Há coisas ‘que tiram mais o sono’ do que queda da ação, diz CEO da GetNinjas

Eduardo L’Hotellier, CEO da GetNinjas, é um dos executivos de tecnologia que viu sua fortuna pessoal diminuir com o market cap da companhia

Para o CEO da GetNinjas, Eduardo L'Hotellier, bolsa brasileira ainda não está preparada para empresas de tecnologia
29 de Março, 2022 | 08:00 PM

Bloomberg Línea — Com um valor de mercado girando em torno de R$ 200 milhões, a GetNinjas (NINJ3) é uma das empresas de tecnologia do Brasil que sofreu com a volatilidade do mercado de capitais e aumento da taxa de juros.

No balanço do quarto trimestre de 2021, a empresa disse que teve uma alta nas vendas (Gross Merchandise Value) em 54% em comparação com 2020, atingindo R$ 1,5 bilhão.

  • A receita líquida subiu 49% em 2021 contra 2020, chegando a R$ 62 milhões, sendo R$ 15 milhões apenas no último trimestre do ano passado.
  • A empresa fechou o ano com um lucro bruto de R$ 57 milhões (crescimento de 49% em relação a 2020), com R$ 14 milhões no último trimestre.
  • Mas o prejuízo também aumentou para R$ 41 milhões em 2021, sendo R$ 6,9 milhões só no último trimestre do ano passado.

Fundadores e participação nas próprias empresas

A cofundadora do Enjoei.com (ENJU3), Ana Luiza McLaren, é a maior detentora dos papéis da própria empresa. O CEO e parceiro de McLaren, Tiê Lima, está na terceira posição em termos de ownership. Situação similar a da Méliuz (MELI3), que tem o CEO, Israel Salmen, e o cofundador Ofli Campos Guimarães como os maiores acionistas.

O que todos eles têm em comum? Quando no IPO a ação da GetNinjas foi precificada a R$ 20 e chegou a ultrapassar os R$ 25, o CEO Eduardo L’Hotellier, maior detentor das ações da empresa, seguido pela Monashees, viu sua fortuna pessoal aumentar. Agora, com McLaren e Salmen, L’Hotellier está menos rico.

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Hoje, com Ebitda negativo, o executivo disse em entrevista à Bloomberg Línea, que é “doloroso” e “ruim” a desvalorização do papel, mas que há outras coisas que “tiram mais o sono” do que o preço da ação.

“Não acho que a gente foi genial quando a ação saiu de R$ 20 para R$ 26, mas também não acho que a gente foi imbecil quando a ação saiu de R$ 26 para R$ 4″, disse L’Hotellier.

A GetNinjas foca na gig economy, conectando provedores de serviço (profissionais autônomos ou microempresas) em uma plataforma, como se fosse um “classificados’”. O profissional investe um valor comprando um pacote de créditos na plataforma, que é usado para entrar em contato com o cliente. Cada cliente recebe até três orçamentos dos serviços oferecidos.

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Veja abaixo trechos da entrevista com o CEO da GetNinjas:

Bloomberg Línea - Vimos uma queda dos papéis da GetNinjas, chegando a R$ 4, e um Ebitda negativo. A que você atribui a isso?

Eduardo L’Hotellier - Eu acho que o principal motivo é a taxa de juros. Empresas de tecnologia, como a GetNinjas, e assim como outras empresas que foram à bolsa, foram com uma tese de que vamos investir na nossa tecnologia, vamos investir no nosso marketing, vamos ganhar mercado para depois dar lucro. É um caminho que a gente vai breakevando, equilibrando as contas desde agora. Então vamos acelerar um pouco mais para ter um retorno maior.

Com juros a 2%, muitos investidores estavam aptos a comprar teses de growth, mas com juros maiores essa lógica acaba se invertendo um pouco. No lucro futuro a taxa de desconto aumenta, sendo maior, ela acaba impactando o valuation da companhia.

Acho que existe um outro fator que é a liquidez. Essas empresas, a GetNinjas e seus pares, são empresas low caps. Elas possuem menos papéis negociados por dia na bolsa. Empresas de baixa liquidez possuem uma porta de saída um pouco mais curta.

Então, em momentos de grande volatilidade do mercado, onde diversos fundos de investimento tiveram que atender resgate, quando eles vendem suas posições, como tinha menos comprador para essas empresas, qualquer venda, por menor que seja, acaba influenciando muito o papel. Você entra em uma espiral negativa. Tanto na bolsa brasileira como nas americanas, as empresas small caps sofreram mais do que empresas maiores.

Empresas de alto crescimento, que tem uma aposta maior no lucro futuro em detrimento de uma rentabilidade presente, sofreram ainda mais. Tivemos esse double hit: uma empresa que ainda não dá lucro e é small cap. Por isso que a gente acredita que uma parte do preço seja composta desses dois fatores.

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Bloomberg Línea - Você continuou tendo a maior parte da empresa. Essa queda do valor de mercado da GetNinjas também afetou suas fortunas pessoais?

L’Hotellier - Eu não estou vendendo minha ação agora. Nos últimos meses até comprei um pouco mais de ações. É claro, é doloroso ver a queda, mas eu acredito muito ainda no futuro na companhia. Não acho que a gente é genial quando a ação saiu de R$ 20 para R$ 26, mas também não acho que a gente foi imbecil quando a ação saiu de R$ 26 para R$ 4.

A gente entende que tem uma movimentação do mercado que não temos total controle. Acredito que no longo prazo as coisas acabam chegando no seu preço justo. Eu espero que seja bem maior do que o que a gente tem hoje.

Acho que tem outros problemas que me tiram mais o sono, como o dia a dia e o operacional continuarem crescendo, continuar construindo a companhia. Isso me tira muito mais o sono do que a cotação do papel.

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Tento me policiar para ver o preço só no final do dia. Mas é ruim.

Ao mesmo tempo, se a ação estivesse valendo R$ 20, eu iria estar trabalhando do mesmo jeito, no mesmo local, da mesma forma. Então, no final do dia, acho que construindo um bom negócio e continuando trabalhando, o resultado vai vir. Isso não pode subir a cabeça nos bons momentos, mas também não podemos baixar a cabeça nos momentos em que as ações não estão performando tão bem.

São duas coisas diferentes. Espera-se que as duas coisas andem juntas (a companhia e as ações performando bem) mas em mercados mais voláteis como de hoje, não necessariamente as duas coisas andam na mesma direção no médio prazo. No longo prazo elas acabam se encontrando.

Bloomberg Línea - Você acha que para empresas de tecnologia, abrir capital na bolsa brasileira é mais desafiador?

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L’Hotellier - Acredito que sim. Eu acho que o investidor brasileiro ainda está aprendendo a investir em empresas de tecnologia. Ainda existem poucas empresas de tecnologia realmente vencedoras aqui no Brasil. Faltam grandes histórias de tecnologia no Brasil.

Locaweb e Magazine Luiza estão construindo, apesar de alguns altos e baixos na sua história, mas ainda faltam alguns cases mais vencedores na bolsa.

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E acredito que essa nossa geração vai construir alguns desses cases e outros ainda vão surgir. Eu espero que daqui a 10 anos o Brasil seja um país onde tecnologia represente mais o nosso PIB, mais a nossa bolsa, do que hoje as commodities estão representando. Podemos ter um mercado de capitais muito mais avançado do que temos hoje.

Bloomberg Línea - Acha que leva tempo para os investidores fazerem essa transição de commodities para tecnologia?

L’Hotellier - Leva tempo, leva bons exemplos de empresas que construíram uma história. Também precisa de uma segurança do País, já que a volatilidade e a taxa de juros leva a um rentismo maior. É uma questão cultural, mas que vai ser vencida. Nos últimos anos conseguimos trazer muita gente para investir em renda variável e ver que renda variável é um mecanismo excelente de formação de patrimônio.

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Quando eu me formei, todo mundo queria ser funcionário público. Hoje, os jovens querem empreender ou trabalhar nas melhores startups. Esses jovens de hoje são pessoas que estarão investindo sua renda e essa mudança cultural vai acontecendo. Acho que a gente está fazendo nossa parte para isso acontecer, pegamos uma janela boa, um momento bom de mercado quando a gente fez o IPO. Agora acho que não está sendo um momento bom, mas acho que logo as coisas voltam aos seus trilhos.

Bloomberg Línea - Qual a perspectiva de crescimento da GetNinjas?

L’Hotellier - A gente vem crescendo nossa operação em valores animadores. É um mercado de R$ 1 trilhão em que a GetNinjas movimenta um pouco mais de 0,1%. Temos uma oportunidade muito grande de crescimento, assim como o food delivery cresceu nos últimos anos, acreditamos que a cotação de serviços também vai acelerar muito nos próximos anos. O profissional está online e ele quer segurança.

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Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups