Combinação de magnetismo pessoal e distorção da realidade
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Bloomberg Opinion — Nos últimos 60 anos, vivemos em uma era de capitalistas carismáticos. O modelo da espécie era Steve Jobs. Eu estava em Moscou quando ele morreu em 5 de outubro de 2011, e me lembro de ver um pôster gigante de seu rosto sendo desenrolado ao lado de um arranha-céu e os russos reunidos em silêncio, segurando velas e alguns até choravam.

Mas os carismáticos prosperaram fora do Vale do Silício. Jack Welch, da General Electric, foi tratado como um semideus por supostamente fazer renascer a forma de conglomerado. Michael Milken foi reverenciado (e insultado) por transformar títulos de alto risco em ouro. Jeffrey Skilling, da Enron, contou uma história sedutora de libertar o gás natural das “restrições das moléculas e do movimento”. Na festa de aniversário de 18 anos do Alibaba Holding Group, o fundador da empresa, Jack Ma, vestiu-se como Michael Jackson e dançou a música “Billie Jean” na frente de 40.000 funcionários que vibravam diante da cena.

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Em seu novo livro, “The Emergence of Charismatic Business Leadership” (em tradução livre, “O surgimento da liderança corporativa carismática”), Richard Tedlow, um lendário professor da Harvard Business School, que agora faz parte do corpo docente da Apple University, argumenta que os líderes empresariais carismáticos são mais do que apenas personalidades grandiosas. Sam Walton era deliberadamente folclórico e discreto. Milken aparece como o nerd da classe.

O que os distingue é uma combinação de magnetismo pessoal e distorção da realidade. Você quer segui-los mesmo contra o seu melhor julgamento: um dos funcionários de Milken opinou que “alguém como Mike aparece uma vez a cada quinhentos anos”. E você é capturado pela visão de mundo deles: Guy “Bud” Tribble, um dos principais membros da equipe que projetou o Mac, disse que na presença de Jobs “a realidade era maleável. Ele podia convencer qualquer um de praticamente qualquer coisa… Era perigoso ser pego no campo de distorção de Steve, mas foi o que o levou a realmente conseguir mudar a realidade.”

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Essas figuras carismáticas explodiram no mundo dos negócios depois de uma época em que o capitalismo tinha se degenerado,transformando-se em uma burocracia cinzenta. O maior gerente da época, Alfred P. Sloan, orgulhava-se de ter transformado a General Motors em “uma organização objetiva, diferente daquele tipo de empresa que se perde na subjetividade das personalidades”. O livro mais revelador foi “O Homem Organizacional” (1956), de William H. Whyte, que inclui a maravilhosa frase extraída de um documentário produzido para a Monsanto: “não há gênios aqui; apenas um bando de americanos comuns trabalhando juntos.” Este era o mundo da alta gerência, o terno de flanela cinza e a atualização anual do mesmo produto antigo.

O capitalismo carismático foi produzido pelas forças mais poderosas do novo capitalismo desencadeado pela revolução Reagan-Thatcher. A inovação tecnológica permitiu que alguns pioneiros - gênios em vez de americanos comuns - construíssem impérios mundiais, assim como Andrew Carnegie e John D. Rockefeller fizeram na segunda metade do século XIX. A desregulamentação forçou as empresas estabelecidas a se tornarem mais ágeis. A explosão no salário dos executivos convenceu até mesmo os CEOs comuns de que eles eram gênios que mereciam aparecer na capa da Forbes. Por que outro motivo o CEO médio das 350 maiores empresas americanas classificadas por vendas recebeu 386 vezes o salário médio de um trabalhador, no ano 2000, em comparação com 45 vezes, em 1989. E mudar os costumes permitiu que membros de grupos externos, principalmente Oprah Winfrey, transformassem carisma em fortunas imponentes.

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Estamos agora testemunhando o fim do capitalismo carismático e um retorno à versão politicamente correta do “homem organizacional” de Whyte? A condenação de Elizabeth Holmes gerou uma infinidade de artigos condenando a cultura do “fingir até conseguir” do Vale do Silício. A história de Holmes é particularmente interessante porque ela começou mentindo não sobre seus produtos, mas fingindo o estilo carismático de liderança – vestindo uma gola alta preta estilo Steve Jobs, baixando a voz uma oitava para soar mais como ele e dominando a arte de não piscar.

Mas na verdade ela é apenas o exemplo mais recente de executivo carismático que deu errado. Em 2019, Adam Neumann viu seu sonho de abrir o capital da WeWork desmoronar quando a papelada do IPO revelou seu poder descontrolado e inúmeros conflitos de interesse. Em 2017, a Uber substituiu Travis Kalanick, um visionário, mas um imã de polêmicas, por Dara Khosrowshahi, de quem poucos tinham ouvido falar fora do Vale do Silício. E em 2006, Jeffrey Skilling foi condenado a 24 anos de prisão quando a Enron se revelou uma fraude gigantesca. Quanto a Jack Welch, sua reputação ruiu mais rápido do que a capitalização de mercado da GE.

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A melhor resposta para a pergunta do fim da era é aquela oferecida por um lacaio obsequioso ao carismático barão da imprensa em “Scoop”, de Evelyn Waugh: “até certo ponto, Lord Copper”. O estilo carismático certamente está sendo marginalizado. Muitas das grandes empresas da revolução tecnológica agora são administradas pelos equivalente atuais aos homens de ternos de flanela cinza. Pense em Sundar Pichai, da Alphabet, Satya Nadella, da Microsoft e Tim Cook, da Apple. A Lei Sarbanes-Oxley de 2002, introduzida na esteira do escândalo da Enron, aumentou simultaneamente as penalidades por comportamento ultrajante e impulsionou a demanda por burocratas corporativos. A China deixou claro para os empresários que só há espaço para um líder carismático: o Sr. Ma agora passa seu tempo jogando golfe, lendo textos taoístas e aprendendo a pintar a óleo em vez de conviver com líderes mundiais. A maioria dos CEOs ocidentais tem tanto medo de ver suas carreiras destruídas por um comentário politicamente incorreto que, se falarem qualquer coisa em vez de confiar em suas equipes de relações públicas, limitar-se-ão a banalidades agradáveis sobre “abraçar a diversidade em um mundo em rápida trasnformação”.

Mas os capitalistas carismáticos não vão desaparecer da cena. A razão mais óbvia para isso é que a revolução tecnológica continua ganhando ritmo e se espalhando para novas áreas. Elon Musk, que não apenas fundou a primeira empresa automobilística americana de sucesso desde a Chrysler em 1925, mas também está liderando a transição urgente do motor de combustão interna para a eletricidade, é rotineiramente perdoado por seu comportamento bizarro e seus ataques de contestação das regras porque ele é espetacularmente bem-sucedido. Podemos muito bem ver figuras semelhantes a Musk emergindo em todos os tipos de áreas da velha economia, desde o complexo militar-industrial, que certamente está pronto para uma disrupção, até a agricultura.

Há também uma razão mais sutil: em tempos de disrupção, a liderança é mais uma questão de dar sentido às coisas do que fazer os trens saírem na hora marcada. Líderes inovadores precisam ser capazes de sonhar os sonhos maiores possíveis – inventar o metaverso ou colonizar Marte como uma proteção contra a destruição da Terra. E eles precisam ser capazes de seduzir pessoas altamente talentosas a se juntarem a eles criando uma história irresistível – engajando-se no que Tribble chamou de “distorção da realidade” e Samuel Taylor Coleridge apelidou de “suspensão voluntária da descrença”. “O carisma transforma uma troca de mercado – você trabalha e eu te pago – em uma troca social – siga-me e você será um ser humano mais realizado”, como diz Tedlow.

O estilo carismático tem muitas desvantagens, desde produzir fraudes como Elizabeth Holmes até encorajar gênios como Milken a ignorar a distinção entre regras que existem por falta de imaginação e leis que são vitais para o funcionamento bem-sucedido de uma economia capitalista. Mas o lado positivo é muito maior: produzir empresas que possam “mudar a realidade” e revolucionar não apenas a produtividade, mas os limites do possível.

Adrian Wooldridge é o colunista de negócios globais da Bloomberg Opinion. Ele já foi redator do Economist. Seu último livro é “The Aristocracy of Talent: How Meritocracy Made the Modern World”.

Os editoriais são escritos pela diretoria editorial da Bloomberg Opinion

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

– Esta notícia foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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