Será que a COP26 vai conseguir fazer o que as outras 25 não conseguiram?
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Opinion — Já houve 25 conferências das Nações Unidas sobre mudança climática desde a primeira reunião do órgão em 1995. Durante esse período, foram emitidas cerca de 894 bilhões de toneladas de dióxido de carbono – cerca de 37% de toda a poluição do efeito estufa da história da humanidade. O que nos faz pensar que a 26ª conferência, que começa em 31 de outubro, será diferente?

A resposta está nos antigos desafios de forjar grandes acordos internacionais – e pode ser mais esperançosa do que pensamos.

PUBLICIDADE
Mais de um terço das emissões de carbono da história ocorreram desde a primeira reunião da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima em 1995dfd

Um dos lemas do multilateralismo é que acordos globais eficazes podem ser profundos e focados, ou amplos e superficiais, mas não funcionarão se tentarem ser profundos e amplos. O Protocolo de Montreal de 1987, que controlava produtos químicos que danificam a camada de ozônio, é um exemplo clássico do primeiro caso. Os efeitos do tratado são profundos – este é vinculativo com relação a todos os estados membros da ONU e, por si só, reduzirá o aquecimento global em até um grau Celsius – mas seu escopo é estreito, regulando um único nicho de compostos.

Veja mais: COP26 dá a largada para ‘investimentos verdes’ no agronegócio

PUBLICIDADE

Os tratados de direitos humanos da ONU, por outro lado, estabelecem normas globais abrangentes para as relações entre o indivíduo e o estado. Contudo, sua aplicação é superficial, e até mesmo os signatários frequentemente parecem tratá-los como promessas sem valor. Nove dos 10 países com classificação mais baixa em igualdade de gênero no Índice de Paz e Segurança da Mulher ratificaram a Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres.

Essa dicotomia coloca as negociações sobre o clima em desvantagem desde o início. Sua intenção é incrivelmente ampla: refazer os sistemas de energia que alimentaram todo o planeta desde a Revolução Industrial, bem como as práticas de uso da terra que empregamos desde a Idade da Pedra. Ao mesmo tempo, a fiscalização deve ser intensa, porque o mundo não pode se dar ao luxo de repetir a trajetória de emissões desde aquela primeira reunião.

PUBLICIDADE
Apenas Irã e Arábia Saudita não possuem protocolos para reduzir emissõesdfd

Para agravar o problema, os países estão amplamente divididos quanto a como proceder. O melhor exemplo é a divisão entre o G7 (as sete maiores economias avançadas) – que, em conjunto, representam 53% de todas as emissões de carbono [1] – e os Grupo dos 77 países emergentes. Controlar as emissões em economias pós-industriais cujas populações atingiram o pico é muito mais fácil que em países que estão apenas começando a aumentar sua população, renda e atividade industrial que chamamos de desenvolvimento.

O G-77, cujos maiores representantes incluem China, Índia, Brasil e Indonésia, é frequentemente retratado como o destruidor de negociações: recusando-se a aceitar restrições à capacidade de poluição e argumentando que os países mais ricos devem cortar suas emissões mais rapidamente antes que os mais pobres cumpram quaisquer limites absolutos. Os países do G-7 são acusados de não fazer concessões para o impulso que suas próprias economias receberam com décadas de emissões e de protestar contra as nações em desenvolvimento, que possui poucas alternativas.

PUBLICIDADE

Essa divisão frequentemente moldava as negociações. O núcleo do Protocolo de Kyoto, primeiro grande acordo climático adotado na COP3 em 1997, foi essencialmente um tratado entre o G-7 mais a ex-União Soviética, Austrália e Nova Zelândia. Se as ações contra a mudança climática ficarem reféns da resolução de antigas controvérsias entre países colonizadores e suas antigas colônias, as perspectivas para o planeta são realmente sombrias.

Veja mais: COP26: Metas mais ambiciosas como fim do carvão seguem distantes

Os países que assinaram o Protocolo de Kyoto conseguiram reduzir suas emissõesdfd

Acredite se quiser: ainda há motivos para sermos otimistas. Um fato surpreendente sobre o Protocolo de Kyoto é que um acordo amplamente considerado um fracasso foi, em muitos aspectos, um sucesso. Os países que permaneceram no acordo não apenas atingiram a meta de redução de 5% nas emissões nas duas décadas posteriores a 1990 [2] – eles foram muito além, com reduções de 11% que chegaram até 17% em 2019. Este é um bom exemplo das evidências de que metas ambiciosas são mais propensas a serem atingidas que metas mais tímidas.

O problema do Protocolo de Kyoto não era que os países não atingissem as metas com as quais se comprometeram – é que muito poucos se comprometeram com as metas. Quando você inclui os Estados Unidos e o Canadá, que saíram do protocolo, a queda de 11% nas emissões é reduzida para 2,2%. Se analisarmos as economias em desenvolvimento que foram excluídas no início do tratado, o quadro fica ainda pior. Enquanto as emissões de combustíveis fósseis dos países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico caíram cerca de 4,4% entre 1998 (ano seguinte à assinatura de Kyoto) e 2019, as do resto do mundo mais que dobraram.

Isso aponta para a última razão para um otimismo cauteloso. Durante a maior parte do tempo em que essas reuniões ocorreram, o interesse nacional preeminente dos delegados em energia de baixo custo foi mais facilmente atendido com o vínculo a combustíveis fósseis, enquanto os riscos físicos das mudanças climáticas pareciam remotos e teóricos. Ambos os lados dessa equação estão mudando com uma velocidade alucinante.

Veja mais: Brasil abre as portas para negociação do mercado de carbono na COP26

Nos países que representam cerca de 52% da geração de eletricidade do mundo, a forma mais barata de geração de energia passou dos combustíveis fósseis para a energia renováveldfd

As energias renováveis são a fonte mais barata de geração de energia para dois terços da população mundial e até prejudicam a energia fóssil existente na China, na Índia e grande parte da Europa, segundo a BloombergNEF. Os veículos elétricos representaram 17% das vendas de automóveis na União Europeia no trimestre encerrado em junho e 13% na China. Embora a atual crise energética cause um aumento de curto prazo nas emissões de combustíveis fósseis para interromper o fornecimento de energia, a China está redobrando seus esforços para controlar as indústrias poluentes, e a Índia alertou que os altos preços do petróleo irão acelerar a transição para tecnologias de carbono zero.

Por outro lado, as inundações recentes na China, Alemanha e Índia e os incêndios florestais no Canadá, além da temporada mais ativa de furacões no Atlântico registrada no ano passado, são evidências de como os efeitos da mudança climática estão cada vez mais próximos. Só nos EUA, foram 18 desastres climáticos que custaram bilhões de dólares apenas em 2021.

Os países em conferências internacionais não estão interessados para obter visibilidade ou fazer caridade. Eles só assinarão contratos que considerem ser de seu interesse. Durante a maior parte das últimas três décadas, a economia bruta da energia e do clima impediu um acordo que valesse a pena. Finalmente, agora temos uma certa pressão para os negociadores.

[1] Incluindo a União Europeia como um todo, que está representada no G-7 sem ser tecnicamente um membro. O G-7 é composto pelos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá.

[2] Tecnicamente, a data final foi uma média das emissões durante o período de 2008 a 2012.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

David Fickling é colunista da Bloomberg Opinion cobrindo commodities, bem como empresas industriais e de consumo. Foi repórter da Bloomberg News, Dow Jones, do Wall Street Journal, do Financial Times e do Guardian.

Leia também

‘Brasileiro corre para investir no exterior’, dizem XP e Avenue

Ação do Facebook fecha no menor nível desde maio