios energeticamente eficientes, por exemplo.

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Mas os riscos no longo prazo aumentaram. Os consumidores estão anestesiados pelo custo da guerra de Putin. Subsídios como esse serão difíceis de remover. Se isso significa o início de uma maior autonomia por parte dos membros da UE, Putin também pode encontrar facilidade em dividir para dominar como resultado disso, de acordo com Simone Tagliapietra, de Bruegel, um think tank de Bruxelas. As rachaduras na unidade relativa às sanções já estão aparecendo.

Como a tempestade de energia provavelmente não vai diminuir em breve, uma integração mais próxima da UE e gastos conjuntos seriam uma plataforma útil. Dada a tarefa que a Europa enfrenta, desde o custo reformular alianças energéticas até o aprimoramento de sua capacidade de se proteger militarmente, será difícil encontrar abrigo nas ilhas de energia.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Lionel Laurent é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre a França e a União Europeia. Já trabalhou para a Reuters e a Forbes.

– Esta coluna foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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