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Bloomberg Opinion — Como se a pandemia e o aumento da inflação não bastassem, os europeus enfrentam outra fonte de preocupação para o inverno que se aproxima: uma crise de energia.

Uma crise de oferta fez com que o preço da energia atingisse níveis recordes, bem a tempo da estação mais fria do ano. Também corre o risco de agravar uma situação preocupante na Ucrânia. Com a Rússia concentrando suas forças na fronteira, a dependência da Europa do gás russo limita as opções do Ocidente para impedir uma invasão.

Os líderes da Europa precisam responder. Reduzir as importações de gás russo e melhorar o acesso a fontes alternativas beneficiará a região como um todo e ajudará o clima também. Isso significa investir mais em armazenamento de gás e outras infraestruturas, acelerando a adoção de energia renovável e expandindo o uso de energia nuclear. Ao coordenar as políticas de forma mais próxima, as nações europeias podem construir um setor de energia mais sustentável e impedir que o presidente russo, Vladimir Putin, use a energia como arma para dividir o Ocidente.

À medida que a Europa abandona o carvão como fonte de energia e os depósitos de gás envelhecem, a produção doméstica diminui e a necessidade de compras no exterior aumenta. A Europa fez progressos no uso de regulamentação para reduzir a influência da gigante Gazprom, mas a Rússia continua sendo o maior fornecedor, respondendo por quase 47% das importações de gás natural para a União Europeia no primeiro semestre deste ano. A dependência é particularmente alta na Europa Central e Oriental. A Gazprom também tem capacidade significativa de armazenamento subterrâneo no continente, especialmente na Alemanha, dando a Moscou uma vantagem ainda maior sobre a capacidade da região de lidar com mercados voláteis e interrupções.

Essa influência aumentará com a conclusão do gasoduto Nord Stream 2, que transportará gás sob o Mar Báltico para a Alemanha. Embora o projeto melhore a capacidade da Gazprom de fornecer diretamente à Europa Ocidental - e, portanto, em teoria, alivie a escassez de energia no futuro - também aumentará o controle da Rússia sobre o fornecimento europeu e (talvez contra intuitivamente) deixará a UE mais vulnerável. No mínimo, o novo governo da Alemanha deve garantir que o processo de certificação do gasoduto permaneça em suspenso enquanto a Rússia continuar a ameaçar a Ucrânia.

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Os desafios energéticos do continente, no entanto, vão além do impasse atual. Enquanto o gás natural continuar a ser crucial para o aquecimento e usos industriais, a Europa terá de apoiar prioridades nada glamourosas, como aumentar a eficiência energética, melhorar a infraestrutura de gás natural liquefeito e, em particular, expandir a capacidade de armazenamento de gás, que permanece irregular em todo o continente e torna mais difícil comprar quando os preços estiverem baratos.

Mais importante, os governos devem acelerar a adoção de energia mais limpa. Avançar com as propostas existentes da UE para impulsionar o hidrogênio com emissões zero ajudaria a desmamar países e indústrias do gás natural, assim como o armazenamento adicional de energia gerada a partir de fontes renováveis. Mas, como países como França, Holanda e Reino Unido reconheceram, impulsionar a independência energética da Europa - para não mencionar o cumprimento de suas metas climáticas - simplesmente não é plausível sem um novo investimento significativo em energia nuclear. Isso já faz parte dos planos da Polônia para cortar carvão e pode ajudar outros a fazer o mesmo. Líderes em países onde o movimento enfrenta ceticismo, como a Alemanha, precisam fazer mais para dissipar os equívocos sobre os riscos e custos envolvidos, especialmente à medida que reatores menores e mais seguros ficam disponíveis.

A Europa não pode quebrar sua dependência do gás russo da noite para o dia, mas pode evitar ser mantida como refém. Ao adotar uma estratégia coordenada para diversificar seus recursos energéticos, os líderes europeus podem reduzir a vulnerabilidade a interrupções no fornecimento e a capacidade de Putin de causar danos.

— Editores: Clara Ferreira Marques, Romesh Ratnesar

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