Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença no dia-a-dia dos pacientes com câncer
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Bloomberg Opinion — No terceiro ano da pandemia, estamos começando a discernir o quadro geral dos danos da covid-19. Por baixo do número impressionante de mortos do coronavírus e do sofrimento que a pandemia infligiu, há muitas camadas de danos colaterais. Um dos maiores deles é o efeito negativo da covid na prevenção e no tratamento do câncer.

Os pacientes com câncer estão entre os mais vulneráveis a pegar covid e, se expostos, são muito mais propensos do que outras pessoas a acabar no hospital ou ir a óbito. Eles também estão entre os menos propensos a se beneficiar das vacinas, porque o tratamento do câncer enfraquece a resposta imune.

É por isso que, como diz Welela Tereffe, diretora médica do MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, “os pacientes com câncer confiam que todos os outros também estão fazendo a sua parte” para manter o vírus sob controle.

Mas nem todos fizeram sua parte em relação a se vacinar e ajudar a retardar a propagação do coronavírus. Além disso, as ondas de infecções pressionam os hospitais e seus funcionários, interrompem exames de rotina e fazem com que os centros de câncer se esforcem além da rotina para garantir um atendimento contínuo.

Tudo isso teve um grande custo para o bem-estar físico e emocional de pacientes com câncer e suas famílias – algo que foi um grande alívio para mim em outubro, quando meu sogro entrou no hospital com fortes dores e saiu dois dias depois, mesmo sendo um paciente com câncer pancreático.

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Um médico deu o diagnóstico sombrio na manhã depois que meu sogro passou a noite em um corredor – o hospital estava lotado de pacientes com covid – sem membros da família ao lado dele para ajudar a absorver o golpe.

A pandemia também submeteu pacientes com câncer a muitas indignidades diárias. Têm sido difícil ter acesso a todos os medicamentos prescritos com farmácias fechadas devido à falta de pessoal. Os tempos de espera têm sido longos para consultas com conselheiros que podem ajudar os pacientes a processar um diagnóstico difícil. Testes e procedimentos foram adiados porque os recursos estão sobrecarregados.

O ônus mais quantificável da covid no tratamento do câncer tem sido seu efeito na triagem. Apenas no primeiro semestre da pandemia, de janeiro a julho de 2020, 10 milhões de testes de triagem foram perdidos, de acordo com um relatório recente da American Association for Cancer Research. Os novos diagnósticos de câncer, por sua vez, caíram 13% em 2020, de acordo com um estudo recente do sistema de saúde Veterans Affairs.

E o atraso persiste. Algumas pessoas continuam relutantes em fazer consultas médicas preventivas porque estão preocupadas com o risco de exposição à covid. E uma vez que uma colonoscopia ou mamografia de rotina é adiada, os médicos sabem, é muito fácil continuar deixando para depois. O perigo é que, quando as pessoas finalmente fizerem os exames atrasados, seus resultados tenderão a mostrar cânceres mais avançados.

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A questão agora é se a infraestrutura de saúde será robusta o suficiente para lidar com uma onda de novos pacientes com câncer. A covid esgotou s profissionais da saúde. Nos últimos dois anos, cerca de 20% dos profissionais de saúde americanos deixaram o campo, segundo a Morning Consult.

Esse desgaste terá um efeito desproporcional na saúde dos pacientes no longo prazo, diz Tatiana Prowell, professora associada de oncologia da Johns Hopkins Medicine. Sem uma maneira rápida de recuperar a perda na força de trabalho, Prowell teme que seus pacientes acabem piorando nos próximos anos.

Para reconstruir os sistemas de apoio à prevenção e tratamento do câncer, a comunidade oncológica deve se basear em algumas das práticas adotadas durante a pandemia, incluindo abordagens mais centradas no paciente, que facilitem o acesso de mais pessoas a cuidados de alta qualidade. Durante a covid, a telemedicina tornou-se mais amplamente aceita para o tratamento do câncer em muitos lugares. Os participantes de ensaios clínicos foram autorizados a assinar formulários de consentimento remotamente, fazer testes e exames de rotina em seus próprios bairros, fazer consultas virtualmente com seus oncologistas e receber medicamentos experimentais diretamente em suas casas.

Essas pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença no dia-a-dia dos pacientes com câncer e de suas famílias. A telemedicina significou que, em suas últimas semanas, meu sogro não gastava sua energia limitada para chegar ao consultório médico, e toda a sua família poderia estar com ele para ouvir seu oncologista ou equipe de cuidados paliativos.

Mudanças como essas podem melhorar o acesso aos cuidados de saúde para os menos favorecidos, para as pessoas que vivem em áreas rurais e para as comunidades de pessoas negras. Quando um centro de câncer está a algumas horas, ou mesmo uma viagem de avião, de distância, ou um paciente não tem apoio para os cuidados de seus filhos ou não pode faltar ao trabalho, um bom tratamento muitas vezes fica fora de alcance.

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Depois que a pandemia diminuir, a comunidade do câncer pode ficar tentada a voltar aos velhos hábitos. Hospitais e centros de câncer não devem apenas resistir a esse desejo, mas também devem continuar pressionando por mais e melhores maneiras de democratizar o acesso aos cuidados.

A revitalização da infraestrutura de saúde é uma parte necessária desse objetivo – e ajudará a garantir que futuros pacientes não paguem o preço da pandemia.

– Esta notícia foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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