Negócios

Petrobras rebate receio de investidores com lucro recorde

Analistas esperam que o governo comece a usar os dividendos pagos por empresas estatais, incluindo a petroleira, para financiar programas sociais, o que tornaria os ganhos uma prioridade

A estatal reportou receita líquida de R$ 42,86 bilhões e antecipou o pagamento de dividendos
Por Peter Millard e Mariana Durão
05 de Agosto, 2021 | 04:00 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg — A Petrobras viu seus ganhos atingirem níveis recorde no segundo trimestre, proporcionando alívio aos investidores, após baque de uma mudança de gestão confusa no início do ano.

A estatal reduziu sua carga de dívida e anunciou a distribuição antecipada de dividendos graças aos resultados robustos, provocando o maior salto nas ações desde fevereiro. Credit Suisse Group AG e Scotiabank fizeram o upgrade para outperform.

Foi um momento de resgate para o Diretor Presidente Joaquim Silva e Luna. As ações despencaram quando o general do Exército foi contratado para assumir o controle da maior produtora de petróleo da América Latina e analistas correram para colocar as recomendações de venda das ações. A preocupação era que o ex-militar com experiência zero na indústria do petróleo concordasse com as demandas do governo por combustível barato e empregos abundantes na empresa estatal.

Até agora, esses temores foram infundados. Margens robustas do combustível em seu negócio de refino contribuíram para o salto nos lucros. O Ebitda, medida de lucratividade, atingiu o nível recorde de quase 62 bilhões de reais, segundo dados da Bloomberg. A alta nos preços do petróleo, as margens mais altas nas vendas domésticas de combustível, as decisões fiscais favoráveis e a forte demanda por eletricidade e gás natural em meio a uma crise hidrelétrica em curso impulsionaram os lucros.

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O UBS espera que o Estado comece a usar os dividendos pagos por empresas estatais, incluindo a Petrobras, para financiar programas sociais, o que tornaria os lucros uma prioridade para o governo, bem como para os acionistas. O banco espera que os dividendos da Petrobras aumentem para até US$ 15 bilhões no próximo ano, segundo relatório.

A recuperação do preço do petróleo este ano gerou ganhos sólidos para os gigantes da energia, muitos dos quais estão gerando tanto lucro quanto antes da pandemia. Como resultado, muitos dos pares da Petrobras nos EUA e na Europa têm usado o dinheiro para aumentar os dividendos e reduzir a dívida. É uma reviravolta impressionante para uma indústria que estava em declínio há um ano, em meio à queda de preços induzida pela pandemia.

Desde o final do ano passado, a Petrobras vendeu mais óleo combustível no mercado interno e aumentou a produção em suas próprias usinas termelétricas, parte de uma política mais ampla no Brasil para conservar os níveis de água nas hidrelétricas e evitar cortes de energia. Embora a divisão de energia da Petrobras represente uma fração da receita geral, ela se destacou. A geração de eletricidade mais do que triplicou no segundo trimestre em relação ao ano anterior.

A Petrobras reportou receita líquida de R$ 42,86 bilhões, acima dos R$ 1,17 bilhões no primeiro trimestre, contra perda de R$ 2,7 bilhões no segundo trimestre do ano passado, no auge da crise da Covid. Os resultados marcam o melhor segundo trimestre da história da empresa.

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Os bons resultados permitiram a companhia a anunciar a antecipação de R$ 31,6 bilhões em dividendos a acionistas neste ano, cerca de três vezes a média distribuída nos últimos três anos. O diretor financeiro Rodrigo Araújo disse que a Petrobras pode pagar ainda mais dividendos se tiver caixa suficiente.

“Considerando nossas perspectivas de lucro e geração de fluxo de caixa em 2021, aprovamos a distribuição antecipada de dividendos”, disse Araújo em vídeo.

A produção do pré-sal, que detém as maiores e mais lucrativas descobertas da Petrobras, continua a se expandir. Um navio de produção de 180 mil barris por dia deve iniciar neste mês e aumentar gradualmente no campo de Sépia. Esta e outras novas unidades permitem que a Petrobras continue a aumentar a produção em campos ultraprofundos e compensar a produção que perdeu devido à venda de ativos e quedas naturais em campos legados.

A Petrobras cortou o que antes era a maior dívida de qualquer empresa de petróleo de capital aberto, de US$ 63,7 bilhões no final do segundo trimestre. A empresa prometeu aumentar o pagamento de dividendos ao reduzir a dívida total para menos de US$ 60 bilhões, meta que está a caminho de atingir antes do final deste ano, disse Araujo. O programa de desinvestimento em andamento ajudou a Petrobras a reduzir sua dívida.

Foi o primeiro trimestre de Luna, que assumiu em abril após uma discussão entre o presidente Jair Bolsonaro e o CEO anterior sobre o aumento dos preços do diesel. Luna se comprometeu a evitar subsídios aos combustíveis e continuar com o plano de negócios atual da Petrobras, que prevê o desinvestimento de ativos, incluindo refinarias, para se concentrar em seus projetos mais lucrativos no pré-sal.

“Continuamos trabalhando duro, apoiados em decisões absolutamente técnicas, e estão evoluindo e nos tornando mais fortes”, disse Luna no relatório de resultados.

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Os investidores estão esperando para ver com que firmeza Luna defenderá a Petrobras de intervenções políticas. A empresa recentemente desmentiu uma declaração de Bolsonaro, de que havia destinado R$ 3 bilhões para subsidiar gás de cozinha para famílias carentes.

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