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Venture capital: Volatilidade afeta receita, mas crescimento de startups compensa

A Bloomberg Línea reuniu visões do ecossistema para 2022 de alguns dos investidores de destaque no capital de risco da América Latina

Fundos levantados em 2021 superaram quantias dos anos anteriores combinados
26 de Fevereiro, 2022 | 02:19 pm
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Línea — Em comparação com os negócios globais que a QED Investors faz, Mike Packer, sócio da empresa de capital de risco, disse que, no balanço, os múltiplos de receita na América Latina são mais baixos devido à volatilidade implícita e às questões cambiais.

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Ainda assim, na opinião dele, as empresas latino-americanas crescem mais rápido do que outras, principalmente devido à dinâmica do mercado. “Vimos isso algumas vezes compensado por um crescimento que pode ser maior do que em outros mercados. É muito difícil de generalizar.”

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A declaração foi feita durante a Conferência 2022 da LABA (Latin America Business Associations), realizada na sexta-feira (25), sobre capital de risco na América Latina, em um painel onde investidores debateram as mudanças vistas com o tempo no ecossistema. No princípio, os empreendedores de sucesso da América Latina costumavam estudar no exterior e não tinham interesse em voltar para a região. Agora, eles estão voltando e construindo unicórnios.

Sergio Monsalve, sócio fundador da Roble Ventures, acrescenta que com a pandemia muita gente foi para Miami fazer negócios, mas outras começaram a voltar para a América Latina. Ele disse que o mais diferente de investir na região é que os empresários não vão apenas copiar um modelo de empresa dos Estados Unidos. Algumas das empresas mais interessantes não são imitadoras. “Para ter sucesso na região, essas startups precisam criar verdadeiras empresas criativas”, disse.

Foi por isso que o Mercado Livre se saiu muito melhor do que seu par americano, o eBay, segundo ele. O MeLi se especializou em atender latino-americanos. Mariana Donangelo, sócia da Kaszek, diz que no início as empresas latino-americanas precisavam ser capazes de lidar com a logística e fazer pagamentos se quisessem operar um e-commerce.

A necessidade de resolver os problemas locais de infraestrutura para construir negócios na região fez com que esses empreendedores tivessem sucesso, segundo ela. “Agora os empresários estão mais preparados e têm muito mais experiência em tecnologia”, afirmou, explicando por que algumas rodadas que tinham tickets de Série A agora são tratadas como Seed. “É apenas um sinal de maturidade do ecossistema.”

Já para Packer, a enorme quantidade de atividade de capital na região em 2021 mudou o ecossistema e continuou a impulsionar negócios de estágio inicial. Ele diz que a QED não faz um tratamento especial para seus investimentos na América Latina, porém, a região tem algumas diferenças importantes em relação à dinâmica de mercado, já que a regulamentação dos serviços financeiros “muda extremamente rápido”.

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Novo capital para nova geração de fundadores da América Latina

O investidor-anjo americano Kevin Efrusy lembrou que no início de 2012 o ecossistema não era tão robusto e estava mais focado no Brasil. Ele também destacou que a primeira geração de negócios no maior país da América Latina era “um pouco diferente” em termos de padrões de compliance antes do escândalo da Lava Jato no país.

“No início houve uma mudança por conta da corrupção. Tivemos que encerrar o ecossistema. Acho que, de certa forma, até hoje a liderança anterior não entendia muito bem por que estávamos tão chateados. Uma vez perguntei a um amigo brasileiro que fazia negócios no governo, quantos grandes contratos governamentais são feitos com propina, e ele disse que era praticamente 100%.”

Francisco Alvarez-Demalde é cofundador da Riverwood Capital, uma empresa de capital de risco de 14 anos que começou a investir em tecnologia de crescimento há 12.

“Temos investido na América Latina desde o primeiro dia”, diz Alvarez-Demalde, em entrevista à Bloomberg Línea. “Apesar de sermos uma empresa global, a América Latina tem sido nosso foco, onde temos investido uma porcentagem relevante de nossos recursos”. Recentemente, a Riverwood liderou uma rodada de US$ 92 milhões na Gupy, HRTech brasileira que usou o montante para adquirir sua concorrente, a Kenoby.

Na última década, a Riverwood investiu em 25 empresas da região, cerca de quatro a sete investimentos por ano. “Quando começamos, se voltarmos a 2010, por exemplo, na região havia basicamente um ecossistema de empreendedorismo interessante na Argentina, construído no final dos anos 90, na primeira onda da internet.”

Alvarez-Demalde fazia parte desse ecossistema energético de Buenos Aires. Naquela época, havia pouco capital, alguns bons empreendedores e muitas oportunidades.

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“Quando olho para isso hoje, 2022, o ecossistema de empreendedorismo aumentou muito em tamanho e capacidade, e eles não estão concentrados em nenhum país ou cidade.”

Como os primeiros funcionários dessas empresas de sucesso estão agora abrindo suas próprias empresas, hoje em dia, empreendedores de sucesso investem em outras empresas, como David Vélez, do Nubank, e Nico Barawid, da Casai, criando um ciclo de investimentos. Isso dá suporte ao ecossistema, segundo Alvarez-Demalde, que diz que agora o mercado junta empreendedores e diferentes fontes de capital.

Um 2022 mais moderado do que 2021 para o capital de risco

Os mercados de capitais são mais voláteis porque se correlacionam com diferentes ondas e tendências, como taxas de juros. Esse cenário preocupa startups em estágio avançado que queriam fazer um IPO, com o receio de abrir o capital a um valuation mais baixo.

Alvarez-Demalde diz que nos últimos três anos houve uma aceleração do fluxo de capital para a tecnologia porque as taxas de juros estavam muito baixas, o que criou esse canal para mais investimentos de risco. “A América Latina recebeu esse entusiasmo, assim como alguns setores nos EUA, na Índia e em algumas outras regiões.”

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Muitos novos capitais chegaram à região em 2020 e 2021. Agora, para 2022, Alvarez-Demalde sente que a empolgação seria um pouco menor, um ajuste devido à curva ascendente de juros.

“Você tem ciclos de capital voláteis, mas não acredito que isso signifique que a tecnologia desapareça na América Latina. É um movimento, acho que operacionalmente as oportunidades são muito significativas e acho que as empresas que estão crescendo bem poderão acessar ao capital”.

Segundo ele, a Riverwood está menos focada nos ciclos, pois vem investindo na região nos bons e maus momentos.

“Mesmo quando tivemos recessões significativas, crises, menos entusiasmo, nossas empresas do portfólio continuam crescendo muito bem, por causa da penetração do comércio eletrônico, da penetração de pagamentos digitais, da necessidade de segurança cibernética, todas essas tendências continuam mesmo que haja uma recessão”, afirmou. No entanto, ele reconhece que o número de IPOs vistos no ano passado dificilmente se repetirá em 2022.

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“Para nós não é um jogo de velocidade, mas um jogo de encontrar grandes empresas, fazer parcerias e tentar ajudá-las’, disse o investidor.

Ele não fala sobre o desempenho dos fundos, mas diz que as empresas da Riverwood têm “crescimento consistente nos últimos anos”. Há quatro dias, uma das startups bancadas pela empresa foi adquirida. A Technisys foi comprada pela SoFi Technologies por cerca de US$ 1,1 bilhão.

“Acho que isso vai continuar por causa da penetração do e-commerce, pagamentos digitais e fintechs. Esqueça os ciclos de capital, que são sempre voláteis, mas se você olhar para a oportunidade de operação, estou animado, não só nosso portfólio, mas muitas empresas de tecnologia na América Latina estão crescendo e oferecendo ótimos serviços e continuarão a fazê-lo”, acrescentou.

Questionado sobre o risco de investimentos que não dão certo, ele diz que investe em empresas em estágio final, o que não é tão arriscado quanto em estágio inicial. Os fundos da Riverwood se concentram em empresas estabelecidas.

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“Acho que para nós o risco e a avaliação é uma dinâmica muito diferente. Não acho que as empresas que apoiamos tenham esse tipo de risco, a maioria das nossas empresas, elas têm escala, estão trabalhando. Para nós, o grande risco se pensarmos no futuro é mais sobre competição, sobre execução e, claro, quando você está investindo você está assumindo um risco, você precisa fazê-lo, mas acho que a questão é mais direcionada aos estágios iniciais, do qual não fazemos parte.”

Enquanto algumas empresas de capital de risco como Kaszek decidiram criar um SPAC, a Riverwood diz que esse veículo não está nos planos, mesmo que a empresa seja focada em late-stage.

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann BR

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups