Internacional

Imunidade de rebanho contra Covid-19 pode nunca ser atingida

Novas variantes como a delta mostram que conseguem romper essas barreiras de proteção em alguns casos e estão elevando o nível necessário para alcançar a imunidade coletiva

A Infectious Diseases Society of America estima que a delta havia elevado o nível necessário para a imunidade de rebanho acima de 80% e, possivelmente, perto de 90%
Por Michelle Cortez
16 de Agosto, 2021 | 11:28 am
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg — Quando a Covid-19 avançava pelo mundo no ano passado, governos promoviam a chamada “imunidade de rebanho”, uma terra prometida onde o coronavírus deixaria de se espalhar de forma exponencial porque um número suficiente de pessoas estaria protegido contra o patógeno. Agora, essa perspectiva parece uma fantasia.

O argumento era de que a pandemia perderia força e então desapareceria principalmente quando uma parte da população, possivelmente de 60% a 70%, fosse vacinada ou tivesse imunidade por meio de uma infecção anterior. Mas novas variantes do coronavírus como a delta, que são mais contagiosas e mostram que conseguem romper essas barreiras de proteção em alguns casos, estão elevando o nível necessário para alcançar a imunidade coletiva para patamares muito altos, quase impossíveis de se atingir.

A cepa delta eleva o número de casos em países como Estados Unidos e Reino Unido, que já enfrentaram ondas de coronavírus e, presumivelmente, contam com certo nível de imunidade natural, além de taxas de vacinação acima de 50%. Também atinge nações que até agora conseguiram tirar o coronavírus quase totalmente de circulação, como Austrália e China.

Neste mês, a Infectious Diseases Society of America estimou que a delta havia elevado o nível necessário para a imunidade de rebanho acima de 80% e, possivelmente, perto de 90%. Autoridades de saúde pública como Anthony Fauci, dos EUA, causaram polêmica ao mudar as metas no último ano, aumentando o número de pessoas que precisariam de proteção antes de se atingir a imunidade coletiva. Ao mesmo tempo, com a hesitação em relação às vacinas e problemas de oferta, a maioria dos países não chegará nem perto dos números originais.

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“Será que vamos conseguir a imunidade coletiva? Não, é muito improvável, por definição”, disse Greg Poland, diretor do Grupo de Pesquisa de Vacinas da Mayo Clinic, em Rochester, Minnesota.

Mesmo uma taxa de vacinação de até 95% não seria suficiente, disse. “É uma corrida disputada entre o desenvolvimento de variantes cada vez mais transmissíveis, que desenvolvem capacidade de escapar da imunidade, e as taxas de imunização.”

Natureza

A natureza também não vai resolver o problema. Não está claro por quanto tempo a imunidade natural obtida com a recuperação da Covid-19 pode durar e se será eficaz contra novas cepas. Variantes futuras, incluindo algumas que poderiam escapar da imunidade de forma ainda mais eficiente do que a delta, levantam questões sobre como - e quando - isso vai acabar.

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“Se fosse tão simples como ‘pegar a infecção uma vez significa que você está imune para o resto da vida’, seria ótimo, mas não acho que seja o caso”, disse S.V. Mahadevan, diretor do Centro para Pesquisa e Educação em Saúde da Ásia do Centro Médico da Univesidade Stanford. “Esse é um problema preocupante.”

Já há sinais de que algumas pessoas e alguns países - como o Brasil e outros países da América do Sul - estão sendo atingidos pela segunda vez por cepas mais novas.

Sem imunidade coletiva, o coronavírus pode durar décadas de alguma forma, possivelmente obrigando os países mais poderosos a ajustar suas estratégias divergentes de abertura de fronteiras e economias.

Revisitando 1918

A chamada gripe espanhola de 1918 mostra como a Covid pode evoluir, disse Poland, da Mayo Clinic. É provável que variantes continuem a surgir, levando à aplicação de doses de reforço ou campanhas de imunização de rotina, direcionadas às cepas mais novas.

“Então, se tivermos sorte, o que provavelmente acontecerá é que isso se tornará algo mais parecido com a gripe, que sempre teremos”, disse Poland. “Vai ficar mais sazonal, assim como os coronavírus que já estão circulando, e só teremos que continuar imunizando.”

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