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Brasil simplifica gestão ESG das empresas com ajuda da tecnologia

B3 aprimora questionários para adesão ao índice de sustentabilidade, levando companhias a utilizarem softwares de produção de relatórios

Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — A partir de janeiro de 2022, os investidores do mercado brasileiro de ações vão ter acesso a rankings com as empresas de capital aberto mais avançadas na agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), o que tende a facilitar a análise das questões de sustentabilidade dentro das organizações à medida em que as decisões de aporte de recursos se guiam, cada vez mais, por indicadores de responsabilidade social e ambiental.

Isso será possível graças à revisão da metodologia do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) da B3, que convidou para participar de seu processo de seleção as 200 ações de maior liquidez da Bolsa. Nem todas as companhias inscritas serão escolhidas pela Bolsa. A primeira prévia da nova carteira do ISE deve sair em dezembro.

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Segundo a B3, houve uma simplificação e redução de cerca de 40% do questionário a partir da reorganização das perguntas, combinação de tópicos similares e eliminação de questões inconclusivas, além da eliminação do item Mudança de Clima, que passa a adotar o resultado do questionário aplicado pelo CDP (Carbon Disclosure Project), organização internacional criada por investidores que solicita informações de mudanças do clima para as maiores empresas do mundo.

A nova metodologia busca um alinhamento a padrões internacionais, a eliminação da quantidade máxima de empresas permitidas no índice e uma maior transparência e comparabilidade nas jornadas ESG de cada companhia. Mas como as companhias receberam essas mudanças? Integrante do conselho que discutiu as alterações da metodologia do ISE, a construtora MRV exemplifica como esse processo apresentava problemas.

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“Antigamente, a gente tinha de responder questionários de empresa de alimentação. Ficava complicado responder questão sobre bem-estar animal, se o seu produto faz mal. Não fazia sentido para nós, como construtora. A gente respondia ‘não se aplica’, aí não ganhava pontuação no ISE”, diz José Luiz da Fonseca, gestor de Sustentabilidade da MRV.

A construtora se inscreveu para compor a nova carteira do ISE, a partir de 2022. Fonseca diz que não basta responder aos questionários exigidos pela B3, mas comprovar as informações prestadas anexando evidências. Ele não sabe ainda se a MRV, presente há 5 anos nesse índice, vai ser selecionada.

“Com a mudança radical de metodologia, há perguntas novas, mais específicas ao setor que atuamos. Existe uma régua de corte. A tendência do ISE é subir essa régua de corte, tirar as empresas da zona de conforto, trazendo novas questões ESG para as empresas”, diz o gestor.

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Planilha de Excel

Não é fácil a gestão ESG. São mais de 5 mil parâmetros para a empresa monitorar e analisar, em tempo real, a fim de preencher seus relatórios de sustentabilidade sobre todas as operações. Não dá para controlar e atualizar tamanho fluxo de dados pelas planilhas do Excel, afirma Fonseca.

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Uma das ferramentas que a MRV utiliza é o software Climas, da consultoria WayCarbon, que funciona integrado ao ERP (Enterprise Resource Planning, sistema de gestão integrado). “Pelo Climas, a gente controla com mais exatidão nossos dados sobre a gestão de obras, escritórios e lojas da companhia no Brasil inteiro”, conta o gestor de sustentabilidade da MRV.

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Além do Climas, há outros softwares que disputam o mercado de gestão de indicadores e performance ESG, como o SIS (Sistema de Indicadores de Sustentabilidade), da TBL Manager, e a plataforma Deep ESG, de uma startup homônima de São José dos Campos (SP).

Carla Leal, diretora de growth da WayCarbon, confirma que a gestão de ESG ainda caminha para uma padronização dos relatórios e que exige das companhias muita paciência com as constantes mudanças de metodologias, como a feita pelo ISE da B3.

“ESG não é uma linguagem universal como é o mundo das finanças. Se você fala faturamento, receita, custo, lucro, EBITDA, todo mundo sabe o que significa, é uma linguagem comum. ESG é mais difícil, não foi criado ainda esse padrão. O mercado de metodologias não está maduro”, afirma.

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Ela diz que hoje as organizações precisam de uma equipe enorme para responder a cerca de 20 a 30 relatórios. “Quanto maior a empresa, mais relatórios ela terá de preencher”. Carla considera, no entanto, que as mudanças implementadas pela B3 para o ISE foram bem-vindas, pois reduziram o volume de questionários exigido das empresas.

O Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 foi criado em 2005, sendo o quarto do tipo no mundo e o primeiro da América Latina. O índice conta com um Exchange Traded Fund (ETF), o ETF ISUS11 (fundo de índice), listado em 31 de outubro de 2011, uma opção ao investidor atento a esta agenda. Além do ETF, outros 14 fundos de investimento são atualmente indexados ao ISE B3, somando pouco mais de R$ 652 milhões em patrimônio líquido, até o último dia 30 de junho.

O que muda no ISE B3?

  • Divulgação das notas individuais obtidas por cada uma das empresas que participarem do índice, com detalhamento, inclusive, por temas que vão do capital humano a práticas de negócios e mudança climática, permitindo a comparação entre companhias e entre setores. Informações estarão disponíveis no www.iseb3.com.br
  • Questionários elaborados com perguntas específicas para o setor de atuação de cada empresa permitirá o aprofundamento da análise das companhia
  • Risco reputacional passa a ser um critério para eliminação de empresas da carteira do ISE B3
  • Revisão da carteira duas vezes ao ano, permitindo ajustes em prazo mais curto

O que muda para as empresas?

  • Simplificação e redução de cerca de 40% do questionário a partir da reorganização das perguntas, combinação de tópicos similares e eliminação de questões inconclusivas, além da eliminação do item Mudança de Clima, que passa a adotar o resultado do questionário aplicado pelo CDP
  • Inscrições gratuitas. Antes o valor era de até R$ 35 mil
  • Alinhamento a padrões internacionais
  • Eliminação da quantidade máxima de empresas permitidas no índice
  • Maior transparência e comparabilidade nas jornadas ESG de cada companhia
Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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